BONITINHA

 

Acordei para ir à escola. Eu devia ter entre 9 e 10 anos. Num ensaio de cidade chamado Diolândia, no município de Itapuranga, Goiás. Nunca faltávamos à aula. Não havia motivos que justificassem a não presença. Meus pais diziam: "quem não vai pra escola não tem futuro". Qual que nada, todos os dias eu via o futuro de minha mãe e de meu pai. Pois para mim futuro era essa coisa de ficar adulto. Além do mais, pra que futuro se eu gosto tanto do presente: jogar bola, roubar manga, comer goiaba, banhar no córrego, brincar de circo, fingir de índio... todas essas coisas boas. "Eu não quero futuro!". E então: "Vai senão apanha". Diante desse argumento, prontamente mudei de ideia acerca do presente e do futuro: "No futuro não existe escola, veja meu pai e minha mãe. Deve ser bom". Pensei sem muita convicção. Mas o fato é que íamos à escola todo santo dia. Exceto nos dias santos, feriados, finais de semana e nas férias. Mas naquela manhã, acordei e não conseguia abrir os olhos. Estavam grudados. Gritei: "Manhê!!! Eu não enxergo, parece que algúem costurou meus olhos". E ela: "Vem cá, deixovê!". Ela então fez algumas perquirições, alguns exames chatos e minuciosos. "Não é cegueira não, é só bonitinha*". O quê? Então eu disse: "Ela disse bonitinha, você não sabe o que é?". Disse "eu" pra mim mesmo. Pensei, matutei, queimei neurônios. Como é que um negócio tão feio podia ser "bonitinha"? Então perguntei: "Mãe o que é bonitinha?" Pois não foi que minha mãe virou professora: "É uma doença dos olhos, é só molhar, esfregar bem e tirar a meleca, aí você vê tudo de novo. Passa uma água boricada, em alguns dias a doença passa". Não entendi muita coisa, mas entendi doença e bem compreendia as suas implicações: injeção na bunda. Desesperado reagi: "Não estou com doença! Não vou mostrar a bunda pro Zequinha da farmácia...". Dei uma pausa e perguntei: "O que é contagiosa?" Minha mãe respondeu: "É doença que pega, feito gripe. Mas essa é um pouquinho pior, por isso você vai ficar alguns dias sem ir à escola". Meu Deus, minha mãe finalmente disse que eu podia faltar à escola! Abri um sorriso do tamanho do mundo. Imprudentemente falei: "Então doença também pode ser uma coisa boa. Tô livre daquela chata da Professoa Júlia. A bonitinha merece seu nome". Minha mãe me olhou daquele jeito. Mudei de opinião, pelo menos do lado de fora de minha de cabeça. Foram dias felizes. Ficava na rua. Ia na casa do Joãozinho ouvi-lo tocar sanfona. Passava horas em cima do pé de manga. Procurava nas cercas colhendo os melões-de-são-caetano, e comia. Era tanta sorte ter olho infeccionado, que brincando debaixo das mangueiras achei Cr$ 50,00. Não sei quanto valeriam hoje, mas deu pra minha mãe comprar um porco... Depois eu conto essa história. Havia somente um problema: três de meus quatro irmãos. Passavam os dias tentando se esfregar em mim pra ver se pegavam a tal doença que pega. Exceto quando iam pra escola: "Hehe"). Bonitnha é extraordinária. Depois disso peguei várias bonitinhas, a maior parte delas imaginárias.

* Não sei se todos sabem, mas bonitinha era o nome que usávamos para designar a conjuntiite. É assim que chamamos aqui em Goiás.