Alternativo

- As vezes eu queria que você gritasse comigo, como os outros! – Ela gritou, e saiu andando na frente, como se soubesse onde estava indo.

- Talvez desse jeito você me desse um pouco de valor né? Mas você sabe. Eu não sou assim.

Ela parou e virou em minha direção para voltar a esbravejar

- Você fala como se soubesse alguma coisa da minha vida!

- Eu sei o que você falou, e o que eu vi. Acho que é bastante coisa.

Ela se calou e suspirou, tentando conter a raiva.

- Mas por que você queria que gritasse?– Continuei.

- Eu não suporto essa sua calma! Queria que você reagisse às coisas.

- Mas eu reajo. Só que é de uma forma diferente da que você está acostumada. Não quer dizer que seja mais certo ou mais errado. Só o meu jeito.

Parecia que minha resposta tinha a irritado ainda mais, e ela desembestou na frente, até que desapareceu em uma esquina.

Continuei andando pela calçada e entrei em um boteco que estava abrindo.

Sentei em uma mesa e pedi uma cerveja.

O garçom trouxe a bebida e perguntou num tom que soava quase como o do meu analista.

- Está tendo um dia difícil?

- Um tanto.

- Patroa complicada?

- Sim... Ela não chega a ser a Patroa ainda. Mas teve um momento que eu achei que ela seria.

- Meu pai me dizia que as mulheres complicadas são as únicas mulheres que valem a pena. – Filosofou, o garçom, enquanto abria a garrafa e enchia meu copo de cerveja.

- Espero que um dia eu possa entender o que seu pai quis dizer com isso.

- Talvez o senhor dê de cara com alguém que te faça entender, mas se não encontrar, sempre há a cerveja.

- Espero que sim.

Ele se afastou e fiquei sozinho em minha mesa com minha cerveja, até que o vento trouxe o cheiro do cigarro mentolado que eu sabia que ela fumava.

Foi só ai que a percebi parada no meio da calçada, com um cigarro no dedo e me dirigindo o mesmo olhar felino que me chamou a atenção desde o começo.

No seu rosto eu percebia um certo constrangimento por sua falta de controle emocional,

e bem no fundo, sua relutância em assumir o erro.

O garçom percebeu a situação, se aproximou e colocou um segundo copo na mesa, antes de seguir para os fundos do boteco.

Peguei a garrafa ao meu lado e enchi o copo que estava vazio.

Ela apagou o cigarro e entrou no bar.

- Não precisamos conversar sobre nada. Só senta ai comigo. – Disse-lhe.

Ela se sentou e esvaziou o copo de uma única vez. Depois pegou todos os cigarros que ainda tinha consigo, amassou-os e jogou dentro do copo.

- Esses foram meu último copo e últimos tragos.

- Tem certeza disso?

- Tenho. Mas não é por mim.

- Então é por que motivo.

- Eu estou grávida.

Fiquei calado. Processando o que ela havia dito.

- Desde quando você sabe?

- Soube hoje de manhã

- Não estava esperando algo assim

- Nenhum de nós dois

- Não sei o que fazer. Mas acho que vamos descobrir logo.

- Você quer fazer parte disso mesmo?

- Acho que já sou parte. Acho que sempre fui parte.

- Pensei que fosse ficar com raiva de mim.

- Não acredito que tenha espaço pra raiva dentro de mim agora. Mas certamente preciso de outra cerveja.

Ela abriu um sorriso, e piscou os olhos, como se tivesse evitando cair no choro.

O garçom se aproximou, encheu meu copo e seguiu com seu trabalho.

Fiquei olhando as bolhas estourando dentro da bebida e pensando como todos os planos que eu tinha feito até aquele momento perderam completamente o sentido... A sensação era assustadora, mas eu sentia que não era nem de longe algo ruim.

Rômulo Maciel de Moraes Filho
Enviado por Rômulo Maciel de Moraes Filho em 07/05/2018
Código do texto: T6329329
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