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O MENINO E A FUNDA.

 

 Nas campinas verdejantes de Belém, cidade da Palestina, na parte central da Cisjordânia, quase na saída, vivia certo efrateu do Clã de Perez. Sua casa era enorme, e não era para menos, pai de números filhos, e de duas belas donzelas, Jessé trazia na face às marcas do tempo e do trabalho duro. Conhecido na comunidade, homem de respeito, possuía uma modesta criação de ovelhas, da qual tirava o sustento da família. O viúvo Jessé, era também conhecido por comercializar os queijos mais saborosos de toda Belém. Alguns de seus fregueses vinham de cidades próximas, de Beit-Jala e outros de Beit-Sahour.
 Acontece que, aqueles tempos eram conturbados, o povo, que recentemente era governado pelos Juízes, queria agora uma nova e inovadora política, rejeitaram a teocracia divina e clamavam pela monarquia dos homens, a exemplo de outros povos. A princípio Jessé foi contra, por ser de posição política teocrática conservadora, porém, foi aos poucos convencido pelos filhos a mudar a posição 'radicalista', afinal, a comunidade inteira desejava um rei, e a monarquia realizava os desejos do povo.
 Pouco depois desses acontecimentos conturbados,  o rei foi escolhido, surgiu entre o povo, e pelo povo. O escolhido tinha as características do povo, o cheiro do povo, era sem dúvidas, na visão de todos, o perfeito primeiro rei daquelas pessoas simples.
 Eliab, era o filho mais velho de Jessé, moço forte, habilidoso no manejo da espada, cortejado pelas mulheres, estava ansioso para começar a servir no recém-criado exército de Saul, o novo rei tinha idéias inovadoras. Os irmãos Abinadab e Simaa, seguiram o exemplo do irmão mais velho, seriam guerreiros do exército do Deus vivo.
 Na casa ficaram os demais filhos, responsáveis pela produção e venda dos queijos. As duas filhas, Závia e Abigail, eram as responsáveis por cuidar da casa. Restava ainda o filho mais novo de Jessé, Davi, rapaz muito magro, cabelos ruivos, tocador de lira e poeta nas horas vagas. O jovem e sonhador Davi nutria uma profunda admiração pelo irmão mais velho, desejava ser guerreiro como ele, e um dia lutar com escudo e espada ao lado do rei Saul. Davi era pastor de ovelhas, responsável por cuidar do rebanho da família, passava a maior parte dos dias no campo, cheirava a ovelhas, cuidava e protegia às ovelhas.
 Os dias e as semanas se passavam.
 Muitas coisas aconteceram ao monarca.
 O novo rei com o seu exército conseguiram excelentes vitórias sobre vários inimigos. Saul era ovacionado, querido, e com o ego inflado, acabou esquecendo que a primazia da Glória era para Deus, esqueceu também, que a obediência a Deus era primordial. Assim sendo, Saul desagradou ao altíssimo, que logo rejeitou o seu reinado, pedindo a Samuel, o seu profeta, que fosse a casa de Jessé, e entre os dele, ungisse o rei da qual Deus escolheu.  Já o homem Saul estava cego demais para ver que sua vaidade era o veneno de sua morte.
 No decurso daquelas semanas, surgiram as primeiras notícias, alarmantes, que deixou a comunidade em pavor.
 Antes no entanto, aconteceu que Samuel fez uma visita a Jessé, e conforme Deus ordenou-lhe, ungiu a Davi como novo rei. Tanto Jessé quanto os irmãos não deram importância aos fatos, logo Davi, o pequeno Davi, pastor de ovelhas, pensavam, imaginaram se tratar apenas de uma cerimônia figurativa, em que o profeta desejava enfatizar a importância que eles deveriam dar a Davi. Assim passou os dias, e todos esqueceram daqueles fatos.
 Não demorou, e um dos inimigos do rei, os Filisteus, reuniram suas tropas para guerra e concentraram-se em Socó de Judá, e acamparam entre Socó e Azeca, em Efes-Domim. Saul e seu exército reuniram-se em acampamento no vale do Teberino, e se puseram em ordem de Batalha diante dos Filisteus. Os Filisteus ocuparam um lado da montanha, e Saul com sua tropas ocupou um lado da outra montanha, e havia um vale entre eles. Do lado dos Filisteus, saiu do acampamento, um grande guerreiro, como nunca antes visto. Chamava-se Golias de Gat, de quase três metros de altura. A sua armadura era descomunal, seu capacete era de bronze, vestia uma couraça de escamas, suas pernas eram protegidas por perneiras de Bronze, e escudo de bronze entre os ombros. A haste de sua lança era como uma travessa de tecelão, a ponta de sua lança era assustadora.
 De um lado estava Saul e seu exército, assustados com Golias, de tudo o que já haviam enfrentado nada se comparava ao gigante. Eliab, irmão do Jovem Davi, era um dos capitães que compunham o corpo dos soldados, estava igualmente apavorado, lembrou-se da sua família, de como estaria o pai Jessé e seus irmãos...
 A situação permaneceu dessa forma por quase quarenta dias, tanto pela manhã como pela tarde, o gigante Filisteus ia perante suas linhas e dizia: “Por que saístes para travar batalha? Não sou eu Filisteu e vós servos de Saul? Escolhei entre vós um homem, e venha ele competir comigo. Se me dominar e me ferir seremos vossos escravos; se, porém, eu vencer e ferir, vós sereis nossos escravos e nos servireis”. Dizia o gigante, sua poderosa voz ecoava pelo vale todo, e disse mais. “Hoje lanço um desafio às fileiras de Israel. Dai-me um para que combatamos juntos”. Saul teve medo, todos no seu exército tiveram grande medo, do menor ao maior soldado, entretanto,  nenhum deles ousou comentar uns com os outros a respeito. Em silêncio estavam, em silêncio permaneceram. Nenhum soldado se apresentava para lutar com o gigante...
 Na casa de Jessé havia apenas rumores da suposta batalha, informações desencontradas aqui e ali, preocupado com os filhos, e os soldados que lá estavam, teve a ideia de enviar o filho mais novo para levar suprimentos para os comandantes, que entre eles estava justamente Eliab, Abinadab e Samaa. Jessé pediu para que Abigail chamasse Davi no campo. Algumas horas depois, surgiu o jovem, todo sujo, com a funda na mão.
 - Desejas falar comigo meu pai?   Perguntou o Jovem.
 - Sim, aproxime-se. Disse Jessé.
 - O que desejas meu pai?
 - O que fazes com esta funda nas mãos?
 - É minha arma de guerra meu pai, com ela matei urso e leão defendendo nossos rebanhos essa semana.
- Tu e tuas histórias Davi.
- Não são histórias papai...
- Cala-te, agora escute com atenção. Peço-te que leves aos teus irmãos esta vasilha de grãos tostado estes dez pães: vai rápido ao acampamento levá-los aos teus irmãos. Estes dez queijos oferece-os ao chefe de mil. Pergunte ao rei sobre a saúde dos teus irmãos.
 
 Davi saiu de madrugada, deixou o rebanho aos cuidados de um vigia, apanhou as suas coisas, colocou a funda de lado do corpo e foi.
Chegou ao acampamento exatamente no momento em que os exércitos colocavam-se em fileira, deixou rapidamente as coisas nas mãos do bagageiro, responsável por entregar as coisas trazidas aos soldados, e foi para linha de frente saber dos irmãos. Viu toda a cena, que se repetia já há quarenta dias. Vendo que ninguém se manifestava, indignado, perguntou aos soldados o que se faria para aquele que matasse o gigante, e eles o disseram, 'assim e assim'. O seu irmão, Eliab, vendo aquilo se indignou contra Davi, expulsando-o. Davi perguntava a outros, que repetiam as mesmas coisas. Logo os soldados relataram os fatos ao rei, que imediatamente mandou chamá-lo.
 - Que desejas meu jovem?
 - Que ninguém perca a coragem por causa daquele gigante meu rei. O teu servo irá lutar com ele.
 Saul riu na mesma hora, então respondeu:
 - Tu não poderás ir contra esse gigante para lutar com ele, porque não passas de uma criança e ele é um guerreiro desde a juventude.
Davi não se deu por vencido, e continuou:
 - Meus rei, teu servo quando apascentava ovelhas de seu pai e aparecia um leão ou um urso que as arrebatará do rebanho, eu os perseguia e o atacava e arrancava a ovelha de sua goela; e, se vinha contra mim eu o agarrava pela juba, o feira e o matava. O teu servo venceu o leão e o urso, e assim será com este gigante. Quem ele pensa ser para desafiar o exército do Deus vivo.
 Saul olhou-o de alto a baixo, depois de alguns segundos pediu-lhe para ir e vestir sua armadura para lutar contra o gigante. O garoto assim fez, mas a armadura era grande demais para ele, o garoto então disse que iria sem armadura, o rei concordou, imaginando que ele, ao ver o gigante desistisse de seu intento.
 Davi desceu ao riacho, pegou sua funda, o seu cajado, escolheu cinco pedras, colocou no embornal, e foi contra o filisteu, que naquele momento estava de frente ao seu exército, escarnecendo de todos. Do alto da montanha Eliab viu aquela pequena figura aproximar-se de Golias, aquele soldado desconhecido que Eliab viu, havia aceitado o desafio do gigante.
 - Quem é aquele? Ainda sem armadura. É loucura.
- Aquele é Davi, respondeu Abinadab irmão de Eliab, é ele mesmo, vai morrer lá, que pensa nosso irmão que está fazendo com aquela funda girando.
 O impossível desenhou-se diante dos olhares da multidão, espanto e medo por parte dos Filisteus, o pequeno jovem, com apenas uma funda matou o gigante, que caiu diante do pequeno valente, Davi ainda arrancou-lhe a cabeça usando a própria espada de Golias. Do outro lado, espanto e admiração por parte do exército de Saul, ao ver o jovem vencer um gigante com apenas uma pedra, gritos e festejos se fez ouvir. Todos os soldados perguntavam quem era aquele, Eliab tentava dizer que era o seu irmão menor, Davi. Mas a multidão de soldados gritavam: “É o menino da funda”.  O menino da funda foi chamado na presença do rei, Saul ainda não sabia que aquele menino, sujo, ainda com a funda nas mãos, era na verdade o novo rei escolhido por Deus.

 

 


Tiago Macedo Pena
Enviado por Tiago Macedo Pena em 14/10/2019
Reeditado em 14/10/2019
Código do texto: T6769706
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Sobre o autor
Tiago Macedo Pena
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 37 anos
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