FOI O VENTO

 

POR: Sônia Machado

 

Capítulo 27

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NOS ÚLTIMOS DIAS D. ESMERALDA SEMPRE APARECIA também no alpendre para observar Lívia colher as rosas que ainda insistiam em lutar contra o inverno.  Lívia as colhia e entregava à mãe que preparava o buquê e colocava no vaso.

Apesar da fraqueza e outras reações, D. Esmeralda se esforçava para viver cada momento de uma forma mais intensa que antes. Era uma força tamanha que emanava dela que Lívia chegava a ficar assustada. Sua mãe lia mais que o normal. Ria mais que o normal. Até comia mais que o normal. E também fazia longas orações ajoelhada diante do pequeno altar que tinha no quarto. Lívia ficava preocupada, mas não a repreendia. Ela sabia que o tempo da mãe estava contado e deixava que ela fizesse tudo que tinha vontade.

Quando a vida está por um fio, cada minuto é precioso e todas as coisas ganham um sentido ainda maior. Até mesmo as mais pequenas.  As lembranças e objetos também ganham destaque nessa fase. Não era raro Lívia ver a mãe folheando, por exemplo, o seu caderno de receitas, estojo de costura, álbum de fotos do casamento.

—Veja Lívia, essa receita de ambrosia. Ela se parece com doce de leite. A diferença é que vão ovos. Foi minha avó que me deu a receita. Faz tempo que não faço.

— Papai ainda estava vivo. Ele amava.

Verdade. Sabia que esse doce é conhecido como espera marido? —E ria junto com a filha.

Lívia também a via remexendo no estojo de costura como se procurasse linhas ou botões. Pegava um ou outro. Outro dia a viu manejando a velha máquina de costura e chegara a colocar óleo nas engrenagens.

Quando ela pegava o álbum de casamento, então, elas nem viam as horas passarem.

—Meu vestido de noiva, foi o mesmo de minha mãe. Era de renda, mas bem simples. Veja, não tinha essas saias volumosas.  O véu era nos ombros.

— Mas era bem lindo mamãe. Essas coisas mais antigas, hoje tem um valor enorme no mundo da moda. A senhora sabia que o mercado fashion de hoje têm trazido essas coisas de volta? Principalmente vestidos de noiva? Inclusive é chique usar o vestido de noiva da mãe.

—Verdade filha?— D. Esmeralda disse e, de súbito se levantou e foi até o armário e a custo puxou um baú lá do fundo. Lívia que fora atrás da mãe a ajudou. Ambas abriram juntas o baú e lá estava: o vestido de noiva da mãe. A renda ainda branca apesar do tempo.

— Seu vestido de noiva mamãe... —  E Lívia levou a mão à boca e depois o tirou do baú com cuidado.

—Experimente... — Sua mãe pediu.

—Mas mamãe... — Lívia temia estragá-lo afinal várias décadas haviam se passado. Sua avó havia se casado com ele. Depois sua mãe.

— Por favor, filha...

—Esta bem mamãe. —E Lívia se enfiou naquelas rendas para alegria da mãe. 

—Ficou perfeito. Não precisa ajustar nada. — E virava a filha pra lá e pra cá verificando todos os detalhes como fazem as costureiras.

—Sabe minha filha... Sempre sonhei vê-la se casando com esse vestido. — Está fora de moda, mas...

—Não mamãe, não está. Não te falei que os vestidos de noiva Vintage estão em alta? Vou sim me casar com ele— E simulou uma entrada cantando uma música nupcial. Ambas riram.

—Será que Arthur vai gostar? Eu tenho certeza que vocês vão voltar a namorar e vão se casar. — Esmeralda falou sem pensar.

—Mamãe...

 

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Chega um momento, porém, que o corpo desiste de lutar e numa manhã D. Esmeralda piorou o estado de saúde.

—D. Esmeralda desenvolveu uma metástase. — Dr. Raul comunicou à Lívia, depois de submeter sua mãe a vários exames entre eles, Exame ósseo (cintilografia óssea), Ultrassom do fígado, Ressonância magnética.

— O que isso significa Dr. Raul?— Não que Lívia não soubesse o que fosse metástase. Ela sabia. Ela só queria entender isso com relação à sua mãe.

—Significa que o câncer se espalhou para outros órgãos do corpo.  O câncer de mama metastático se espalha para os ossos, pulmão, fígado e cérebro. No caso de sua mãe atingiu o fígado. Por isso anda sentindo dor no abdômen, fadiga e perda de peso...

 — Então minha mãe vai morrer? —Lívia perguntou com lágrimas nos olhos. Metástase para ela significava algo monstruoso. Era uma sentença de morte. Já havia lido em algum lugar que mais de 90% das mortes por câncer são causadas por metástase.

O médico passou a mão na cabeça de Lívia de forma paternal e respondeu.

— Veja bem, um diagnóstico de metástase não significa que o paciente está em fase terminal da vida. Conheço pacientes com metástases que vivem bem, são ativos e produtivos por algum tempo. Claro é uma situação difícil. No caso de sua mãe não é fácil porque o tratamento parece que não teve muita reação e, além disso, ela tem muitas reações adversas que a deixam muito fraca.

—Existe uma chance de ela ficar bem?— Lívia perguntou com esperança.

—Olhe, sempre existem chances, mas gosto sempre de ser franco menina— O médico fitou os olhos de Lívia— A chance de cura de uma metástase depende do tamanho e da localização.  De maneira geral, as chances são baixas, vou ser sincero. Os tratamentos apenas aumentam a sobrevida.

—No caso da Metástase de fígado existem muitas terapias sistêmicas e locais, combinadas ou não. A cirurgia, por exemplo, é um tratamento local, mas está descartada para sua mãe em razão da arritmia grave que desenvolveu. De forma que o tratamento vai ser sistêmico. Estamos avaliando tudo com urgência.

Lívia soluçou alto, mas Dr. Raul continuou.

—Desculpe-me a sinceridade, mas como médico não posso te enganar entende. —Tenho que ser prático. E você, menina, precisa ser forte. Sua mãe precisa de você. — disse batendo nos ombros de Lívia.

 

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D. Esmeralda começou o tratamento da metástase que atingira seu fígado. Os médicos optaram pela terapia da ablação, opção para tumores pequenos e pacientes que não podem fazer a cirurgia por outros motivos clínicos. 

A ablação, por exemplo, destrói o tumor do fígado sem removê-lo, seja por radiofrequência, micro-ondas entre outros.

No caso de D. Esmeralda os médicos decidiram por uma ablação por radiofrequência, um procedimento que utiliza ondas de rádio de alta energia. Uma corrente de alta frequência passa por uma sonda inserida na pele guiada por ultrassom ou tomografia, aquecendo o tumor e destruindo as células cancerígenas. Esse método de tratamento é comum para tumores pequenos como era o caso de D. Esmeralda.

Apesar das terapias, o tumor de D. Esmeralda resistia. Ela ficava cada dia mais debilitada devido às várias complicações o que diminuía ainda mais suas chances de sobrevida.

Foi então transferida para a ala paliativa do hospital A.C.Camargo Câncer Center, Unidade Pires da Mota, onde D. Esmeralda sempre seguia seu tratamento. Ela preferia ter ficado em casa, mas sabia das dificuldades que Lívia enfrentaria, por isso resignou-se. No hospital ela teria mais de perto auxílio ao controle dos sintomas da doença, do tratamento e ainda prevenia sofrimentos desnecessários. 

O hospital mantinha um cuidado integral aos pacientes, cuidado esse que ia desde as terapias próprias do tratamento e dos sintomas físicos do tratamento e da doença quanto os aspectos emocionais, psicológicos e espirituais. Era, portanto, um tratamento personalizado e multidisciplinar que incluía também a família do paciente. O objetivo era uma melhor qualidade de vida para ambos, o que envolvia diversas especialidades, como médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e até representantes religiosos. 

Para Lívia não era fácil, pois o fato da mãe estar sob cuidados paliativos reforçava ainda mais a iminência de sua partida e isso lhe trazia muita tristeza e sofrimento. Mas se mantinha firme ao lado da mãe sem demonstrar sua tristeza e amargura. Sua mãe precisava dela.

 

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Em uma manhã fria no final de julho a mãe de Lívia despediu-se da vida. Os ventos pareciam mais fortes e gelados. Isso sempre acontecia na transição de julho para agosto. Apesar disso, naquela manhã, D. Esmeralda pediu a Lívia para subir as cortinas Rolô e abrir a janela e ficou algum tempo fitando o céu azul e a figura dos prédios altos. Depois, virando-se para Lívia disse:

—Não esqueça minha filha... — Sua voz era fraca. —Não cometa os mesmos erros de sua família.

Lívia ajeitou-a no travesseiro e beijou-lhe o rosto.

—Não vou esquecer mamãe. Mas procure descansar.  Não fique se esforçando muito.

—Você vai ficar bem minha filha?— D. Esmeralda ainda perguntou preocupada, certamente, com o fato de Lívia ficar sozinha depois que partisse.

— Olhe mamãe... Eu vou ficar bem. A Senhora também vai ficar bem. Não se preocupe com isso. Apenas descanse. Tudo vai passar.

—Sim... Vai... —E D. Esmeralda apertou as mãos da filha e virou-se para dormir.

 Lívia com um aperto no peito saiu um instante do quarto para espairecer em um pequeno jardim que ficava entre duas alas do hospital.  O jardim tinha um pequeno lago em forma de L que seguia o alicerce de uma parede. O lado menor do L era margeado por um canteiro de folhagens altas. O jardim tinha também duas palmeiras de uns três metros. Uma delas ficava em um canteiro bem no meio do lago e a outra no centro do jardim coberto de gramíneas e folhagens baixas.

Lívia sentou-se em um banco de madeira com pés de metal e ali ficou por algum tempo pensando em tudo que estava acontecendo. A sua realidade era como aqueles filmes dramáticos cheios de conflitos e que nos deixam tensos ou que nos fazem chorar.

De repente Lívia sentiu um arrepio diferente. Não era um arrepio do frio que era intenso naquela manhã. Era como se fosse um frio intuitivo e então ela se levantou apressada e retornou ao quarto da mãe. Uma enfermeira a aguardava com a trágica notícia.

—Sua mãe partiu. Sinto muito...

 Lívia entrou correndo no quarto e encontrou a mãe sem vida e, em torno dela um médico e outra enfermeira. Ela simplesmente os afastou para abraçar a mãe, na esperança de que tudo fosse apenas um pesadelo. Mas quando a tocou sentiu a frieza da morte. Sua mãe já não era senão uma estátua de mármore polido e branco. Era tudo que restara de sua bela mãe. Contudo, a suavidade no rosto demonstrava dignidade. E era estranho para Lívia pensar nisso e até mesmo aceitar, porque o câncer para ela tirava a dignidade de qualquer um quando tirava a perspectiva de vida.

—Ela partiu enquanto dormia. —A enfermeira disse bem atrás de Lívia como se isso a ajudasse a aliviar o que sentia naquele instante. Mas era um alívio saber que sua mãe havia partido tranquilamente. Ela tinha receio de que a mãe agonizasse porque o câncer às vezes tem dessas coisas.  Então Lívia permitiu que duas lágrimas descessem de seus olhos, mas, antes que se tornassem rio, ela as enxugou. Era preciso ser forte, afinal era ela quem devia organizar a burocracia do funeral. E o fez com uma dignidade que nem ela mesma sabia que tinha.

Com a mesma dignidade, Lívia jogou um punhado de terra e uma rosa cor-de-rosa sobre o caixão da mãe. A última rosa do velho jardim. A última daquele inverno.

—Descanse em paz mamãe.  — disse em voz baixa e depois levantou a gola do casaco de lã preto alongado e caminhou rumo ao portão de saída do cemitério passando pelos poucos conhecidos que ali estavam.

O sol quase descambava no horizonte, deixando aquelas pinceladas, ora douradas, ora prateadas. O vento e o frio ousavam castigar seu rosto já marcado por tanto sofrimento.  Mas Lívia até gostava daquela dor que a ajudava esquecer a dor da perda.

 

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Ao longe, afastado, como se temesse ser descoberto, Lívia avistou Arthur. O suéter preto de sempre sob um casaco também preto. As mãos nos bolsos e o olhar negro dizendo tantas coisas que Lívia bem sabia.  Quando foi descoberto Arthur fez uma reverência, a costumeira reverência daquelas tardes de antes e o coração bateu forte no peito de Lívia.

Desde que romperam Lívia não tinha mais visto Arthur e se negara até mesmo a lembrar dos doces momentos.  Era uma forma de não sofrer, por isso, naquele instante simplesmente desviou o olhar e continuou a caminhar.

Um pouco adiante, mais afastado, como se escondesse também, ou não se achasse digno de se aproximar, estava o Sr. Lopes, seu avô, apoiado na bengala de caminhada. O chapéu preto de lebre e um terno preto risca de giz completavam o traje de luto. Ele era o típico avô que Lívia sempre sonhara. 

No instante em que seus olhares se cruzaram, Lívia pareceu enxergar uma humildade tardia e um velado pedido de perdão. Ele cumprimentou-a levantando a aba do chapéu e ela desviou o olhar quando o que mais queria era correr até ele. Era chorar, abraçada com ele todas as lágrimas contidas.

—Não cometa os mesmos erros de sua família... — A mãe havia lhe dito tantas vezes. Inclusive naquela manhã. Só que Lívia ainda não estava preparada para se jogar nos braços do avô. Não naquele momento de dor, porque era uma dor só dela e que ela precisava superar sozinha. Pelo menos era o que pensava.

Seu avô era a família que lhe restava e, no entanto, Lívia preferiu afastar-se, embora no íntimo já o tivesse perdoado. Por orgulho? Talvez sim. Não era essa a característica daquela família?  O mesmo orgulho que, ao longo dos anos fora o combustível da família de Lívia, parecia ser agora o mesmo que a movia.

Então ela atravessou o enorme portão de ferro do cemitério com um andar firme. Alcançou a rua e entrou em um táxi.  Precisava seguir em frente.

 

 

CONTINUA...

 


 

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