UMA CEPA FORTIFICADA

UMA CEPA FORTIFICADA

Nos idos tempos do Império havia um rapaz que aos dezoito anos re-solveu emancipar-se. Já não aguentava mais viver sob o enérgico tutor, cuja persona no grata, era um Juiz de Direito da Comarca de Minas Gerais. Enamorado duma donzela da cepa dos seus, resolveram por bem unirem-se em matrimonio, obtendo-se assim sua Carta de Alforria.

Na administração dos seus bens, vendeu sua parte da Fazenda hereditária, e, estabeleceu-se no comercio do varejo de produtos hortifrutigranjeiros. Com o tempo, passou também a negociar doces de leite, de goiabada, marmelada, bananada, cocada, em pacotes muito bem encaixotados. Produtos que levavam seu nome de família, muito respeitados e confiados, além da Mantiqueira. Sem abandonar o seu conceituado quitutes, agregou ao seu comercio o fumo em corda, tão procurado pelos fumantes de cigarros de palha como também aos habitues do cachimbo.

Assim enriqueceu-se a custa do vicio alheio e da compunção aos doces. Aplicava suas economias no empréstimo dos seus necessitados até que uma Casa Bancária o associou como acionista e dirigente da instituição. Era um administrador autodidata, sem grandes preparos a mais do que os do Ginásio. Sua visão comercial deu-lhe o tino necessário para se consagrar nacionalmente.

Convidado a vir pra São Paulo gerenciar o Banco Hipotecário de Minas Gerais, aqui chegou trazendo uma clientela mineira de sua confiança. Mandou construir uma casa na Bela Vista, para abrigar seus onze filhos, transmitindo-lhes este tino bancário, que aqui se fortificou em vários funcionários das agencias de múltiplas instituições bancárias. Uma de suas máximas era a de quem pode manda e quem tem juízo obedece. Louvava os funcionários que deliberavam em prol do lucro em contra partida do regulamento, mas aos fracassados punia com demissão.

Sua riqueza fora fonte de renda na sua aposentadoria, e, seu patrimônio fora fonte de herança aos filhos até seus netos por muito tempo após sua morte. Além do patrimônio imóvel, houve quem herdasse os móveis que guarneceram sua casa desde seu primeiro enxoval matrimonial. Foram jogos de estofados, mesa e cadeiras, cristaleira, lustres, louças e faqueiros, tapetes e tudo mais que se encontra com os herdeiros, contado parte da história daquele casal apaixonado que viveram sua eternidade sob a égide da felicidade.

Desta árvore genealógica cada galho deu frutos familiares que por sua vez germinaram netos, bisnetos. Como toda arvore, tiveram galhos que se quebraram e não mais deram ramificações. Outros foram podados e cresceram além dos limites de suas raízes, com bastardos, amantes, e renegados.

Neste anonimato, muitas famílias irão se identificar neste arbusto prodigioso de quem viveu dos galhos desta árvore de nome secreto.

Chico Luz

CHICO LUZ
Enviado por CHICO LUZ em 12/04/2016
Reeditado em 27/04/2016
Código do texto: T5603117
Classificação de conteúdo: seguro