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( Imagem google)


O QUINTAL DE MINHA INFANCIA

 
        Naquele quintal sempre encontrei espaço para ser criança. Talvez ali todos os espaços fossem infinitos porque não existem fronteiras para uma criança. Cada espaço era preenchido pelas diversas formas de brincar e cada direção tinha o seu horizonte sem qualquer ideal que não fosse apenas brincar. Criança hoje já tem um ideal ainda que imposto pelos pais e seus espaços podem ser uma creche cercada de muros altos ou quarto munido de um computador. Nada comparado a liberdade e calor humano de outrora
              Pergunto-me hoje se isso é viver totalmente o ser criança e lamento essa triste realidade que transformou todas as infâncias. Eu vivi totalmente o ser criança e tive uma infância feliz. Mas hoje pouco resta daquela menina. Talvez somente o ar sonhador e poeta e meus espaços se resumem em meus próprios espaços siderais: minhas saudades, minhas lembranças, minhas procuras de mim mesmo...  Acho que me perdi em algum lugar. Talvez no velho quintal de minha infância. Aquele mesmo da fazenda de meus avós paternos, por onde vagueia agora minhas lembranças. Sim, como por encanto me vejo lá agora, nesse êxtase de contemplar o passado cheio de histórias.
          As lembranças trazem-me de volta o pé de jasmim florido que ficava bem perto da porta da cozinha. Seu doce e envolvente perfume inundava o quintal. Isso me lembra agora que o jasmim é sempre uma fonte de inspiração aos poetas, ao amor... Quantos poemas e lindas canções foram criadas inspiradas nessa simples e delicada flor! Quem sabe essa poesia que o reveste tenha me feito recordá-lo. Sou poetisa, lembra? Não há como negar o poder do jasmim.
          Atrás do pé de jasmim, quase junto ao caule de uma laranjeira, tinha o pé de belladona. Faço questão de recordá-lo porque ele fez parte de minhas brincadeiras de criança. Quando as flores desabrochavam era uma alegria só. Eu ficava contando os dias para irmos à casa de meus avòs só para brincar com elas. Eu gostava de cortar o pezinho da flor e fazer lindos vestidos longos para minha pequena boneca. As flores eram bem longas em forma de cálice. Tinham a cor branca com nesgas cor-de rosa ou amarela. Belíssimas... Agora depois de tanto tempo descobri que o seu nome é originado do fato de que,  em séculos passados, as mulheres utilizavam extratos dessa planta nos olhos para dilatar as pupilas, acreditando ficarem mais belas. Daí o nome belladona ou mulher bela.
         Levada pelas lembranças sigo a estreita trilha ladeada de bananeiras no meio do quintal.  Seus destino era a bica d’água bem no fim do quintal. Era nessa bica buscava-se a água para o sustento. Era um lugar especial principalmente porque era lá que ficava ficava um solitário pé de laranja-lima onde colhíamos seus doces frutos. Lembro-me bem das flores miúdas e alvas na época da florada e dos beija-flores e abelhas que disputavam seu néctar e seu doce perfume.
          Mas voltando à trilha... Sinuosa e cheia de sombras ela seguia quase lado a lado com a cerca do mangueiro, o lugar onde se criava porcos e também o lugar onde reinava as mais deliciosas árvores frutíferas além das mangueiras... Nesse espaço os porcos circulavam quase livres, não fosse o limite imposto por estacas de mais ou menos um metro fincadas lado a lado na terra. Enfim, era um espaço fecundo disputado pelos pássaros, os porcos e os pequenos travessos intitulados netos que se aventuravam a brincar por ali nos finais de semana. Inclusive eu.
         Também me lembro do pé de tangerina que ficava perto do pé de jasmim. Ah! Que doces frutos!... Logo mais abaixo o pé de laranja-lisa... O pé de beijo perto da casa de queijos...
                 Essas são apenas algumas das lembranças desse velho quintal da fazenda de meus avôs paternos que já se foram para a eternidade. Algumas lembranças marcam mais. Não há como negar. Elas se infiltram em nosso subconsciente e ficam ali... De alguma forma são responsáveis pela nossa formação. Nossa identidade...
Ali naquele quintal fui criança completa. Nas travessuras... Na liberdade de subir em árvores... Na alegria de colher flores e frutas... Na subversão que não podia deixar de existir, afinal, ser criança, é também organizar o mundo a seu modo...
          Porque a casa dos avôs têm sempre algo que fascina, um mundo diferente que nossas casas jamais mostraram? Nada de regras... Horas marcadas... Uma liberdade efêmera que dura apenas enquanto dura um fim de semana ou as férias, mas que fica para sempre gravada como uma bela aventura. Talvez os avôs compreendam  involuntariamente a necessidade dessa liberdade para a sabedoria de seus netos, sem a ditadura implantada pelos pais. E pensar que um dia também foram ditadores.  
           Talvez quem algum dia ler essas palavras achará estranho essas voltas ao passado, através de coisas tão banais. Mas hoje percebi que elas são de certa forma as melhores lembranças e transformam-se nos mais belos tesouros para uma mente saudosa.  São essas lembranças que me fazem acreditar que ainda existe um pouco de humanidade em mim porque sou o resultado daquela menina que corria livre... Por isso penso ser importante permitir que as crianças vivam intensamente essa fase de suas vidas para não se transformarem em pessoas amargas.
 
 



Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 29/08/2012
Código do texto: T3855094
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
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Sonia de Fátima Machado Silva

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