Entre os cacos da ampulheta...  BVIW

 

Ao olhar entre os cacos da ampulheta enigmáticos, reflexos, recortes da janela quebrada, qual hipnótico caleidoscópio, “Reticere”, apelido de um catador de material reciclável, assim ficava, ao encontrar, num quase devaneio, alguns dos objetos que os moradores deixavam encostados no canto do muro.

 

Há encanto e mistério em cada objeto que suas mãos ávidas recolhem e as acolhem com carinho, talvez tenha a sensação de viverem à margem da sociedade, na qual ele, de certa forma, viveu e vive. Reticere, nome de origem latina que significa reticências, aparenta ter uns 60 anos e deixa-se envolver pela luz do sol matinal, enquanto limpa, com a barra da camisa puída, seus óculos; para visualizar melhor e juntar da calçada, a pequena e empoeirada janela de madeira branca, com três dos seus quatro vidros, trincados...

 

Age, como se fosse colher flores e as colocasse em seu carrinho de mão, quanto à ampulheta, junta seus cacos; sentindo a passagem do tempo em grãos e espelhadas horas, a imagina inteira numa redoma translúcida, com cintura fina, numa antiga simbiose entre areia e vidro... Sobre o amanhã, ‘mergulha’ e reconstrói-se na frase de Fernando Pessoa: ”Eu não sei o que o amanhã trará.” (...)

 

. Conto - Tema: Janela quebrada