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RIO ANTIGO - PARTE V


 
Sempre foi assim...  Cinco mil pessoas enfrentando polícia, quebrando postes, virando veículos...  Três mortos, infinito número de burros  (isso mesmo:  quadrúpedes inocentes!) esfaqueados, os puxadores dos bondes que cortavam a cidade - tempo ainda de MACHADO DE ASSIS, que assumiu não ter participado da estreia dos bondes elétricos.  A causa?  Reajuste de um vintém no preço das passagens - na atualidade, o equivalente a R$0,20 nos ônibus.  Revolta repetida em 2013.  No passado, 1880, primeiro protesto de trabalhadores estimulados pela crescente oposição a D. Pedro II   (Revolta da Vacina somente em 1904, já República).  Problemas semelhantes numa futuríssima descendência familiar - insatisfação, rebeldia.  -----   Bom, aí a proliferação desordenada  de favelas - Europa levara um século para 'esquecer' o perfil rural, status urbano do Rio demorou pouco mais de 40 anos.  Processo acelerado aliado á falta de planejamento, urbanismo que nunca saiu  do papel, o desenvolvimento localizado foi para as classes mais altas, *exclusão dos cidadãos de segunda classe, daí metrópole desigual, assim conhecida até hoje.   ---  Na época da Revolta do Vintém, a cidade girava em torno do Centro, a palavra "subúrbio" designava local de abastados, como Glória, Catete e Laranjeiras, pouca ocupação e muitas árvores - cenário bucólico em "Dom Casmurro", 1899, protagonistas Bentinho e Capitu, morando na Glória, viam o mar pela janela  (Aterro do Flamengo só em 1965), incensada Praia do Flamengo de águas limpíssimas.   ---   No início dos anos 1900, um quarto da população morava em cortiços, os carentes  /expressão contemporânea/, incluindo ex-escravos que haviam trabalhado nas lavouras de café do interior:  condições precárias de higiene e moradia, mal cheirosas  (impossível banho diário e compra de perfumes franceses, caríssimos  - Chanel n. 5, da estilista Coco Chanel,  só em 1921), locais doentios e focos de infecção, citado sempre o cortiço  "Cabeça de Porco", proprietária morando na Gávea, área nobre carioca.  Como "higienizar" a cidade e torná-la metrópole 'parisiense'?  O prefeito Pereira Passos, mandato de 1903 a 1906, por certo disse "Eu mando!"  /eternos repetidores da frase e da tentativa de domínio!/ - 1.700 imóveis demolidos para alargar e abrir ruas, praticamente reconstrução da Avenida Central  (hoje Rio Branco).   ---   Ora, cidade fundada para expulsar franceses, depois imitando a França...   ---   A "varredura"  (ideia repetida em 1960) acabou com as moradias populares, botou para correrem as classes mais baixas.  Então, sem poder pagar transporte, solução foi subir o morro ou empurrados para os novos **subúrbios, agora com conotação negativa, bairros cada vez mais longínquos do Centro, que seguiam o traçado das estrada de ferro, criadas para transportar mercadorias.   ---   O bonde, sob o controle de empresas estrangeiras, símbolo de separação da cidade - um carro para as classes alta e média, outro para os pobres, o taioba, painel indicando que/quem poderia embarcar:  "bagagem e descalços".  Os bondes faziam o trajeto para a Zona Sul, seguindo até o Jardim Botânico, preço mais caro pelo percurso extenso, e foi limitando o público;  não havia linha única, encontro entre suburbanos e moradores da Zona Sul acontecia no Centro.   ---   Tensão entre as classes sociais, como nas festas religiosas - em "Lucíola", de JOSÉ DE ALENCAR - Paulo a conhece no festejo da Nossa Senhora da Glória, rua da Lapa, moça dando esmolas, e só depois a descobre cortesã.  A festa para Nossa Senhora da Penha, nas décadas de 1900 a 1910, atraía a elite católica e os ditos pobres, que faziam rodas de samba e capoeira, em época de criminalização da cultura africana  (de novo em 2019?), e polícia perseguia os negros.   ---   Na década de 30, Estado Novo de Getúlio Vargas, força na abertura de vias e obras de urbanização no subúrbio, com trens eletrificados e criação de linhas de ônibus.    ---   Comparando, em 1940, 70% da população brasileira viviam no campo X em 1980, 70% dos brasileiros na cidade - o resultado disso é a "periferização", favelização, inchaço urbano e imobilidade
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NOTAS DO AUTOR:
 
*Raízes dessa lógica no livro "Cidade partida", de ZUENIR VENTURA, 1994.
 
**Subúrbio, frequente em muitas obras denunciadoras de LIMA BARRETO, escritor pré-modernista.
 
FONTE:
 
"Assim caminhou o Rio:  rápido e sem direção", artigo de CARINA BACELAR - Rio, jornal O GLOBO, 17/9/17.
 
                                    F  I  M
 

Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 02/11/2019
Código do texto: T6785596
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 52 anos
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Rubemar Alves