Depois de três dias naquela cidade, Liliana pensou como tudo estava diferente. As casas reconstruídas, tão modernas! Lembrou-se de quando cresceu ali, correndo pelas ruas de terra, hoje todas asfaltadas. Com saudade, olhou na esquina da Igreja Matriz, onde era antes a Padaria do Sr. Rasquinha.
Morava em uma rua paralela à praia e depois da escola, corria pela areia com sua amiga Luzia, apostando corrida de quem chegaria primeiro ao mar.
- Vamos depois até a casa do Padre, subir na árvore e pegar caju? - Luzia perguntava com seu rostinho corado. Chegou a sentir na boca o sumo do caldo daqueles cajus saborosos e ácidos, uma secura travando a boca.
Como despedida desses dias tao especiais, resolveu andar na beira do mar descalça e veio à sua memória, ela e sua mãe de mãos dadas, e quando a espuma branca do mar bateu em seus pés, ouviu-a dizer: - “Olha filha! Espuminha de Toddy!” - quanta ternura!
Já no ônibus, em frente da Rodoviária, viu a antiga casa do Prefeito. Ah! aquelas festas juninas feitas no grande quintal quando dona Vera, sua esposa, colocava nas mesas um arroz doce inigualável, com aquele cheiro de canela!
Deitou-se no banco e, cansada, dormiu. Acordou mais tarde percebendo que o ônibus entrava em São Paulo. Daqui a algumas horas estaria no burburinho das ruas e a vida começaria de novo. Sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto e soube que era de felicidade. Aqueles dias acordaram muitos sentimentos dentro dela.
Pensou o quanto estava precisando dessa pausa em sua rotina. Foram momentos de reflexão e auto-descoberta, melhores do que qualquer divã de analista.