Marina

Namorei Mariana aos 25 anos. Eu já era eletricista da universidade onde ele cursava Letras. Meu salário não era dos piores. Finalmente tinha saído debaixo da saia de minha mãe. Eu morava só em um apartamento pequeno no centro de Campina Grande. O meu salário e a ajuda que meus pais me mandavam mensalmente proporcionavam-me um luxo tênue. Diria até ideal.

Mariana certo dia fugiu de casa e foi me procurar, eu me lembro estar fazendo o almoço. Ela me abraçou, chorou no meu peito, me deu um beijo salgado e eu não hesitei em lhe dar um teto. Servir o almoço – o meu – e pedi que me desse uma explicação da situação.

– Meu pai, aquele velho, encontrou um cigarro na minha mochila e me deu uma pisa. Uma pisa! – bradou com ódio nos olhos. Ela não fumava, o cigarro devia ser de alguma amiga sua. – Eu, que já sou uma mulher, apanhando do pai, por ninharia. Ele vai se arrepender...

Eu sabia que ela não iria fazer nada e voltaria logo para casa. Ela nada fez, porém não retornou a seu lar. Passaram dias, semanas, estava perto de completar um mês que ela estava morando comigo quando decidiu largar a faculdade. Eu realmente fiquei puto. Apesar de ser minha namorada e de fazer amor com ela todos os dias eu não sustentaria eternamente uma vagabunda.

– Vou arrumar um emprego – disse ela, adivinhando meus pensamentos.

Fiquei a matutar se os pais de Mariana sabiam que ela estava morando comigo. Nunca perguntei. Nunca me interessou.

Mariana me pediu que lhe despertasse quando eu saísse para o trabalho. Eu o fiz aos beijos. Antes de sair ela me disse que ia encontrar algo, seja lá o que for.

Peguei o primeiro ônibus que me apareceu, para meu azar. O desgraçado rodou tanto que tive a impressão de chegar ao meio do expediente. Na universidade algumas colegas de Mariana me perguntaram por ela. Eu respondi que não sabia onde ela poderia estar.

O trabalho foi monótono e rápido concomitantemente: algumas lâmpadas para trocar, calhas para montar; um mecânico imbecil – que trabalhava ao lado do meu setor – perguntando por Mariana. Algumas vezes me dava à impressão que ele só esperava eu largar Mariana pra avançar em cima da carniça. Enfim, quatro e meia da tarde sair do trabalho, peguei o ônibus corriqueiro e cheguei em casa ao crepúsculo.

– Amor, tive uma idéia que poderá mudar nossas vidas – disse Mariana no umbral da porta.

Não me animei muito. Não ouvi “arrumei um emprego” e sim “tive uma idéia”. Ela me ergueu um papel com um poema e pediu que eu o lesse em voz alta. Eu achei aquilo uma porcaria. Falava de amor. Clichê. Eu odiava ler na época. Mariana teve a “incrível” idéia de ser escritora. Deu vontade de chutá-la a ponta-pé do meu apartamento. Me segurei, jantei, fiz amor com ela e antes de dormi já tinha passado a raiva.

Nos dias seguintes, ela sempre lia pra mim o que escrevia. Eu tentava lhe atrapalhar com beijos só que ela os desviava abruptamente e pedia minha opinião sobre seus textos.

– Fale de adultério também. A traição faz parte de uma relação conjugal normal.

Mariana não gostou nada dessa opinião. Fizemos amor uma ultima vez. No dia seguinte ela saiu de casa quando fui para o trabalho. Não voltou mais. Não deixou bilhete. Não a procurei. Talvez tenha voltado para os pais. Deixei a situação como estava.

Meses se passaram e nada de Mariana. Eu ainda não estava acreditando que ela tinha saído do meu regaço por um comentário tão frívolo. Não me importei. Não chorei. Conformei-me logo. O imbecil do mecânico ainda pergunta por ela, as amiguinhas também. Eu respondia com monossílabos.

Finalmente passou-se um ano desde o sumiço de Mariana da minha vida. As colegas dela terminaram o curso e cada uma foi pro seu lado. Mariana já era passado para todos.

Certo dia, estava eu assistindo o noticiário – sinceramente quase nunca assistia o noticiário. – Para minha surpresa, anunciaram Mariana: Uma Paraibana que entrou para lista dos livros mais vendidos no The New York Times. Realmente me pegou de baque. Não sabia nem que ela tinha lançado um livro. Estava muito bonita e pomposa. Anunciaram por ultimo que ele laçaria o novo livro aqui em Campina. Era minha chance de vê-la uma última vez.

Comprei seu livro anterior, mas não li. Duas semanas depois ela estava na capital, e, na manhã seguinte, venho ao brejo para noite de autógrafos em uma biblioteca.

Cheguei bastante cedo na biblioteca, tanto que apenas um casal de idoso e uns caras de terno estavam à espera da autora. Duas horas depois o local estava cheio. Mariana chegou de chofre, com dois seguranças. Estava excepcionalmente linda. Começou a dar os primeiros autógrafos. Eu não tirava os olhos dela. Foi então que o olhar dela penetrou no meu. No começo nosso tempo parou – pelo menos o meu. Ela pareceu desnorteada. Foi então que abriu um sorriso de orelha a orelha e acenou para mim, pareceu feliz por me ver.

– Como você está? – gritou ela em minha direção.

– Estou ótimo e você? – o alvoroço estava tão grande que ela não me ouviu, ou fez ouvido de mercador, não sei. Mariana continuou a autografar livros.

Naquele instante fui embora, feliz só por trocar uma palavra com ela. Quando acordei noutro dia me dei conta que não comprei o novo livro de Mariana. Voltei à biblioteca para adquirir um exemplar. O titulo era bem sugestivo “Adultério segundo minha mulher”. Antes de pagar não resistir e abrir. Logo no começo tinha uma dedicatória: “Dedico este livro ao meu primeiro amor, Mateus. Sem nossa relação, a alma desta obra provavelmente não se concretizaria.”

Será que Marina pensava mesmo que eu a traí?

Fiquei eufórico por ter meu nome na dedicatória de uma autora Best-sellers e meio decepcionado por ser mal interpretado. Meus pensamentos foram interrompidos por um funcionário da biblioteca:

– Custa 29,90 R$.