O BISÃO NEGRO: TRINCADO
 
Neva forte nas terras do Duque Barlad, proprietário do bisão de pelo negro chamado Trincado. Trincado está do lado de fora da quente e confortável casa dos Barlad, mas dentro do seu cercado. Acompanhando o bisão escuro estão outros como ele. Alguns menores, outros mais largos, algumas fêmeas e poucos machos. Mas Trincado é o mais alto, velho e lento entre os animais.
O bisão negro observa os flocos de neve pousando sobre a grama, escondendo as folhas verdes que raramente aparecem no inverno. No cocho há ainda sal misturado com cenoura em pedaços. Uma comida péssima para quando o reservatório de água está vazio. O filho do Duque Barlad, Jon, não saiu de casa o dia todo. É função de Jon encher o recipiente redondo e espaçoso com água fresca, retirada do poço que fica dentro do pequeno castelo.
Mas os animais não passam fome. Eles receberam alimentação naquele dia, do próprio Duque. Ele é um homem gentil e feliz. É feliz por ter um filho homem que deve carregar seu sobrenome. Será o primeiro, caso sobreviva, a perpetuar um nome de família no reino. Há pouco a Guerra Arcana acabou, um combate que levou a maioria dos nobres mais baixos e colocou novos no lugar.
Trincado não liga para isso. A única incomodação que teve durante a guerra foi com seu chifre, quebrado por um transeunte que pensou poder usá-lo para fazer uma trombeta. O sujeito viu o bisão negro dormindo, dentro do cercado. Tirou da cintura a espada de ferro, pouco amolada, e acertou um golpe firme no chifre comprido e curvo, quebrando-o em duas partes. Trincado foi salvo pelo duque, mas recebeu o apelido no mesmo dia.
Os outros bisões consideram Trincado um líder, mesmo que isso sirva apenas para ditar o primeiro a comer e a escolher o lugar de dormir. O bisão sempre se acomoda junto à cerca, onde perdeu parte do chifre. Ele deita no mesmo lugar onde foi ferido para provar que, mesmo incompleto, ele é corajoso.
Dentro do pequeno castelo, o duque e sua família apagam as luzes principais e deixam dois guardas no portão. Os soldados logo se retraem, fugindo do vento e deixando o portão desprotegido. Trincado olha para a porta dupla de madeira. Ele não tira os olhos delas, sabe que se alguém tentar invadir o castelo ele é a única forma de avisar.
Passam algumas horas e o bisão ainda não fechou os olhos. A ventania diminui e a noite vira dia. Trincado dorme, não foi naquela noite que o Montanha Uivante foi atacado, graças a um bisão atento e chifre trincado.
Lucas de Lucca – 23 anos
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 30/08/2020
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