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A rendição

Lá pelo interior dessas Minas Gerais,  o jovem queria mesmo era casar com a filha do coronel. Pensa que lhe faltava dinheiro? Sobrava-lhe até. A natureza lhe dera também belas feições. Não lhe faltava sequer a aquiesciência do pai da moça, que fazia muito gosto de ver a filha casada com o Lalado, filho de um amigo, também  rico dono de terras. Mas ao nosso Lalado faltava visão. Não a visão para os negócios, que essa ele tinha e muita; faltava-lhe vista, pois o homem enxergava muito pouco,a curta e longa distância.

Hipermetropia e miopia graves  fora a sentença do médico, mas o moço ignorou solenemente a indicação para usar os óculos, e lentes de contato não eram para macho.

O candidato a marido insistia e  insistia mesmo em que não precisava de quatro olhos, que enxergava muito e muito bem e só aparecia na casa do coronel sem o apetrecho salvador.   A namorada, a Lucinha, sabia da visão debilitada do futuro marido e, na verdade, todos na fazenda do pretendente à moça conheciam o problema, mas não havia meio de o homem, por pura vaidade, usar o par de óculos receitado pelo doutor.  Lucinha sabia que tudo era questão de tempo e que, logo depois do casamento, ela o convenceria de que precisava mesmo do par de óculos.

Lalado se preparava para pedir a moça em casamento e, sabendo que o sim era garantido, resolveu também preparar um presentinho para a família da moça. Na véspera, pediu a um dos serviçais do coronel que pregasse um preguinho pequeno em uma árvore distante da   enorme casa em que seria promovido um almoço para oficializar o noivado e a data do casamento. Mal enxergou a árvore, que estava longe, e nem se deu ao trabalho de ir até lá. Apenas recomendou que o prego ficasse a um metro do chão.  Pediu muito segredo e agradou o empregado com um dinheirinho pelo serviço.

Chega o dia da festa. O coronel e a filha eram só alegria, e nosso herói formalizou os pedidos, recebeu aplausos e o consentimento. Tudo acontecia à luz do dia. Lalado chegou a derramar vinho sobre o vestido de uma senhora, durante o almoço, mas tudo fazia parte da festa. Respeitava-se a cegueira do noivo teimoso.

Findo o almoço, Lalado estava reunido com Lucinha, o coronel e amigos do lado de fora da casa. Então  ele resolveu se expor:

-  Gente, vocês, sei que pensam que preciso de óculos, mas  estou enxergando muito, e muito bem.
 
Os circunstantes se admiraram,  e Lalado continuou:

-  Sou capaz de ver, vejam aquela árvore...

Todos olharam na direção de uma ameixeira.

-  Estão vendo? Lá naquele tronco?  Sou capaz de ver daqui um preguinho nele...  Veem? Está luzindo...

Ninguém obviamente via nada. E Lalado foi conduzindo a todos em direção à  árvore.

-  Venham, venham...

Todos o seguiam, muito intrigados,  quando  nosso herói não se deu conta de   uma enorme vaca que  jazia na grama e atropelou o animal indo   ao chão ao som de ruidoso mugido.

O noivo  recebeu o imediato socorro, sob risos cordiais, e ninguém lhe cobrou o prego da árvore, mas, no dia seguinte,  Lucinha, durante  tremenda discussão,  disse  que o destino do pretendente era  acabar confundindo o padre com a noiva e   exigiu-lhe os óculos, sob pena de o casório não se realizar. Lalado não teve outra saída senão a rendição.


Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 19/01/2015
Reeditado em 19/01/2015
Código do texto: T5107557
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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