O presente de Natal

O PRESENTE DE NATAL

por RICHMAL CROMPTON

Ano de publicação:1922

Tradução: Gabriel L. Trizoglio

Mary Clay olhou através da janela da velha casa da fazenda. Era uma vista triste - uma colina, um campo, a floresta coberta por uma neblina espessa, sem cor - e nenhuma outra habitação à vista. Jamais foi mulher do tipo que implora por companhia. Ela gostava de costurar, era apaixonada por leitura e nâo se interessava por conversas. Estaria, provavelmente, muito feliz se vivesse sozinha. Antes do casamento, passava longas noites costurando e lendo. Sabia que estaria bastante ocupada durante o dia. A fazenda era antiga e toda irregular. Não havia ninguém para ajudá-la com o serviço de casa. Ela prezava por noites quietas, pacíficas e iluminadas por lâmpadas. Foi nos últimos dez anos, após casar-se, que, relutante, perdeu a esperança de desfrutar das noites, tudo graças à voz alta de seu marido John, sempre emitindo ordens ou reclamando, ou mesmo em leituras imprecisas e incoerentes do jornal.

Mary era uma mulher silenciosa e amante do silêncio. John, por outro lado, gostava de escutar o som da própria voz. Gostava de gritar com ela, chamá-la quando estava em outro cômodo da casa. Gostava, sobretudo, de escutar-se lendo o jornal em voz alta para ela durante as noites, coisa que ela, na maioria das vezes, detestava. Abalava seus nervos de tal forma que ela sentia vontade de gritar. A voz dele, rouca e ao mesmo tempo cantada, era irritante. Ele gritava “Mary”, convocando-a para algum serviço, qualquer que fosse e onde quer que fosse. “Traga meus chinelos!”. “Traga meu cachimbo!”. As ordens exasperavam-na a ponto dela quase reagir negativamente. “Vai você buscar”, era frase que quase saía de seus lábios. Quase. Ela era o tipo de mulher que não suportava irritação. Qualquer tipo de barulho aborrecia-a.

Ela suportou por dez anos. Certamente prosseguiria desta forma. Hoje, porém, olhou com esperanças para os campos nevados e se deu conta de que a situação tinha que mudar. Algo precisava acontecer. Mas o que, exatamente?

A semana seguinte era do dia de Natal. Sorriu ironicamente com seus pensamentos. Viu o marido vindo pela estrada, passar pelo portão e dar a volta para a porta de entrada lateral.

- Mary! - Algum tempo depois ela respondeu ao chamado. Ele tinha uma carta nas mãos. - Chegou uma carta da sua tia.

Ela abriu e leu em silêncio. Ambos sabiam o que a carta continha.

- Ela quer que a gente passe o natal na casa dela. - Explicou em seguida. Ele resmungou.

- Ela é surda como um poste! Tão surda quanto a mãe. Ela deveria lembrar disso quando convida gente para sua casa, já que não pode escutar nada.

Mary não disse nada. Ele sempre reclamava dos convites, mas no fim queria ir. Gostava de conversar com o tio dela. Gostava de ter a oportunidade de ir à vila por alguns dias para se inteirar das novidades. Não havia problemas em se ausentar da fazenda.

A surdez dos Crewe parecia inevitável. A bisavó de Mary ficou surda aos trinta e cinco. A filha, tia de Mary, que a criou, herdou a moléstia na mesma idade.

- OK. - Disse, resmungando ainda, como em resposta ao silêncio dela. - Melhor a gente ir. Escreva para ela avisando que iremos.

 * * * * *

Era véspera de Natal. Eles se reuniam na cozinha da fazenda do tio. A mulher surda e idosa sentava-se em sua cadeira na frente da lareira e tricotava.

Em seu rosto afundado havia uma expressão curiosamente sarcástica, que lhe era habitual. Os homens estavam à porta. Mary, sentada à mesa, olhava pela janela. Lá fora, a neve caía com força. Dentro da casa, o fogo era refletido no cobre dos potes e panelas, na louça sobre o velho armário de madeira e até nas peças de presunto penduradas no telhado.

Subitamente, James virou-se.

- Jane! - Chamou. A mulher surda não reagiu. - Jane! - Não havia ainda resposta no rosto enigmático e velho à lareira. - Jane! - Ela se virou vagarosamente para a direção da voz. - Pegue as fotos lá em cima para mostrarmos ao João. - Gritou.

- Focas o quê? - Ela perguntou.

- Fotos! - Berrou o marido.

- Botas? - Perguntou, com a voz tremendo. Mary olhou para um, depois para o outro. O tio irritou-se e saiu da sala. Voltou com uma pilha de cartões-postais nas mãos.

- É mais rápido a gente mesmo fazer o que é preciso. - Reclamou. - Meu irmão enviou estes postais da Suíça, onde ele está trabalhando agora. É um belo país, a se julgar pelas paisagens das fotos. John apanhou os cartões das mãos do tio.

- Ela piorou? - Perguntou, apontando discretamente para a idosa. Sentada, ela olhava para o fogo. Brotava em seus lábios um sorriso curioso. O marido deu de ombros.

- Está tão surda quanto a mãe. E a avó. Gasta-se mais tempo tentando pedir para ela fazer algo do que eu mesmo fazer. E os surdos ficam meio estúpidos também. Não conseguem entender o que você fala. Melhor deixá-los em paz. - John acendeu o cachimbo. James abriu a porta. - A chuva de neve parou. Que tal darmos uma volta na vila? - John consentiu e pegou o chapéu de trás da porta. Uma rajada de vento frio entrou na sala quando eles saíram.

Mary apanhou um livro da mesa e foi para perto da lareira.

- Mary! - Ela assustou-se ao escutar seu nome. Não era a voz fina e frágil da mulher velha e surda, parecia mais a voz da jovem tia de que Mary se lembrava na infância. A mulher curvava-se para a frente, encarando-a. - Mary! Feliz Natal para você!

A sobrinha respondeu em sua costumeira voz baixa:

- Desejo o mesmo à senhora, tia.

- Obrigada. Obrigada! - Mary tomou outro susto.

- Tia! A senhora escutou?

A idosa riu, silenciosa, balançando-se em sua cadeira, contente da vida.

- Sim, eu te escuto, querida. Desde o início. - A sobrinha pegou as mãos da tia e segurou-as firme.

- Então... a senhora está curada!

- Não estou. Não havia nada a ser curado em mim.

- A senhora...

- Nunca fui surda, querida. E se Deus quiser, nunca serei. Escutei cada palavra que vocês disseram. - Mary levantou-se, espantada.

- Nunca? Como assim? - A tia riu novamente.

- Nunca. Nem eu, nem minha mãe e nem minha avó.

- Não entendi. O que a senhora quer dizer com isso? Estava fingindo?

- Vou fazer disso um presente de Natal para você, meu amor. Minha mãe me deu um presente assim quando eu tinha sua idade. E a mãe dela fez o mesmo. Eu vou então dar este presente a você, sem qualquer arrependimento e você será capaz de escutar somente o que quiser. - Ela chegou mais perto e sussurrou. - E você estará livre disso tudo! Assim, nós não temos que levar as coisas para eles, nem responder suas perguntas estúpidas. Eu estava te observando, querida. Você não tem muita paz, não é mesmo? - Mary tremia.

- Eu não sei o que pensar! Eu... não posso fazer isso!

- Faça como quiser. Aceite esta dica como presente: a surdez das senhoras Crewe, como presente de Natal. - Completou, rindo. - Se você fizer uso do presente, garanto que vai achar divertido.

E no rosto da tia havia novamente aquele curioso sorriso, como se ela carregasse no coração algum presente engraçadinho para os deuses do Olimpo.

A porta se abriu de repente. Outro sopro de vento gelado invadiu a casa. Os dois homens entraram cobertos de neve.

- Não vou fazer isso! - Sussurrou a sobrinha, tremendo.

- Não conseguimos ir muito longe. Voltou a nevar forte! - Informou John, tirando o boné.

A idosa levantou-se e começou a preparar a mesa para a ceia, silenciosamente e com habilidade, movendo-se entre o armário e a mesa sem olhar para as pessoas.

- Mary sentou-se próxima do fogo, imóvel e sem palavras, com o olhar fixo no carvão em brasas.

- Algum sinal de surdez nela? - Sussurou James, apontando para Mary. - Começou a aparecer em minha esposa nesta idade.

- Sim, eu já estava sabendo. - Em seguida gritou: - Mary!

As bochechas dela ficaram vermelhas, mas ela não demonstrou, seja pelo olhar ou por movimento, que tinha escutado. James olhou para o sobrinho.

A tia parou por um minuto com uma xícara em cada mão e em seu rosto surgiu seu sorriso sutil.