As cores eram diferentes… eram novas e indecifráveis.

 

Ao mesmo tempo todos na cidade sabiam que aquilo no céu ERAM CORES, de fato. Que cortavam e atravessavam o azul e o branco usual como flechas que se acendiam e sumiam, segundos depois. Os carros se chocavam, as pessoas enlouquecidas corriam amedrontadas anunciando o apocalipse. Alguns gritavam ajoelhados dizendo se tratar de anjos. Pediam perdão, oravam sem parar. Um ônibus escolar tombou e todos frearam de vez em cima da faixa de pedestres, entre o correio e o mercadinho. Vários atropelados, pessoas se atirando de prédios. As farmácias lotadas, as igrejas lotadas, os mercado e bares lotados. As praias lotadas de gente com binóculos e um ar abobalhado… infantil. Os políticos se escondiam em silêncio.

 

Quanto mais as cores apareciam e quanto mais brilhavam e desciam pra perto das ruas, as pessoas iam saltando dos carros segurando câmeras de celular, com as mãos na testa a fim se esconder como se fossem expostos a algo mortal. Sempre acreditaram que fosse possível controlar a força do sol (sempre pensaram). E agora achavam impossível controlar a chegada daquelas cores… advindas de uma nova era. Todos os jornais, revistas e sites tentaram falar a respeito, porém não tinham muito a acrescentar devido a falta de imagens e vídeos. Não havia tecnologia nos equipamentos para captar as novas cores… Apenas os olhos podiam ver. Então, quem tinha inteligência e serenidade, simplesmente parava num local seguro, e observava. A verdadeira graça diante do vislumbre – hora alegre como o dia, hora misterioso e taciturno como a noite – era ficar o máximo de tempo possível do lado de fora olhando… e sentindo. Pois as cores traziam também um novo tipo de calor. Um tipo diferenciado de sombra. As pessoas abriam os braços sorrindo, sentindo os efeitos dos novos raios. Assim como alguns doentes e depressivos se curavam e saiam correndo de dentro de casa, de clínicas e hospitais… saltitando de emoção pelas ruas, todas as pessoas se abraçavam quando se encontravam. Todos de repente se pareciam… familiares. Conhecidos de algum lugar. Enquanto metade do mundo se desesperava e morria… outra metade recebia de braços abertos os melhores momentos de suas vidas.

 

… crianças continuavam sendo crianças. Simplesmente se adaptavam em questão de minutos.

 

Alguns dias depois… todos amanheceram com as novas cores pintando o mundo por completo. Elas agora pintavam as casas fazendo com que os cães uivassem como mil violoncelos em uníssono e gatos tentavam ronronar e produziam sons que lembravam clarinetes. As cores apareceram também nas obras, prédios e casas. Assim como nas mãos dos artistas, nas vozes de quem cantava. As notas saíam pintando os palcos…

 

E as pessoas saíram pintando tudo com ajuda das crianças que carregavam estojos de lápis de cor nas mochilas da escola e pareciam entender daquilo tudo há muito mais tempo… A cidade parou… o mundo parou prestando atenção nisso. A criminalidade foi suspensa, a política… e aquelas notícias incessantes sobre quem vai guerrear com quem. Isso durou muitos meses…

 

Até que dois homens cruzaram a praça compartilhando de fortes reclamações…

 

– UM ABSURDO! Eu não encontro NEM UMA TINTA LARANJA sequer na cidade, ABSURDO! Está em falta!

 

– É UMA CRISE! Onde estão as NOSSAS cores de sempre?! E as cores da BANDEIRA?! O que faremos sem ela? NÃO É JUSTO!

 

Sentados em frente a TV um casal discutia sobre a descoberta de uma tal “Religião do Azul que Voltará”. Ele queria frequentar os cultos e conversar com o pastor… e quem sabe até encontrar a cor natural de suas calças jeans no guarda-roupa. Ela achava o dízimo exorbitante e não queria ir. Estavam brigando todos os dias por isso. Do outro lado da cidade uma menina dava o maior porre em sua festinha de seis aninhos, pois tinha pedido desde o ano passado uma festa da Barbie e “todo mundo sabe que A BARBIE É ROSA e não dessa cor!”, gritava chorando. Além disso um casal de idosos andava tendo sérios problemas de insônia. É que todo aquele colorido por mais lindo que fosse não lhes lembrava o bom e velho cinza das velhas cortinas. Não lembrava o frio da cidade gelada onde cresceram. Os abrigos onde passaram a infância, o cheiro intoxicante dos tanques e das veraneios cantando pneu… toda aquela tensão… que os fazia dormir tão profundamente.

 

Um ano depois da chegada das novas cores… mais da metade das pessoas do planeta já estavam realmente insatisfeitos com aquilo. Rogavam pragas evitando olhar até demais para cima… amaldiçoando “AQUELE HORROR” que pintava o céu estragando o azul do planeta. Para estabelecer a ordem, preservar os velhos costumes e o que sobrara das cores antigas (que estavam escassas) o prefeito de uma pequena cidade, com aval dos vereadores, do juiz, do padre e de todos os três pastores… assim como dos médicos e líderes comunitários; fizeram valer um decreto de PROIBIÇÃO do uso das novas cores. Assim como qualquer tentativa de olhar para o alto por mais de um minuto seguido. Esta lei valia das sete às cinco horas da tarde, onde os cidadãos só poderiam “usufruir” APENAS COM FINS MEDICINAIS das novas cores… mediante atestado médico e pagamento de – gordos – impostos.

 

 

 

 

Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 01/03/2025
Código do texto: T8275008
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