MÚSICA: "QUANDO VIM PARA ESSE MUNDO........

(...) HOJE EU SOU GABRIELA.............."

1---GABRIELA e as duas ILHÉUS - a dos anos 20, de jagunços e coronéis, mulheres coquetes e paixões avassaladoras X outra progressiva, moderna e atual, metropolitana do sul da BAHIA, com porto e faculdade, se encontrando em torno de mitos e fantasmas, estórias saídas da história plantada ao longo das "roças" de cacau. e ao mesmo tempo da memória e imaginação de JORGE AMADO. As duas cidades lado a lado na telenovela "GABRIELA", elenco prestigiando a solenidade de entrega pela Câmara Municipal do título de 'cidadão benemérito' a JORGE AMADO. Então, o velho TONICO PESSOA conhecerá TONICO BASTOS / personagem e o árabe MARON conhecerá NACIB / personagem, últimos remanescentes que pela primeira vez encontrarão seus intérpretes. --- A cada dia, a cidade perdia o ar de acampamento grosseiro dos tempos de conquista da terra: fazendeiros montados a cavalo, revólver à cinta, amedrontadores jagunços de repetição em punho, ruas sem calçamento, ora lama permanente ora permanente poeira, tiros de susto nas noites intranquilas mascates com malas de mercadorias nas calçadas. Tudo isso acabava... Isto no princípio, perspectivas otimistas para a cidade, a "Rainha do Sul", prolongamento das fazendas dos barões do cacau. Sonho de uma nova posição no mapa político do país era a construção de um ´porto, reclamavam do isolamento de Salvador, ligado a Ilhéus por navios, frequentemente encalhando na "barra".

2---ILHÉUS, 1975. Imagens do passado presentes no cuidado de expulsar definitivamente os fantasmas da crise econômica de 29 que retardou por 3 décadas o progresso dos anos 20: contar estórias de heróis, pioneiro, jagunços e amores, como os de GABRIELA e do "turco" NACIB. --- Fundada em 1534, SÃO JORGE DOS ILHÉUS, história de lendas fantásticas e histórias dos antigos "barões do Sul", cresceu rompendo os limites do amontoado de casas, comprimidas entre o mar, o morro e fazendas de cacau - cidade adolescente, transformou-se num aglomerado urbano, população de 80 milhões de pessoas, de onde é exportada toda a produção de cacau da Bahia, o maior porto em mar aberto da América Latina, universidade para 1.000 alunos, fábricas para moagem de cacau e comércio cada vez mais intenso.

3---As praças onde ficavam o Bataclan e o Vesúvio - centros principais da vida social e discussões de fazendeiros, exportadores e figuras importantes - tiveram destaque especial na vida da cidade na década de 20. Perto, ficava a igreja de São Sebastião, demolida para a construção de imponente catedral; dali saíam as procissões para pedir chuva a São Jorge. O Bataclan e o Vesúvio eram frequentados pela fina flor da cidade, que consumia lucros dos 'frutos de ouro' em memoráveis noitadas - importados vinhos e mulheres, filhos estudando Direito em Salvador ou Rio de Janeiro. O progresso era falado em Ilhéus e Itabuna, repetidamente, aparecia nas colunas de jornais cotidianos e nos semanários. nas discussões da papelaria, nos bares, nos cabarés, ilheenses querendo novas ruas, praças ajardinadas, residências modernas na praia, novo cine, campo de futebol, colégio, conferencistas vindos da Bahia (como até hoje chamam Salvador) e até do Rio, chás dançantes... --- O que não previam era o desaparecimento dos locais e personagens, ILHÉUS despertada para o turismo em onda de nostalgia. Do Bataclan, com saletas, mesas de carteado , pista de dança, orquestra afinada, mulheres requintadas, bebidas finas, resta apenas o velho prédio, casa miúda e encardida, dividida entre armazém no térreo e casa de cômodos no primeiro andar. O bar Vesúvio existe com outro nome: bar do MARON, libanês calvo, 61 anos, eterna fuga de turistas e repórteres para uma casa na aprazível Olivença, a 14 quilômetros, por caminho de coqueiros, mar azul e praias calmas. Coincidência (ou inspiração?) entre a esposa MARIA EMÍLIA e GABRIELA, prendadas e quituteiras famosas, e MARON e NACIB, libaneses. Calmo, trabalhador, TONICO PESSOA, senhor extremamente cortês, 83 anos, 10 filhos, 28 netos e 7 bisnetos, filho do coronel Pessoa, intendente e chefe político de ILHÉUS durante 20 anos, relacionados com TONICO BASTOS e o coronel RAMIRO BASTOS. Como o personagem, também proprietário do cartório, hoje "Cartório Pessoa Júnior, Notário Público N.1", outro proprietário, Raimundo Sá Barreto, verdadeira enciclopédia da história de ILHÉUS: "To mundo era sério, até nos bigodes."

4---Tinha sido fácil mandar, bastava ter força, governar era fácil, ganhar o mundo derramando sangue para garantir a posse de terras. Depois, tudo cresceu, Itabuna já tão grande quanto ILHÉUS, outros lugarejos viraram cidades, cheias de doutores, agrônomos, médicos, advogados... Caem tabus, surgem filhas doutoras no lugar da MALVINA oprimida. Mudança não apenas no perfil urbano entre o antigo caos e o Morro do Unhão, agora por todos os lados, em direção ao Pontal, ao Malhado, à praia do Norte e do rio Cachoeira, de águas tranquilas, vinculado às lutas sangrentas, emboscadas, aos "caxixis" e devaneios aos senhores do cacau. Progresso em toda parte, a nova geração em carros modernos e motos, estudantes em Salvador. Edifícios cada vez mais altos: na orla marítima, prédio de nove andares e na periferia casas pobres misturadas com casas sóbrias e confortáveis. Necessidade também de lazer e diversão - bons hotéis, 'boîtes' e restaurantes que servem pratos regionais, como mariscos e moqueca, e sofisticados. O desenvolvimento fez surgir a divisão de classes e, consequentemente, um relacionamento muito diferente do mantido pelos barões do café que consideravam ILHÉUS uma extensão de suas fazendas, tipo 'colônia de férias' - defendiam a honra da família com falso moralismo, temendo reformas radicais para não perderem o medo. Hoje, fazendeiros é quase todo mundo - o dono da farmácia, o deputado, o empregado municipal etc. - há planos de fundir fazendas mais antigas para aumentar a rentabilidade e diminuir os gastos administrativos - os grandes produtores vivem, em maioria, em casas luxuosas e vão à região apenas para tratar de negócios. Do passado, existem poucos vestígios da estrada de ferro construída pelos ingleses que iria até Vitória da Conquista, mas nunca saiu de Itabuna. Os hábitos ainda são tranquilos e tradicionais, como a conversa do fim de tarde no bar do MARON e o namoro na praça, no centro. Três emissoras de rádio, um jornal, ILHÉUS a uma hora de Itabuna, estrada de asfalto, ladeada por muitos pés de cacau. Calçadões incentivam o comércio, onde também se conversa à tarde. Luta por um hotel de categoria no Morro de Pernambuco, onde fica o solar da família BADARÓ, retratada por JORGE AMADO em "Terras do Sem Fim" e "São Jorge de Ilhéus".

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FONTE:

"São Jorge dos Ilhéus, dos Amado, da Gabriela e dos frutos dourados" - Rio, Jornal da Família / O Globo, 24/8/75.

F I M

Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 25/03/2019
Reeditado em 30/03/2019
Código do texto: T6607455
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