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TUDO PASSA...

Quando estive naquele lugar percebi que aquelas ruínas se encaixavam na sua história. Não eram muitas, contudo, pois o tempo apaga os vestígios, exceto os da memória. E a memória daquele lugar não era exatamente minha, não fosse pelos tantos relatos que tantas vezes ela me fazia entre um café e outro. Foi assim que criei uma memória própria e, quando estive lá, naquele lugar, fiquei tentando fazer um paralelo entre tudo que via e o que tinha ouvido daquela senhora. Mas não encontrei muitas coisas senão essas imagens que ficaram se formando em minha mente durante muito tempo. O que comprovava mesmo sua passagem por ali era um último pé de manga pernambucana de onde pendiam as últimas frutas, a maioria picadas pelos pássaros. Ainda disputei com eles uma intacta, e enquanto comia, tentava decifrar o lugar onde fora a casa. Encontrei sua lembrança escondida nos recônditos do capim ralo e baixo e alguns pequenos arbustos— desses que nascem em lugares, onde antes, fora terra batida.
Por um momento eu pensei desesperada que não conseguiria imaginar sua história — e precisava —. Mas, de repente eu a vi, cabelos longos e negros seguros por um velho lenço e assoprando o fogão de barro branquinho recém trazido do pequeno córrego de águas cristalinas bem abaixo da trilha. Ela era tão jovem e tão linda! Mas já sentia as agruras da vida. Não bastasse ter ficado viúva aos dezenove anos. E com um filho de um ano e outro no ventre lutava para sobreviver num tempo em que se trocava um litro de banha por um dia de trabalho ou às vezes nem isso. Mas sobreviveu...
Então eu ficava tentando compreender esses seus caminhos olhando aquelas ruínas como se a visse entre elas. Foi então que vi uma pequena flor rasteira — uma margarida se não me engano — dessas que nascem em meio às cinzas depois das queimadas de finais de inverno. Imaginei que fosse ela vivendo ali tentando sobreviver ao fado das mulheres viúvas daquele tempo. Ela não era uma mulher apenas, era uma flor que renasceu das cinzas. Eu gostava de imaginá-la flor...
De fato, tinha tanta história ali — e não me enganei — como tinha tanta história em teu olhar e em cada vinco de teu rosto desenhado por esse fado. Foi isso que notei da última vez que tomamos café juntas, e ela, com toda a tua sabedoria, tentava me fazer compreender que tudo passa, relembrando-me outra vez seus percursos, não para lastimar, mas para me mostrar justamente isso. Relatou-me, entre outras tantas coisas, as dificuldades que enfrentava com os filhos pequenos e ainda trabalhava para uma família abastada, lavando roupas, fazendo sabão de soda, preparando carnes de porcos, fiando algodão e tecendo colchas nesses teares antigos. E ainda encontrava tempo para plantar algum roçado de milho e arroz. E nem mesmo era valorizada por isso. Pude sentir a abnegação daquela mulher à minha frente, que relatava tudo, não com tristeza, mas com orgulho por ter vencido e feito de seus dois filhos homens de bem. E até sorria dos tantos infortúnios pelos quais havia passado. Ela queria me dizer— embora não tivesse dito abertamente— que tudo passa, e que quando existe coragem a gente vence qualquer obstáculo.
 
Naquele dia levantei-me para ir embora com um aprendizado maior em minha alma. Com um sorriso ela me entregou um pacote de doce de leite em pedaços para eu levar para casa. Eu a abracei como se abraça uma guerreira que lutou sem espadas, mas com flores, talvez, pois se essas são sua maior paixão agora. E foi por isso que um dia a chamei de senhora das flores. E acho que é assim que a vejo —uma flor— em cujas pétalas se esconde um semblante cheio de histórias...



( Imagem: clicada por mim faz bem tempo. A senhora da foto é minha madrinha Zeca e à qual se refere o conto. O conto em questão eu escrevi então em homenagem a essa senhora que amo tanto e escrevi também para participar da Antologia " Nossos casos nossos causos" uma Edição comemorativa do dia do Escritor como podem ver a capa da mesma abaixo. A história é real. E foi escolhida e por causa dessa escolha ganhei um certificado de qualidade literária e tambpem uma medalha de autor em destaque 2015, cujas fotos tambpem estão abaixo. então é isso e resolvi compartilahr com meus amigos esses momentos felizes de minha vida.)

      



Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 26/11/2015
Código do texto: T5461519
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 56 anos
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Sonia de Fátima Machado Silva

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