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A TEMPESTADE.



Despertou assustado, olhando para todos os lados, a escuridão era total, forçou os olhos na tentativa de enxergar alguma coisa, mas era impossível. Faltará luz, o pequeno abajur que colocará ao lado do criado mudo estava apagado. Arthur odiava escuro, desde a infância ele não gostava do escuro. Mas, para sua infelicidade, naquela noite, logo ao iniciar a tempestade, teve outro apagão no bairro. Arthur sentou-se na cama, os olhos arregalados, o coração acelerado, as mãos trêmulas.  Respirou fundo, dizia a si mesmo para ter calma que a luz logo voltaria. Tateou no escuro a procura do celular,  Arthur não se lembrará onde o deixou. Temeu ter que levantar, não demorou para a imaginação começar a criar seus monstros, continuou sentado na cama sem saber o que fazer. Em um impulso levantou-se, ficou parado por alguns instantes, pensou em seguir tateando pelas paredes, desistiu, sentou-se novamente à beira da cama. Colocou as mãos sobre o rosto, estava nervoso, angustiado, o medo crescia cada vez mais. Em um segundo impulso levantou-se outra vez. Tomou coragem, ainda que, as pernas não parassem de tremer, alcançou com dificuldade a parede ao lado da cama. Agora era seguir em frente, não tinha mais volta, arrependeu-se de ter tomado tal atitude, era tarde demais, já havia dado os primeiros passos. Seu medo era tamanho que, de repente, esqueceu-se a direção onde estava a cama. A situação que já era crítica piorou. Arthur permaneceu de pé, como se estivesse grudado como que por cola naquela parede. Era preciso continuar, seguir em frente, 'mas qual direção?', pensou. No escuro qualquer lado era direção. Tentou seguir no que julgou ser a direção da porta do quarto, deu mais alguns passos no escuro, parou, de repente, relâmpagos riscavam o céu de um lado a outro, trovões, a claridade o fez ver a porta de relance, estava na direção certa, apenas mais alguns passos e estaria na porta. Por sorte, novos relâmpagos lhe foram favorável. E assim aconteceu, a cada novo clarão, dois ou três passos. Chegou a porta do quarto finalmente, depois o pequeno corredor que dava diretamente para a cozinha. Com muita dificuldade e um medo inexplicável, Arthur chegou até a pequena cozinha. A dificuldade agora era outra, encontrar a caixa de fósforo e as velas. Arthur não se lembrará onde estavam as velas, no primeiro relâmpago visualizou a caixa de fósforos em cima do fogão, faltavam as velas.'Malditas velas', pensou, a cozinha era pequena, não seria difícil encontrá-las, se é que as tinham em casa. Com dificuldade agarrou o fogão, pegou a caixa de fósforo. Faltava achar as velas, começou tateando pelo armário que ficava embaixo da pia da cozinha, a cada clarão dos relâmpagos tentava visualizar as velas, parecia impossível, de repente, Arthur se viu em uma bagunça de panelas, tampas, vasilhas, todas espalhadas, outras caídas no chão da cozinha, tropeçando nas panelas e tampas, quase a cair, e nada de encontrar as velas. Depois de alguns minutos, a chuva recomeçou, forte, com rajadas violentas de vento. Arthur lembrou-se que deixará a janela do quarto aberta. Tentando desvencilhar-se da bagunça que ele mesmo formou, tropeçando em tudo e chutando as tampas, acabou por perder os fósforos. Preocupado com a janela do aberta, apressou-se, foi tateando pelas paredes, deu de frente com a porta do quarto, fechada. Entrou no quarto novamente, por sorte, o vento era contrário, o que ajudou a não molhar todo o quarto. Novos relâmpagos, clarão, visualizou a janela, fechou-a, sentou-se na cama, raios, trovões. Àquela altura Arthur não se lembrará mais de que estava com medo, o sentimento de pavor deu lugar a raiva, sem luz, sem velas e nem fósforos, e sem o celular, com a cozinha de pernas para cima, resolverá dormir no escuro mesmo, no dia seguinte arrumaria tudo. Foi o que fez, deitou-se, estava com raiva de si mesmo, dormiu rapidamente. Do lado de fora, a tempestade, raios, trovões, ventos fortes, assim foi por toda a noite.
 Manhã seguinte.
 Arthur despertou cedo, o dia nem bem começou e ele pulou da cama, o celular que não encontrará durante a noite estava bem ali, embaixo do travesseiro. Arthur foi diretamente para cozinha. Levou um tremendo susto com a tamanha bagunça que havia feito, o armário estava vazio, as panelas e vasilhas todas espalhadas no chão. Ficou ainda com mais raiva ao ver que a caixa de fósforo, que perdeu durante a noite, na bagunça, estava ao lado do filtro, que ficava do lado da pia. E as velas que tanto procurou, estavam atrás do filtro. O único lugar em que não procurou. Arthur sentou-se no chão da cozinha, desanimado, colocou as mãos no rosto, teria que arrumar toda aquela bagunça para depois fazer o café antes de ir trabalhar.
 Era mais uma manhã de segunda-feira. Arthur pegou as velas, pensou em guardá-las em algum lugar onde pudesse encontrar com facilidade, mas depois daquela noite não importava mais, julgou ter superado o medo. Pegou as velas e atirou-as na lata de lixo, e depois foi arrumar toda a bagunça antes de sair.

Tiago Macedo Pena
Enviado por Tiago Macedo Pena em 02/11/2019
Código do texto: T6785274
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Sobre o autor
Tiago Macedo Pena
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Tiago Macedo Pena