E PRONTO, ACABOU-SE! (5 vidas - 1 final)

Meu consagrado, deixe eu lhe contar uma prosa. É o seguinte: ninguém nasce querendo ser bandido. Ninguém. A gente nasce ruim, isso é verdade, mas mesmo sendo ruim a gente acha que fez o certo. Tá ligado? E não me venha com esse caô de que tem criança que acha massa ser bandido e tal. O que criança acha massa é "ter muitos amigos" é "ser o manda-chuva" e ter dinheiro pra comprar o que quiser e quandl quiser. E mais, ostentar de machão. Aí quando cresce já viu, né meu amigo. O camarada curte ter o tresoitão na cintura, curte comer mulé. Curte a galera dizer que tu é o perigosão da área. E tudo isso.

E tem outra coisa. O cara quer ser visto. O filho do pedreiro honesto que vai pra escola e pra igreja e leva uma vida pacata, sabe quando a gente escuta o nome? Quando é vítima de bala perdida, assalto e essas porra tudo aí. Agora veja meu caso: Cocada. Tu não só ouviu falar de mim como sabe até o que eu fiz e se brincar tem até meu RG. E é isso que os cara quer, mídia, boy. Os cara quer midia.

Eu fiz a minha. Tô aqui. Mas lá na quebrada sou herói. E vai dizer que não? Me diz se tinha assalto lá onde eu ficava. Tinha? Agora tem um monte porque os cara que entrou não tá nem aí pras pessoa. Aí vai vir os home e tu vai ver o mar de sangue que vai dar. Digo é nada.

É claro que eu queria uma vida melhor, meu querido. Correr da polícia cansa. Fora que os que colabora não quer mais guaraná não, agora quer um churrasco inteiro e de brincar quer seu caneco. É foda! O que eu pensava era em juntar uns trocado e construir umas casas pra alugar, um carrinho e ficar de boa na minha. Arrumar uma mulher e me mandar. Um só. Que Mr Catra só tinha um.

Era isso. Só que aí me de deduraram. Disseram que foi uma das minhas mulheres enciumada. Tinha duas que tava grávida. Uma se chamava Doninha, braba que só, e a outra Joyce. As duas tava grávida e eu sabia que era meu… e não deixava faltar nada. Comprava o que tinha, pagava exame e tá aí… se brincar ja nasceu os dois. O problema é que Joyce é ciumenta pra peste, meu amigo… se ela descobrisse Doninha, ela ia atrás e queria nem ver. Por isso nem deixava o celular com ela. Na verdade, eu tinha dois, um pra Joyce e um pra Doninha. Só que a merda foi que um dia troquei os telefones e fui com o de Doninha.

Meu amigo…

quando eu percebi gelei. E a doida querendo tirar Selfie. Querendo ver meu zap. Bicho, corri pra trocar a imagem de tela. Colocar o logo da Inferno Coral, ver se disfarçava. Consegui. Voltei pra sala e ela perguntou porque eu demorei, falei que tava cagando.

Oxe, tu sempre avisa.

Pronto, Joyce!

E ai a gente ficou la conversando. Quando de repente… Doninha manda mensagem e aparece. Meu velho, ela viu. Perguntou quem era, disse que era cliente e tal... e aí foi pergunta atrás de pergunta. Dei uma de ninja, mas no final só ouvi essa…

Rodrigo, Rodrigo… tu sabe que eu descubro as coisas.

Duas semanas depois tava preso. Dormindo de boa na minha casa, aí escuto aquele baque e os home com revolver, com 12 e os carai a 4. Eu pedi pelo amor de Deus que não me matasse. Um lá me deu um tapa e riu:

Quer dizer que tão temido Cocada tá com medinho…

filmaram…

E aí me trouxeram praqui. E tô aqui. Pronto.

Aqui tive que me submeter. Tive que ser peão. Tem nome de porra nenhuma. Aqui sou o Guiguinho. Teve uns puto que começaram a me chamar de Zé do Coco, so pra tirar onda comigo. Mas tô vivo e to na luta.

Se eu quero mudar? Bicho, me responde uma coisa. Tu me daria um emprego? Tu me aceitaria? Não. Então que porra de reeducação é essa se bandido é bandido pra sempre?

Se é pra ser bandido, bora ser…

Mas tu escolheu, Cocada.

Tá mas se eu escolher não ser mais, tá novo? E se não conseguir emprego porque ninguém quer contratar é escolha minha?

São consequências. Tá mais pra toda a vida? Ou seja, o sistema não perdoa.

Ainda mais sendo preto. É foda. O primeiro cabra que roubei achou que eu ia roubar ele e aí de raiva roubei mesmo e curti. Ri pra caralho.

E hoje tô aqui. É isso. Pronto e acabou-se.

Doninha? Que é que tem? Morreu? Mas como? Mataram? Donda?

Filho da puta bicho. O bebê também?

Porra, que merda vei!

….

...

Que merda bicho.

É foda.

….

Fazer o quê, é a vida. Doninha era gostosa pra caralho.

Que pena.

EPÍLOGO

Quando a vítima é mulher, todas as versões são ouvidas, menos a da vítima.

Fica esse vazio.