HEGEL, TIJOLOS, LIXO...

 

 
Não houve como dissuadí-lo. Ele se resignou a esperar um ônibus ali na Avenida Tocantins, às 2:00 da madrugada. Naquela época os ônibus só começavam a correr às 6:00, ou seja, quatro horas depois. E em sentido contrário ao da nossa casa. Insistimos, ele sentou no chão e não teve jeito. Bêbado, começou a "cochilar" e roncar (ele tem uma íncrivel capacidade de dormir, ele dorme sentado na ponta de uma agulha, não cai nem deixa cair o copo). A gente estava sem grana para o táxi, ele foi deixado prá trás, sob a guarda de algum santo protetor dos pingunços. Alexandre Dumas disse que existe um. Os astecas possuíam vários. Os gregos possuíam Dionísios. Além do mais nós também estávamos bêbados, com a responsalidade suspensa até quando começasse a ressaca. Fomos embora a pé, tínhamos que andar uns três ou quatro kms até o Setor Centro-Oeste, ali perto da Fama. Em casa, na verdade uma república de estudantes, ficamos preocupados, até pensamos em voltar. A consciência estava voltando, junto com ela a ressaca. Voltar para que, na certa ele não estaria lá. Ficamos acordados esperando-o. Ele chegou quase às 7:00 da manhã em estado lastimável. Com os óculos quebrados, todo sujo, com a camisa aberta e com um dos pés descalço. Ele parecia triturado.
_ Uai P. - esse era seu nome - foi atropelado? 
_ Que.. nada! - falou atropelando as coitadas das frases - Eu... me perdi. Quando vi... estava lá na Perimetral, indo no rumo... do Balneário Meia Ponte. Agora tô... aqui.
Foi uma noite fria de junho. Ele tava de jaqueta. Então vimos um imenso volume em torno de seu corpo.
_ O que é isso que você está carregando?
_ Umas... coisas que eu achei.
Entaõ começou a tirar as "coisas". Tipo um strip -tease. Tinha dois livros imensos do Jung, Tipos Psicológicos e um sobre alquimia e psicanálise. Tinha também Fenomenologia do Espírito de Hegel. Como ele conseguiu encontrar aquilo naquele horário? Ele não soube explicar e até hoje não sabemos o que aconteceu. Tinha mais. Ele carregava dois tijolos. Isso era fácil de explicar. Passou por alguma obra. Agora o restante sim era confuso. Primeiro uma bola de sinuca, bola 9. Deve ter roubado num bar copo sujo, daqueles que funcionam a noite toda.
_ Por que você não roubou a bola 8? Ela é mais bonita.
_ Vai sifu!
E continuou o strip-tease. É isso, tinha mais. Havia uma caixa de sabão em pó, pela metade. E junto, um varal de secar roupas, daqueles de plástico colorido, cheio de prendedores. Esses dois  ou três ítens até que combinavam. E podiam até ser de alguma valia. E, por último, o mais misterioso e asqueroso dos ítens, um saco desses de lixo cheio de comida podre. Pegamos aquilo, e jogamos num canto.
_ Ficou doido, P?
_ Eu vou dormir.
Encostou e dormiu ali mesmo. Depois do meio-dia ele acordou, mas não se lembrava de nada. Uma amiga nossa, a M., chegou lá em casa eram umas 8:00, dizendo que P. as, era tipo uma versão feminina de nossa casa, tinha visitado às 4 horas da manhã. Elas ouviram um barulho no quintal, coisas caindo e outros sons. E então ouviram P. gritando pela N., falando algumas palavras completamente sem nexo. Elas mandaram ele embora. Ele pulou o muro e foi embora. No outro dia sentiram falta de algumas ítens, sabão em pó, varal (os outros estavam arrebentados no chão), e até de um saco de lixo. Então devolvemos tudo para ela. Quanto ao saco de lixo, ela não quis. Já Jung e Hegel não eram dela. Os bêbados têm seus mistérios, só eles conseguem achar uma conexão entre Jung, Hegel, tijolos, lixo, sabão em pó, varais e prendedores de roupa. E somente eles conseguem encontrar toda essa sorte de ítens durante a madrugada.