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Ultrassom desvelado

- É menino ou menina, Clarinha? – perguntou uma amiga.
- Não sei.
- Como? Não fez ultrassom?
- Fiz e está tudo bem com o bebê.
- Mas e o sexo, menina? – insistiu a amiga.
- Não quis saber.
- Como?!
- Quero que venha bem. Estou muito feliz de ser mãe.

Clarinha, desde muito nova, saiu de sua cidade no interior e foi trabalhar como doméstica na casa de uma família que praticamente a adotou como filha. Lá ela prestou serviços e lá também recebeu amor e carinho. Na cidade grande, estudou mais um pouquinho e até se sentia bem sabida quando se comparava às meninas lá da roça.

A moça não conheceu rapazes antes do casamento. Apaixonou-se por Ângelo, o primeiro namorado, e se casaram. Viviam a felicidade dos simples, bem pertinho dos patrões, para quem ela continuava trabalhando.

A vida só não era completamente feliz, porque o casal queria ansiosamente um bebê. Seis anos se passaram e nada de criança naquela família. Clarinha sentia até uma pitada de inveja das amigas que já se casavam grávidas ou tinham gravidez imediata. E justo ela, que tinha um projeto de ser mãe bem cedo, havia de esperar, esperar tanto... Seu instinto maternal aguçado queria com urgência um pequeno ser gerado em seu corpo para o encher de amor e criar com toda a dignidade. Que demora atroz! E se entristecia tanto quando se lembrava de que o primeiro filho poderia ter vindo logo, rapidinho, se ela não tivesse adoecido e perdido a criança no primeiro mês de gravidez. Depois disso, foram tratamentos e tentativas, até que a barriga cresceu, cresceu mesmo e amparava um bebê sadio, segundo revelava o ultrassom.

Antes do exame, Clarinha disse para o médico:

- Só quero saber se o bebê está bem, não me revele, por favor, se é menino ou menina.

Ângelo ficou aborrecido e procurou o doutor, mas ele lhe disse que respeitava a decisão da mãe.

Era difícil para as pessoas entenderem aquela falta de curiosidade, aquele negar-se a usufruir os benefícios das conquistas da ciência. Mas para Clarinha era tudo muito fácil de explicar. Logo que perdeu o primeiro nenê, passou a rezar sempre para que seu sonho de maternidade se concretizasse. Fez pequenas promessas, essas de paga mais simples, para não sacrificar com mais gastos o orçamento apertado. Rezou, rezou e esperou. Quando soube que o bebê viria, passou a chamá-lo sempre de bebê; nunca dizia minha menina ou meu menino. Ângelo é que fazia lá os seus projetos. Clarinha, não. Era o bebê... O meu lindo bebê... O meu amorzinho de criança, que vai chegar. Não tinha preferência por menino ou menina... Era a sua maneira de agradecer a Deus a vida que lhe crescia no ventre. Deus lhe fora tão generoso, não cabia lhe pedir mais nada, senão o bem-estar do bebê, não queria invadir uma privacidade que antes era só de Deus. Amava aquele romantismo do tempo em que as mães só sabiam o sexo das crianças no dia do nascimento... Ninguém lhe aceitava muito bem a decisão. Mas paciência,lhe bastava ser mãe. E o enxovalzinho branco era preparado com muito esmero, apesar dos palpites na direção do rosa ou do azul.

Enfim, chegou o dia tão esperado. O caminho era a maternidade. Clarinha seguiu feliz e cheia de dores para realizar seu sonho de ser mãe... Ao meio-dia, de um domingo ensolarado, ela deu à luz um lindo bebê. Clara veio ao mundo desvelando o ultrassom e encantando a todos...

Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 23/09/2012
Reeditado em 23/09/2012
Código do texto: T3897325
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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