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A comunidade quilombola de Pedro

O outono se despedia ao som do vento. Pedro ficava espreitando todo o movimento que circundava no povoado, tentando decifrar algo que nem ele mesmo sabia. Era tudo tão amplo, ao mesmo tempo escasso. Um ano sem chover. Os mantimentos que seus congêneres haviam estocado nas prateleiras de madeira rústica findavam aos poucos. A agricultura de subsistência clamava por água, sentia sede, necessitava do líquido miraculoso para crescer e nutrir àquela pequena população. Remanescentes de Quilombos! Ainda sentiam na pele negra o descaso de um Governo que os tratava com hostilidade. A coragem atrelada à vontade de viver embevecia-os de força para caminharem com dignidade, enfrentando o inimigo, batizado de Grandes Senhores. Ainda Grandes Senhores.
         Pedro tinha apenas dez anos de idade. Audacioso, arguto, sorridente. No corpo franzino exibia a altivez de alguém sedento de progresso. Soltar pipas, jogar futebol, bolinhas de gude, e tantos outros brinquedos já não preenchiam sua ansiedade, mas, exibia no molejo do corpo o desejo de conhecer outros horizontes. Não sabia ler, nem escrever. Observava atento a sua mãe, e os irmãos mais velhos, na mesma condição, trabalhando na fazenda de Seu Fulano, há quilômetros de distância do povoado. Imensa fazenda! Um mundão de terra. Seu coração gelava só em pensar que um dia teria que desbravar toda àquela terra capinando um chão, que nunca seria seu, para no final do mês, receber um salário que mal dava para prover as necessidades que o dia-a-dia ordenava.
        A pequena plantação que havia no fundo da casa, estava pálida, contornada de areia argilosa, pedia água. Vez em quando o garoto apalpava as folhas ressecadas, ou soltava-as ao vento.
       Em uma madrugada turva, cambaleante, Pedro levantou da cama, abriu a janela do quarto, olhou para o céu, extraordinariamente percebeu nuvens se aproximando. Pensou em chuva, abruptamente ajoelhou-se, orou. As nuvens foram crescendo, crescendo. Os primeiros pingos ecoaram uma linda canção nos ouvidos daquele garoto. Ele ficou horas e horas ali, ajoelhado, quieto. A chuva fora aumentando, aumentando, até transformar-se em aguaceiro. A chuva coadjuvou para que seus pensamentos transcendessem, viu-se escrevendo, lendo livros e mais livros, não queria apenas assinar o nome ou ser mais um eleitor usando uniforme galante para dar o voto ao Seu Fulano, filho de Seu Fulano, e neto de Seu Fulano. Ele queria entender o mundo, um mundo que não era o dos seus amigos, nem o dos seus irmãos, nem o dos seus vizinhos que apenas assinavam o nome, ou soletravam palavras ao vento quando tinham oportunidade. Fugir daquele local não estava nos seus planos, abandonar os seus parentes, não era o seu ideal. A chuva caía lá fora, mas, no seu interior desejava decifrar enigmas que só através da leitura poderia entender, assim confabulava consigo, enquanto isso, as plantações, a calçada revestida de barro amarelado, e o capim que circundava o pasto, eram encharcados com os pingos de ouro.
       E a noite deu lugar para o dia reinar com seu manto molhado.
       Recostado na janela Pedro adormeceu. Ao acordar com o canto do galo, a chuva havia cessado. As nuvens escuras observavam do céu a população em movimento para lavar, ou enxugar o que a água tinha deixado. Sua mãe e seus dois irmãos já estavam caminhando para a lida, mais um dia de trabalho. Pedro acenou para eles, aproveitando a estiagem, sentou no resquício de uma calçada que servia de apoio para a entrada da casa. Seus olhos se fecharam! Sonhou com os livros, as letras, as palavras, o mundo. Um globo azul girava com Pedro sentado em um cavalo alado visitando cidades, estados, países, planetas... acordou subitamente com o grito de sua mãe chamando-o para conhecer alguém que tinha encontrado no caminho, proferindo ser a nova professora. Há três anos que a mais recente tinha ido embora, coagida, ora, os homens de Seu Fulano não dormiam, tinham olhos e labaredas de dragão, quando se viam ameaçados, soltava fogo através das ventas para expulsar quem cruzasse os seus caminhos. Mas alguém tinha novamente ouvido as suas orações! Deus? Os Orixás? Os Caboclos? Os Santos? Pedro não pediu explicações, sorriu, gargalhou parecendo que tinha ganhado o tão esperado presente de aniversário ao cumprimentar a nova mestra. Ela retribuiu o sorriso, sentou estreitamente ao seu lado para colocar no caderno de anotações o nome do novo aluno.
       Pedro finalmente aprenderia a ler o livro de histórias infantis que a antiga professora havia lhe dado de presente, onde na capa tinha a imagem de um jardim com lindas flores violetas.
Nato Matos
Enviado por Nato Matos em 14/10/2019
Código do texto: T6769800
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Sobre o autor
Nato Matos
Salvador - Bahia - Brasil, 58 anos
10 textos (135 leituras)
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Nato Matos