As Alvas Lembranças do Inverno
Era frio, lembro-me, muito frio. A neve caía na janela da choupana e embaçava as vidraças. Os dedos já não suportavam e — mesmo guardados dentro dos bolsos — começavam a se parecer com amoras silvestres. O ar gélido tomava conta das madeiras internas do chalé, tudo isso por causa de uma fresta não consertada na parede. Do lado de dentro, na cozinha, minha mãe esquentava um café amargo e negro como os lençóis de feltro que também estavam ali para serem aquecidos. Olhava a panela, parecia vazia. E fumaçava. Ao mesmo tempo, do lado de fora, meu pai coçava a barba, ajeitava o chapéu e procurava pelas pobres árvores que batalhavam para sobreviver no cume do inverno — e que sempre morriam na luta vã por consequência de outras vidas em jogo. E eu. Eu olhava tudo, sincronicamente, da minha janela que teimava em turvar a cada respiração. Éramos nós três: eu, Caleb, e meus pais — Phillip e Rebeca — caças do acaso.
A porta se abriu, era meu pai, carregava nas costas dois ou três pequenas toras de pinheiro.
— Isso não vai dar nem para uma noite, Phillip.
Estas foram as frias palavras que saíram dos lábios de minha mãe. Eram tão gélidas que faziam fumaça ao se chocarem com as partículas de ar.
— Foi o que consegui, minha querida... — disse meu pai coçando a cabeça e mordendo o bigode com preocupação.
Enquanto eles discutiam, eu continuava a observar a vida (ou a falta dela) pela janela. Um floco de neve caiu de uma nuvem e entrou em casa. Atravessou a sala, dando piruetas, e me convidou para acompanhá-lo na dança. Foi uma bela companhia até o seu destino ser cumprido: caiu no assoalho e condensou-se. Retornei à janela o olhar. Um pássaro negro cruzou o branco céu e pousou num galho seco. Recordei-me da voz de meu pai, certo dia, falando-me sobre uma ave negra que tinha um amor para vida inteira mesmo quando seu parceiro morria... corvo o seu nome. Observei melhor o galho e aquele pássaro continuou sozinho. Deduzi ser um corvo. Talvez a esposa dele tenha morrido... — pensei.
Meus pais, a essa hora, já haviam cessado a troca de palavras afiadas e o silêncio havia tomado o trono do lugar. Com a inocência de uma criança, perguntei:
— Quando algum de vocês morrer... vocês sentirão falta do outro?
Um barulho ensurdecedor rompeu o silêncio logo após a minha fala. Era a panela de café que caía das mãos de mamãe. Meu pai, que limpava o facão com a ponta da camisa, me encarou com olhos de dúvida. Rebeca pôs as mãos na cabeça, chacoalhou os cabelos, malditos cabelos, já desgrenhados e falou veemente:
— Phillip, trate de buscar mais lenha! … E leve Caleb com você! Esse menino passou tanto, tanto tempo nessa janela que já está pensando em besteiras!
Papai me puxou pelo braço até o bidê, fez-me vestir o casaco e calçar as botas.
— Está bem frio lá fora, meu rapaz. Não vai querer ficar como um boneco de neve, não é? — disse sussurrando e sorrindo, como se aquilo fosse o segredo mais secreto de todos os segredos. Balancei a cabeça, concordando.
Assim que meu pai abriu a porta da frente, nada pude enxergar. Meus olhos fecharam-se, automaticamente. O vento era mais forte que eu, mais forte que qualquer outra coisa terrena. Parecia o sopro de um deus enfurecido. Papai pegou a espingarda — usada somente para caçar o que nos fosse necessário — que estava ao lado do portal e seguimos em caminhada à procura de lenha.
Uma imensidão branca à frente dos meus olhos quase fechados, era tudo o que dava para ver. Horas a fio caminhando e afundando as canelas na neve. Adentramos à floresta, era uma grande subida... lá estavam as árvores-gigantes, as donas dos montes. Sentado ao pé de uma figueira, onde meu pai havia me deixado a olhá-lo cortar os troncos, eu brincava com umas frutinhas vermelhas de um arbusto qualquer. E o tempo foi escorrendo, sem que eu me desse conta de que a noite já estava ao nosso redor.
O zunido da última machadada foi somado a um uivo por detrás do grande monte. Os olhos de meu pai correram a me procurar, eu estava exatamente onde ele havia me deixado, mas, mesmo assim, eles — agoniados — me buscavam na noite. Fui arrancado do chão, num súbito ato de desespero.
— Vamos sair daqui, Caleb, antes que os lobos nos alcancem. — disse com olhos fumegantes.
Eu, sem pronunciar uma só palavra, concordei. O medo me maltratava. Desde sempre. No entanto, dessa vez era diferente. Os meus medos sempre foram introspectivos. E teóricos.
Corremos. Corremos muito. Ao pé do monte os lobos já estavam bem perto de mim e de papai. Já não podíamos correr, não aguentávamos. Papai tateou o seu dorso e se deu conta de que havia esquecido a arma junto às madeiras cortadas, bem longe de onde estávamos agora. Os olhos do meu pai me encaravam com pena e medo. Como um veado à mira de seu caçador, torcendo para que a bala desvie e que tenha a chance de escapar mais uma vez do destino. Não tão longe dali havia uma gruta muito pequena. Com muita dificuldade, consegui esconder meu corpo de sete anos dentro daquele buraco. Infelizmente, não cabia o corpo velho do meu pai... era tarde demais... Os gritos tomavam conta do vácuo florestal e as minhas lágrimas congeladas, da face.
Quando dei por mim, havia adormecido dentro daquele buraco. Sai. Vi um rastro carmim pintando o além pálido.
Corri. Corri muito. Ao pé de casa, eu estava só... e com medo. Abri a porta.
— Mamãe!! Mamãe!!! — gritei esperneado. Não havia resposta. Cheguei correndo à cozinha e os meus berros cessaram. Minha mãe estava de bruços no chão e o sangue lhe manchava os cabelos... os malditos cabelos. E a chaleira também estava, com o café — agora já frio — que escorria pelo assoalho. O que fazer?
Estiquei o olhar... lá estava a tal janela, ainda embaçada. Cheguei perto, abafei-a e com a manga da camisa retirei a turbulência da vista. Mas tudo era branco. Infinitamente branco. Se não fosse por um ponto negro no meio da neve. Corri, mais uma vez. Minhas pernas já não suportavam mais correr. Ao chegar próximo ao objeto, reconheci. Era o corvo. Morto. Tinha um furo de bala de chumbo no peito. Cheguei a conclusão: um caçador de vidas havia passado por ali. E, finalmente, ele (s) ascendeu aos céus, ao encontro do calor... do seu amor — na Terra — perdido.
Nem sei o porque dessa recordação. Sentado em meu chalé, décadas depois, isso me veio à mente. Está frio, posso sentir. Estou só, posso sentir. E a imensidão branca mora em meus olhos agora, sem nem mesmo olhar para a janela embaçada. O destino tomou-me os curiosos olhos.