Janela quebrada (conto)

 

“A culpa foi do Luizinho, mas ele, com aquela cara de santo, deu a entender que não tinha nada a ver com aquela arte. E ainda jogou a sujeira nas minhas costas… Não ter pai dá é nisso!”

 

Juca pensava essas coisas, tão revoltado, envergonhado e cheio de dor na alma. Dona Maria andava com ele pelas ruas da pequena Flor do Rio, levantando poeira das chinelas. Juca estava com uma das orelhas vermelhas que nem ameixa preta, depois que dona Maria quase a arrancou. Também, pudera! Fora chamada à casa de Dona Iracema Boaventura, por causa do filho que acertou em cheio a janela da sala do casarão. Brincadeira de rua com os amigos. Dona Maria não tinha como pagar, pois era viúva do finado Severino do Revirado, lavava roupa para por comida no bucho dos sete filhos homens. Juca era o caçula, de apenas sete anos. Os leões tinham muito apetite. Cada um já trabalhava e ajudava a mãe, mas ainda eram solteiros. Mas pagar uma janela inteirinha, de cristal vindo da Espanha, do casarão do doutor da cidade, isso era coisa impagável! O jeito foi negociar: lavaria a roupa da família de graça pelo resto da vida!

 

Ao chegarem em casa, ainda levou umas correiadas nas costas. Dona Maria precisava ser brava pra domar aqueles homens que pariu. Sua casa parecia um quartel. Tinha hora pra acordar, pra almoçar, pra jantar e pra dormir. Juca era orgulhoso e gritou só o necessário para calar aquela dor insuportável da injustiça. Mas era sobretudo inteligente. Não plantou espinho desse incidente, mas uma flor. Responsabilizou-se pelo acidente, pois se ele não tinha culpa no cartório , ainda mais a sua mãe! E prometeu à mãe que buscaria e entregaria a roupa na casa dos Boaventura, toda a semana, e que selecionaria seus amigos dali pra frente. O bem, paga-se com o bem. Juca não sabia que isso despertaria o amor em Laura, a florzinha linda e educada, filha do doutor… Lá na frente, numa das esquinas da vida, estaria se casando com ela na pequena capela do Campanário!

Cassia Caryne
Enviado por Cassia Caryne em 15/01/2025
Reeditado em 15/01/2025
Código do texto: T8241894
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