FOI O VENTO

 

POR: Sônia Machado

 

Capítulo 32

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NAQUELA NOITE, DEITADA COM OS OLHOS NO TETO, Lívia tentava compreender as reviravoltas de sua vida. Para quem não tinha como pagar o aluguel do mês, uma fortuna cai de um dia para o outro em suas mãos. Ela não ficara eufórica com isso, até porque não se importava com bens materiais. Ela só achava estranho esses desígnios do destino.

Lívia não conseguia dormir pensando em toda aquela realidade que o destino havia jogado em suas mãos. Ela se sentia frágil demais para carregar tanto fardo. Até mesmo a doença e a morte da mãe tinha sido um fardo mais leve.  Era um fardo que não lhe tirava a liberdade de viver na simplicidade, embora doesse. Agora, sem que ela esperasse e até mesmo quisesse, ela tinha uma responsabilidade grande em suas mãos. Tinha inclusive funcionários que dependiam dela e não podia falhar.

—Como vou conseguir administrar tudo?— Era só o que conseguia pensar e não aguentando mais imaginar o que lhe viria pela frente, Lívia tentou se concentrar na chuva que caia fazendo um leve tilintar rítmico e sossegado no telhado e na janela. Por instantes se imaginou andando na chuva e teve ímpetos de correr para a rua e deixar que ela molhasse seu corpo e sua alma como fez o homem do filme musical e clássico “Cantando na Chuva”. Ela havia assistido certa vez a esse filme que marcara a transição do cinema mudo para o sonoro. Achara romântico o homem dançando na chuva depois de beijar a namorada. E até já brincara de fazer isso certa vez quando voltava do colégio e a chuva lhe pegara desprevenida na rua. Ela só não havia beijado ninguém antes. Quem sabe ela dançasse também agora e toda a sua dor, saudade e solidão fossem embora com a enxurrada e sumisse pelos bueiros. Mas não, fora covarde e preferira amargar a insônia e a sensação de que estava só no mundo e que até o avô partira deixando-lhe responsabilidades que ela não sabia se conseguiria arcar.

Uma lágrima quente molhou seu travesseiro enquanto imaginava o som da música do filme misturado à chuva e tudo que ela mais queria é que as nuvens carregadas espantassem todos de seus lugares, como dizia um verso da música. Que espantasse inclusive ela.

Lívia enfim chorou todas as lágrimas que o orgulho prendera em sua garganta por tanto tempo. E chorou... Chorou pelo pai, pela mãe e pelo avô que nem sequer tivera tempo de conhecer direito.  E seu pranto era como a chuva caindo pelas calhas.

Na manhã seguinte o espelho denunciou suas olheiras, mas Lívia se sentia mais leve.

Alguns sentimentos são como um fardo pesado demais para se carregar. —Ela havia pensado enquanto abria a janela para o dia nublado. —Não quero mais isso. Melhor enfrentar tudo logo.

Uma névoa branca quase encobria as árvores quando ela desceu para colher as rosas ainda molhadas da chuva noturna. Depois tomou o café da manhã lendo as instruções que deveria seguir para a abertura do testamento do avô. O Dr. Fonseca logo passaria para levá-la.

 Ao se preparar para a audiência, Lívia tentou se vestir de uma maneira formal o que não era seu estilo e nem tinha roupas muito adequadas para isso, tipo terninhos, calças de alfaiataria.

—O que vou vestir? — disse quase em desespero repassando todas as roupas do armário. O máximo que tinha era jeans e Jeans.

De repente se lembrou de um artigo que lera em um site da Internet “Como ser formal usando Jeans”. O truque era simples ela se lembrara.

—“A ideia é combiná-lo com peças formais como o blazer, camisas, e apostar nos modelos de calça que fujam do boyfriend e total destroyed, que costumam ser mais descoladas e informais”— dizia o artigo e até mostrava fotos de modelos com as dicas.  Lívia estalou os dedos e novamente foi repassando suas roupas mais devagar.

—“Acrescentar uma peça mais sofisticada já ajuda a tirar o ar largado que o jeans pode ter. Deixe a camisa social por dentro do cós da calça. Adicione um sapato de bico fino... "— disse em voz alta relembrando as dicas do artigo. — Ah! Aqui está você... — falou pegando, como se fosse sua tábua de salvação, a única camisa branca que possuía.

Lívia seguiu à risca as dicas do artigo: vestiu uma calça Jeans flare, ajeitou a camisa dentro do cós e calçou seus scarpins nude de salto médio e bico não tão fino. Por fim rodopiou em frente ao espelho gostando do resultado.  O ar mais formal parecia que lhe transmitia mais confiança.

—Tudo que preciso hoje é de confiança e tranquilidade. —Lívia falou em voz alta acertando os cabelos. Só não conseguiu disfarçar muito as olheiras que adquirira na noite anterior devido à insônia. Enfim desceu as escadas apressada assim que avistou pela janela o Dr. Fonseca parando em frente sua casa. Ele desceu para cumprimentar Lívia cordialmente e abrir a porta do carro para ela.

—Está tudo bem menina? — perguntou reparando nas olheiras profundas de Lívia.

Lívia apenas assentiu com a cabeça. Não pretendia dar abertura para conversa naquele momento. Preferiu se concentrar na sua tensão e ansiedade que voltara a todo vapor. Logo percebeu que a suposta confiança que o estilo formal lhe provocara era apenas uma ilusão tola, pois assim como veio havia sumido. Além disso, teve a impressão de que era outra pessoa e não a Lívia dos jeans descolados e tênis, dos vestidos Três Marias e rasteiras nos pés.

Dr. Fonseca respeitou seu silêncio enquanto se dirigiam para o Fórum da Zona Oeste de São Paulo. Ele havia percebido o quanto ela estava tensa. Mas, assim que desceram do carro, ele finalmente rompeu o silêncio e perguntou:

—Está mais tranquila Senhorita Lívia?

—Na verdade estou pensando que vou ficar maluca. É preciso mesmo seguir esse protocolo?—Ela respondeu querendo sair correndo dali.

– Sim. É preciso. —E tocando de leve o braço de Lívia a guiou pela escada de entrada.

 

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Diante do Juiz, o coração de Lívia queria saltar do peito. Ela estava muito tensa, mas manteve a pose quando o Meritíssimo finalmente rompeu o lacre do grosso envelope que Dr. Fonseca o entregara. E cumprindo o protocolo leu todo o conteúdo diante do olhar impassível de Lívia.

O Juiz olhou para Lívia por cima dos óculos quando finalmente a nomeou herdeira testamentária do Sr. Vicente Lopes, cujo nome estava expressamente designado naquele testamento para receber a herança disponível. E depois foi enumerando a grandiosidade dos bens que o falecido Sr. Lopes, avô de Lívia possuía.

Lívia continuava impassível, mas o coração batia forte no peito. O desespero tomando conta de si. Ela não queria nada daqueles bens. Queria a sua família. De que adiantava tudo se não tinha os bens mais preciosos de sua vida?  Ela queria sair correndo dali para simplicidade de sua vida.  Mas quando tentou se levantar Dr. Fonseca a fez sentar-se novamente

Finalmente o Juiz leu também uma cláusula condicional resolutiva, pela qual o Sr. Lopes determinava que Lívia já pudesse pleitear a herança e recebê-la, devendo, posteriormente, contudo, cumprir uma condição: metade dos lucros obtidos mensalmente com seus bens imóveis e ações deveriam ser revertidos em obras sociais.

Lívia não podia acreditar no que ouvia. O avô prepotente tinha se redimido em seus últimos instantes de vida. Ela estava orgulhosa dele e seria também com um orgulho positivo que receberia sua herança, para cumprir a clausula resolutiva do testamento. E faria mais, pois o restante que lhe cabia era demais para si mesmo. Ela não precisava de tanto. Bastava-lhe apenas sua sobrevivência e o custeio de seus estudos que ela retomaria.

No entanto, quando desceu as escadas do Fórum acompanhada do Dr. Fonseca, Lívia estava calada. O que a esperava parecia grandioso demais. Não a fortuna em si mesma. Para ela pouco importava os bens materiais. Ela pensava nos projetos que iria criar para mudar a vida de muitas pessoas.

—Está tudo bem Senhorita Lívia?— O Advogado parecia preocupado com seu silêncio. —Agora você é uma menina milionária. Anime-se... —E bateu em seu ombro.

Lívia o olhou nos olhos. No fundo recriminando o comentário do advogado.

—Sabe Dr. Fonseca? Isso pouco me importa. Na verdade me assusta. Por que as pessoas pensam tanto em bens materiais?

—Porque as pessoas precisam deles para sobreviver. — O advogado respondeu. — A sobrevivência é um direito fundamental. Quando não existe a possibilidade de sobrevivência cessa até mesmo as condições de liberdade sabia?

—Sim... O Senhor está certo. — Lívia admitiu. —Precisamos de bens para sobreviver. Mas uns tem demais. Como meu avô tinha.  E agora eu. Enquanto outros não têm nada. Isso não me deixa feliz.

—Respeito seu ponto de vista menina. — Dr. Fonseca mudou sua pasta de mão e começou a descer a escada acompanhado por Lívia. — Pense agora que terá a oportunidade de ajudar muitas pessoas. Aos que não tem nada.

— Sim... Sim... Isso me anima. — Lívia seguiu o advogado escada abaixo. — Mas confesso que também estou muito assustada com tudo isso. Ainda de manhã eu não tinha dinheiro para pagar o aluguel da casa e agora ela é simplesmente minha. Além disso, são muitas coisas para resolver daqui para frente. Decisões a tomar. Responsabilidades. — Lívia estava assustada. — será que vou conseguir?

Dr. Fonseca parou um instante e olhou para Lívia. Parecia indefesa e ingênua. Por um instante duvidou que ela fosse capaz de administrar a fortuna do Sr. Lopes. Mas quando a olhou nos olhos viu que neles, não havia somente medo e insegurança. Havia também determinação.

—Você não vai estar sozinha. Eu estarei lhe dando suporte. Seu avô me pediu e, se você não se opuser será um prazer ajudar a neta do Sr. Lopes. Era a vontade dele. —O Advogado garantiu.

—Eu agradeço Dr. Fonseca. Vou precisar sim e muito de sua ajuda.

Já na rua, Dr. Fonseca abriu a porta do carro para Lívia. Depois já sentado ao volante e antes de ligar o motor do carro, virou-se para ela e disse:

— Senhorita Lívia. Suas responsabilidades começam a partir de agora.

— Mas assim tão rápido? —Lívia o olhou assustada.

— O mundo dos negócios não para não sabia? Além disso, você tem muito que aprender a partir de hoje. Tem uma equipe que já está te esperando na Imobiliária.

—Uma equipe? —E Lívia ficou imaginando como iria lidar com essa nova realidade. Uma coisa ela sabia: não ia permitir jamais que a prepotência tomasse conta de si como seu avô permitiu quando se tornou rico.

— Sim Senhorita Lívia. Uma equipe... Por enquanto não é você que irá comandá-la. — olhou de soslaio para Lívia ao seu lado no carro. — Você será comandada por ela, ou melhor, treinada. Achou mesmo que eu ia te jogar assim na cova dos leões? — E deu uma gargalhada para espanto de Lívia que simplesmente revirou os olhos e tentou sentir o vento leve que entrava pela janela do carro. Só o vento tinha o poder de acalmá-la.

 

 

CONTINUA...

 


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