801-O PRIMEIRO RÁDIO - Auto-biográfico

Para melhor entendimento desta crônica,

recomendo a leitura do conto

# 800- Notícias da Guerra na Voz do Brasil

Quando meu pai comprou o primeiro rádio, foi um sucesso na família e, principalmente, na vizinhança.

Talvez enjoado de ir semanalmente à casa do seu compadre, Nicola Novelini, ou quem sabe? querendo ouvir notícias mais frescas — principalmente as notícias da guerra que se desenvolvia na Europa e no Pacífico — papai tomou a decisão: comprou um aparelho receptor de rádio.

Era um aparelho de segunda mão, mas bem conservado, da marca Emerson, gravada em legras douradas na frente da tela pequena do alto falante. Tinha linhas modernas para então, era de mesa, com mostrador (dial) horizontal, iluminado por suave luz verde. Muito diferente do rádio de seu Nicola, antigo, em forma de capelinha, com uma janela por onde os números das estações passavam, girando.

Tio Armando também influenciou na decisão de meu pai. Era alfaiate, trabalhava na melhor alfaiataria da cidade (Chico Denubila) e chegava todas as tardes com novidades ouvidas no rádio: novas manobras militares, recentes batalhas, piadas contadas nos programas humorísticos, e até contava partes dos capítulos das novelas de rádio-teatro, transmitidas pela Rádio Nacional ou pela Rádio Tupi.

O rádio foi colocado numa prateleira própria afixada à parede da sala de jantar, a uma altura que nem eu nem Artur alcançássemos os botões do aparelho; foi a maneira mais eficaz de impedir nosso acesso, pois “isto não é coisa de criança”, como dizia minha mãe.

Imediatamente ocorreu uma transformação nos hábitos da família. O jantar, antes servido na cozinha, às seis horas da tarde, passou a ser servido na sala de jantar, para que, enquanto jantávamos, pudéssemos ouvir a Hora da Ave Maria. Uma crônica diária transmitida pela Rádio Tupi do Rio pelo Julio Louzada, acompanhada de oração e conselhos aos ouvintes que escreviam para o radialista. A seguir, vinha uma novela religiosa em capítulos de 15 minutos cada dia.

Claro que o silêncio absoluto era exigido, a fim de que a gente pudesse ouvir tudo, entre chiados e curtas interrupções causados pela estática. Só depois que terminava a novela é que a gente podia conversar os talheres retirados. Eu e Artur não víamos a hora de sair correndo Dalí, para nossos interesses de meninos.

Era o ano de 1943 e eu freqüentava o primeiro ano do curso primário, e me gabava ao contar aos colegas algumas coisas ouvidas no rádio, mas não havia muito interesse da parte deles.

Minha mãe e Madrinha (tia Carolina) logo adquiriram o hábito de ouvir a novela das treze horas da Rádio Nacional. Famoso horário, com dramas impressionantes e vozes maravilhosas (Celso Guimarães, Isis de Oliveira, Floriano Faissal,Yara Salles, Rodolfo Mayer, Saint-Clair Lopes, Eva Vilma, Mario Lago, Nuno de Oliveira, Paulo Gracindo, Ismênia dos Santos, entre outros).

As vizinhas foram se achegando para sofrer de emoção ou sorrir de alegria com os capítulos de novelas como “Pelos Caminhos da Vida”, cujo prefixo musical (musica fixa de abertura e encerramento eram acordes de “Valsa das Flores”. Dona Maria Duarte, vizinha da frente, tricotava. As moças da família Bícego – Nair e Aparecida – tricotavam. Já as filhas do Sateraud (Ada, Eda e Oda) nada faziam, só ouviam e eram muito caladas, pois eram mocinhas num grupo de mulheres “maduras”.

Papai passou a ouvir diariamente o rádio: as duas edições do Repórter Esso (12:55 e 20:55). Além de uma música muito chamativa, tinha a voz forte de Heron Domingues, que anunciava sempre o programa como “O Primeiro a Dar as Últimas”.

Tio Gordo (meu tio avô, irmão de minha avó e tio de minha mãe, de tio Armando e de Madrinha) não gostava de ouvir rádio, pois as notícias da guerra eram somente de derrotas das forças do “Eixo” (Alemanha, Itália e Japão), o que lhe aborrecia. Quando chegaram as notícias do final trágico de Mussolini (morreu vergonhosamente dependurado de cabeça para baixo numa vila do norte da Itália) ficou nervoso e culpou o aparelho, dizendo:

— Questa porchera non dice niente di buon. (Esta porcaria não diz nada de bom)

Pouco a pouco outros programas — principalmente os da noite, entre sete e nove da noite — foram incorporados aos hábitos de todos. Deixaram de jogar a bisca (1) ou fazer saquinhos de papel para a loja de Tio Gordo e passaram a ouvir programas humorísticos: Silvino Neto e a Família Pimpinela, PRK-30, ou de músicas: Ari Barroso e a Hora dos Calouros, Jorge Cury e a Hora do Pato, e Francisco Alves (aos domingos).

Então meu avô Aníbal (materno) morreu. O luto baixou total, inclusive com a retirada do rádio da prateleira e “escondido” no guarda-roupas do quarto de Tio Gordo.

Passaram-se seis meses sem notícias, novelas, piadas ou músicas na nossa casa. Quando o aparelho foi re-instalado, já não despertou o mesmo interesse: não era mais novidade, pois diversos vizinhos já tinham adquiridos rádios receptores.

As notícias já não eram mais tão dramáticas, pois a guerra havia terminado com o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

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(1) – jogo muito jogado pelos italianos, uma versão da Briscola.

ANTONIO ROQUE GOBBO

Belo Horizonte, 22 de agosto de 2013.

Conto # 802 da Série 1OOO HISTÓRIAS

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 08/05/2015
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