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Quinta-feira

Vinda das Guianas, apenas para conhecer o Brasil, Marfly chegou a Macapá e sem conhecer ninguém, vagando pelas vias do terminal rodoviário encontrou Marcella, alí estava esperando alguém que não veio. Daí começou uma amizade, café com leite. Marfly, a negra alta, de olhos azuis, corpo escultural e cabelos crespos enegrecidos e longos arrebatavam qualquer olhar, já Marcella branca de olhos castanhos claros, pouco expressiva ao lado de sua nova amiga, era uma mulher matreira e muito conhecida nas rodas da noite. Apresentou a Marfly a cidade, seus encantos, seus bares, seus cabarés e seus demônios.
Sem conseguir emprego de imediato, Marfly, aconselhada por Marcella começou a tirar uns trocados vendendo como especiaria o seu sagrado corpo e assim iniciou-se na prostituição. Vivenciando os viciados, os bêbedos e desaleitados. Trocando o dia pela noite, bebendo muito, fumando e gradativamente se perdendo numa vereda sem rumo.
Sem juízo, sem juízo vivenciava o prazer, seduzindo até os nunca imaginavam rastejar aos pés daquela mulher que se tornou a dama das noites.
Enquanto desfrutava da força da sua juventude, enganava e era enganada. Assistiu a jovens se apaixonarem e se envenenarem implorando o seu amor. Tanta era a procura e o desespero, que ela as vezes se escondia e só ficava com aqueles que tinham dinheiro e maior simpatia.
Tantas vezes se negou ao a ter uma família, esnobando e recusando dezenas de pedidos de casamentos, por acreditar ser a estrela de um palco, cuja fama, não é nada mais, nada menos que passageira da agonia. Até que um dia sofreu um duro golpe, de um daqueles que ela guardava um certo respeito. Se sentindo triste, vazia e sem rumo agitou a noite e foi aí, nesse dia, que ela, acometida de furor, sem pensar estar atinando contra si, embriagada se doou a vários clientes sem cobrar um centavo, recebendo em troca a alcunha de quinta-feira.
Tão conhecida por sua beleza e seus muitos desvarios, que ela acabou se tornando a rainha do carnaval, fato este que causou atrito com a sua única amiga, desde que chegara a cidade. A ponto das duas romperem e cada qual, a partir dali procurarem os seus caminhos. Marcella seguiu para o garimpo do interior da cidade, enquanto que ela permaneceu no colo dos cabarés.
Agora só, com o avanço da idade, quinta – feira se viu cercada pela enfermidade, pobreza, miséria e a solidão, que aos poucos vão consumindo as forças da alma.
Nesse contexto, começou a definhar, a se largar, a dormir e a andar pelas ruas da cidade. Contando apenas com a pena de um ou dois ex-clientes, donos de padarias, que sempre a alimentavam.
Sem parente e nem aderente a sua vaidade e a beleza murcharam como a flor após alguns dias. Sua força se rendeu ao vício das drogas que consumia para seguir na vida fazendo alguns que a encontravam naquele estado declamarem:
- Eis aí uma mulher, que um dia foi a luz dos olhos da alma de todo o rico ou pobre, mas o tempo e o imprevisto, que vem a todos cobrou-a com juros, pondo em cheque o que a gente pensa da liberdade. Na verdade, ela é vítima de si e dos seus desejos.
Passando alguns dias, o jornal noticiou, em letras pequenas, a esquerda da primeira folha, o amanhecer sem vida, abandonada nas ruas solitárias, de um domingo qualquer. Exposta no chão com um copo de cachaça, sob o alpendre de uma casa noturna. Aquela que um dia fora a beleza significativa de toda a cidade, terminava de ler o folhetim, a porta de uma taberna, no garimpo, sua ex amiga dona Marcella, totalmente entregue as lágrimas.
Alberto Amoêdo
Enviado por Alberto Amoêdo em 08/11/2019
Código do texto: T6790180
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alberto Amoêdo
Macapá - Amapá - Brasil, 54 anos
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Alberto Amoêdo