MINHA TIA E A HISTÓRIA

 



Estava de férias da faculdade, e fui para Itapuranga, aqui em Goiás, minha cidade de nascimento, onde moravam meus pais. Fui visitar um tio, irmão de meu pai em sua fazenda, na região do Betel. Estavam vacinando e tratando do gado. E fui lá para o lado da cerca do curral, apreciar a década de 50 que ali ainda transcorria. Chegou minha tia. Que começou a fazer algumas perguntas sobre mim e meu futuro.
_ Oh (*) - ela me chamou por um apelido de infância que não vou revelar - você está fazendo faculdade, né?
Ela era professora e muito apreciava a ideia dos estudos na formação de uma pessoa. Principalmente como instrumento de alavancamento social e econômico. E ela tinha em alta conta certa reputação que tinha a minha inteligência. Afinal foram minhas colas que permitiram que seu filho terminasse o segundo grau. E mais, seus filhos se contentaram com a lida do gado, que é um modo de se evitar o caráter maçante dessa coisa chamada escola.
_ Estou sim tia. Lá em Goiânia.
_ Eu sei.
Era só uma pergunta retórica para dar ensejo a uma conversa, ou incutir certo rumo de conversa.
_ E pra quê você tá estudando? Médico, advogado, veterinário?
Aí a vaca foi pro brejo, pois eu sabia onde ela queria chegar.
_ Nada disso não. Tô estudando História.
_ História?
_ É. História.
(...)
Ela pensou, pensou... Ela não compreendia isso. Até gostava de história. Ela sabia o nome dos três primeiro capitães gerais. Sabia também os nomes inteiros dos dois D. pedros. Sabia quantos navios existiam na esquadra de cabral. Sabia o nome do bispo que foi comido pelos índios caetés (serão eles?). Conhecia e a achava divertida a história do Anhanguera. Sabia que foram "terroristas" que "mataram" o Castelo Branco. Um monte desses saberes suspeitos, com que "monumentalizam" a história. Mas... Estudar história não fazia sentido. Tá bem, podia ser professor. Mas para isso era preciso estudar tanto? Além do mais isso é um desperdício de inteligência.
_ E você vai ser historiador?
_ Sim.
_ E historiador faz o quê além de dar aulas?
Eu nem sabia (ou não queria) responder. Só encolhi os ombros. Tipo: pode ser um monte de coisas. Então ela continuou, diante a falta de resposta.
_ Então você tá estudando para contar história. Né?
_ De certo modo sim.
Estava disposto  a concordar com tudo que ela dissesse.
_ É tipo a D. Aurora lá de Diolândia e o Geraldinho Nogueira?
_ Mais ou... Menos.
_ Então me conta uma história? Das engraçadas.
Ferrou. Eu teria que contar uma história para sossegá-la. Senão teria que explicar um monte de coisas que não vinham ao caso, ou me passaria por um péssimo historiador. Então encarei...
_ Certa vez, Tia...
Então inventei uma história ali mesmo. Na maior cara dura. Bem no estilo Xincó ou do Alexandre do Graciliano. E o que é pior: jurei de pés juntos que de fato aquilo aconteceu, do jeitinho que eu estava falando. Ela desconfiou, mas no final deu-se por satisfeita. Então os dois fingidores se separaram com uma "Abenção" de despedida.