MOTIVO

– Eu já andei esse Brasil todo, do sul ao norte, de leste a oeste e foi aqui nesta aragem litorânea que encontrei o motivo mais significativo para compreendermos a existência humana.

– O quê? – o outro perguntou querendo entender o mistério das palavras dele.

– Ora, não percebes?

O outro olhou em volta, viu o mar costumeiro banhando a praia, sentiu o vento temperado que corre há tempos por todo o globo e veio do outro lado do Atlântico, passou em Marte, esfriou as órbitas de Saturno, fez tantos barcos a vela se precipitarem sobre as ondas e afundara tantos outros... Olhou uma montanha ao longe com seu verdor indecifrável, talvez um verde-negro copado se sobressaindo sobre o cinza contrastante da metrópole litorânea, um contraste subversivo, sincopado que enche os olhos de quem observa à distância de um ou dois quilômetros ao norte, a esquerda de um edifício hoteleiro, luxuoso, caro, imponente, paredes carcomidas pelo sal das águas, pintadas e maquiadas para não deixar transparecer a fome insaciável deste sal envolvente e inescapável. Olhou as águas e sentiu um cheiro de vida e de morte, um paradoxo existencial inevitável, talvez fosse estas águas a chave para a resposta que seu amigo lhe sugeria, pois todas estas coisas estavam diante de seus olhos.

– É a montanha? – perguntou ensimesmado.

– Não.

– É o vento?

– Não

– É o edifício?

– Não.

– São as águas?

– Não.

Continuou observando tudo a sua volta com um olhar fragmentado, investigativo, agora ele era um detetive metódico, decidido, mão no queixo, olhos lubrificados, mente serena e questionadora, outro paradoxo existencial e singular. Olhou os transeuntes descendo a longa avenida à beira-mar, uns com pressa, outros com calma, bolsa nas costas, livros, óculos de grau, passagem de ônibus, cansaço, poeira, esgoto relativamente canalizado, lixo relativamente recolhível, faixas etárias a caminho da senilidade inescapável e extrema, buzinas, luzes apagadas, sobreviventes finitos, carnes, esqueletos, células nervosas, vírus contagiosos, veias, sangues espessos vermelho-rubros, cachoeiras íntimas cardiovasculares, sonhos incompreensíveis, interrogações irrespondíveis.

– São os transeuntes?

– Não.

Olhou em volta novamente, um cachorro corria na praia, perdido nos seus próprios pensamentos, exercitando o cérebro e o corpo, um ser inexprimível sem destino, de tempos em tempos parava, sentava na areia e olhava o mar. Um transeunte tão profundo quanto os outros, tão sublime quanto os outros, tão interrogativo quanto os outros, tão finito quanto os outros. Nesse movimento o cachorro parece ter se cansado, pois parou em baixo de um guarda-sol e deitando adormeceu tão profundamente quanto os homens. Agora ele sabia, pois para desvendar o enigma que seu amigo havia proposto somente algo singular quanto um cachorro reflexivo.

– É o cachorro?

– Não.

Olhou em volta mais uma vez, pois estava decidido encontrar a resposta tão esperada e difícil. Viu ao longe umas crianças brincando na areia, absortas, despreocupadas com a inflação, com as contas de fim de mês, com os trabalhos escolares, com a crise econômica mundial, com a poluição das águas, com a escassez de peixes para os pescadores, com a política nacional, com as guerras civis, com o aquecimento global. Elas corriam com a energia inesgotável dos jovens castos, com uma alegria despreocupada e invejável. Só podia ser isso.

– São as crianças?

– Não.

Quase desistindo de procurar respostas pensou na possibilidade da resposta estar no amigo que propôs o questionamento. Sim! Claro! Só podia ser isso! A individualidade do ser humano, o antropocentrismo materialista, o desejo de se sobressair sobre os outros numa introspecção desenfreada e singular. O amigo dele estava falando de filosofia e ele não tinha compreendido todo o significado do mistério. Ainda mais agora em pleno século XXI no que chamamos pós-modernismo. Só podia ser isso.

– Já sei! Já sei! – disse alterando a voz.

– Diga, pois.

– O motivo mais significativo para compreendermos a existência humana é a individualidade do ser humano.

– Não.

– Como não?

– O motivo mais significativo para compreendermos a existência humana é a comunicação, a linguagem. Acaso poderíamos estar aqui pensando e compartilhando tantas coisas se não fosse a comunicação?

O outro ficou um minuto em silêncio, pensando e percebeu que por hora o amigo estava certo, mas ainda iria encontrar um argumento incomunicável para botar por terra as ideias dele.

Leon Cardoso
Enviado por Leon Cardoso em 14/07/2016
Código do texto: T5697732
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