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Texto
Conto premiado no XXII Concurso de Contos Alípio Mendes (2019)
Colocação: 1º Lugar
Angra dos Reis - Rio de Janeiro

 
A leitora

Acordo nesta manhã com um sol de púrpura cor. Olho pela janela distante o vermelho sangue que minha história lembra. De quando fui casada com aquele austero senhor. De quando vi Sofia apanhar por ser negra. O tempo porém minha vida mudou. E hoje percebo que meu enredo não está sozinho. Em páginas brancas dores negras de muitos tenho lido. Vidas que se encontram em diversos sentidos. Pessoas deste mundo que se conectam em tramas. A história ficcional de reais vidas humanas.

Olho para mim sentada nesta cama. De imediato me lembro do menino listrado com seu pijama. Do outro lado das grades seu amigo alemão. Uma amizade que só começa depois que uma mancha borrão nos olhos de Bruno Shmuel fez. Distantes em sonhos e religião. Tão diferentes em berço e anseios. Mas um dom que desconhece tudo os uniu afinal. A vida torna-se doce mesmo com sal. E para a morte caminham de mãos dadas. E mesmo sem saber o que lhes reserva. No fim de todas humanas jornadas. O mesmo fim para todos se preserva.

Mas a hora é de levantar e seguir pelas páginas um traçado destino. Então desperto os olhos e pela casa caminho. Primeira parada óbvia será na cozinha. Olho o todo em volta e miro um canto escuro. Lá encolhida vejo a menina de minha cor Negrinha. Pobre criança que já levara do dia o primeiro cascudo. Mesmo depois de brincar com a boneca não se encontrou no mundo. E em breve definhará quietinha.

Eis que me chega aos olhos outra menininha. Agora branca e distante de sua mãe sofrida. Logo cedo inicia o seu dia em sua lida. E em seu labor diário a pequena Cosette na lenha do fogão. Até quando estes miseráveis com ela estarão? Aguente firme garota! Seu destino está traçado. Assim como o pequeno Gavroche que se tornará um revolucionário.

No quintal próximo a uma laranjeira o pequeno Zezé. Está criando seu mundinho com o amigo Xururuca. Mas já ouço o grito de Jandira “vem já aqui!” “nada de pé ante pé!”. E já imagino nas suas costas mais uma surra. Onde estaria perdido nos trilhos o Portuga? Mais adiante ali próximo das roseiras um par de muletas. É a Pollyanna menina que logo será moça. Está se preparando para contar suas historietas. Vai em breve brincar seu jogo contente com alguém que a ouça. Que jeito alegre de superar suas perdas. Está aí um exemplo que ser seguido mereça. E olha só. De repente me sinto engraçada. Estou como aquela menina Raquel com suas vontades. Só me faltou a tiracolo a bolsa amarela. É. Seria bom ser homem grande e escritora renomada. Mas a vida não me deu este luxo de vaidades. Sou apenas uma mulher que enxerga este mundo de humanidades.

Humanos que nem sempre se humanizam. Como aquele senhor que me recorda agora. Distante num sertão de sabor acre. Que recebeu de um amarelo soldado uma forra. Pai de um menino mais velho que a Sinhá bate. Bate por não saber dizer o inferno em que vivem. Pai de um menino mais novo predestinado a sofrer. Pessoas que à seca vida sobrevivem. Uma família subjugada pelo poder. Ó Fabiano não está sozinho nesta labuta. Ao seu lado também está o conterrâneo Chico. Ele e sua família também padeceram uma viagem de muda. Foi no ano de mil novecentos e quinze a seca braba. Triste mesmo foi aquele Severino que quase na vida se esbarra. Fazendo uma retirada só de ida. Que só viu morte pelo caminho e por pouco não suicida.

Deixa-me ver se encontro diferenças humanas na rua. E veja quem vem lá correndo dando pinote. Seria tão bom se fosse um desvairado de lua. Um triste cavaleiro Quixote talvez. Mas não. A figura também é triste. É o menino Pixote. Vem correndo fugido explorando a sua nudez. Trazendo em sua pele a marca da prisão e seus abusos. Ó criança que sofre neste mundo que lhe impõe vícios e drogas. Ao seu lado aqueles que da areia se sentem capitães. Aqueles que vivem na cidade baixa escondidos nas docas. Aqueles que perderam ou desconhecem suas mães. Como aquele Pedro Bala cujo tiro certeiro flechou o coração de Dora. E no amor que se amaram é o triste fim de mais uma órfã. Diferente de Oliver que mesmo depois de padecimentos encontra um benfeitor. Mas volto ao menino que foi Pixote nas esteiras da vida real longe das telas. Aquele jovem Fernando ator. Garoto que imitou seu personagem na real vida miséria. E com tiros no peito estrelou na TV sua matéria. A lei sempre é do mais forte. Saibam todos. Para o mais fraco resta a morte.

Essas andanças na rua não me trouxeram bem. O melhor é voltar por um caminho diferente. Mas logo ali na esquina no chão um corpo tem. Reconheço aquele parco ser existente. Uma moça nordestina que queria estrela se tornar. É mais uma vítima desta vida que se atropela. Um capim ralo e datilógrafa singela. Sua morte foi para os palcos sua estreia. O tempo de morangos já cessou menina Macabéa.

São tantas cenas que se encenam neste meu dia. Até pareço que estou dentro dalgum sono. Páginas de um livro de livros que eu lia. Que me conectam a este mundo que desencontro. Através de personagens como eu da vida saída. Mas ainda há passos que me direcionam. E penso. A melhor força que encontrarei será na Igreja. Então para a catedral me sigo. Onde as divinas forças com as humanas se encontram. Ao meu lado estando eu de joelhos um vulto me passa rápido para que não se veja. Mas logo percebo sua deformidade. Uma corcunda notável que mereceu o brilho de uma Esmeralda. E daquele templo santo já vislumbro a fatalidade. O fim do pobre Quasímodo não é um conto de fadas. Sua história é como a de muitos de vidas mal amadas.

Já me desgastei de tantas imagens. Traçarei em um papel um pouco desta minha excursão. Afinal não deixam de ser humanas viagens. Quem sabe essas histórias sirvam de lição. E súbito me lembro da pequena judia cuja vida um diário se formou. Como pode uma Guerra daquelas? Que só tristeza nos legou. Que deixou tantas sequelas. E que tirou a menina Anne de seu anexo secreto. E mais repentino ainda me vem agora outra guerra. E me assombro imaginando a destruição da casa e caindo o teto. O Talibã e seu regime no Paquistão. A menina Parvana e sua outra face. Agora é um menino que para sobreviver é seu disfarce. Que suas histórias e de tantos outros sirvam de exemplo. Assim espero.

Rápido está passando este dia. Tão entretida fiquei que nem me lembrei de comer. Comida. Uma palavra que flutuava na cabeça daquela minha irmã de cor Carolina. Que como Anne um diário também traçou para nos mostrar sua vida. Uma negra favelada mulher. Do seu quarto o despejo de força e fé.

Hora de voltar para a casa e ver minhas roseiras ao vento. Cantar com minha irmã o som da Makidada. Será possível que depois de um dia de lembranças doridas encontro um alento? Olha quem me vem trazendo uma caixinha. Quer que eu mire e veja seu carneirinho. Há muitas horas estava à espera minha. Que criança que cativa com tanto carinho. Um menino que me ensinou o segredo. E agora posso ver este mundo que tanto temo. Deixar adormecido o meu medo. Já que a leitura que faço está na vida enfrentar. E como tantos que saltam das páginas lidas lutar. Ver com o coração o invisível. E logo ele vai partindo deixando-me apenas comigo. Ó menino incrível! Desta vida sou apenas uma partícipe. Mas espero um dia chegar a seu asteroide. Meu Pequeno Príncipe.
Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 17/10/2019
Reeditado em 17/10/2019
Código do texto: T6772196
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Sobre o autor
Márcio Adriano Moraes
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil, 36 anos
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