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O menino


Já faz alguns anos que aconteceu, mas é fato vivo em minha memória. Chegava eu à porta do trabalho, quando fui abordado por um menino. Coitadinho! Magrinho, descalço... Para ele um simples mestre-escola, carregando alguns livros, devia parecer um homem rico.

- Moço, me ajuda a comprar um litro de leite.

A mãe estava em casa e ele saiu pedindo trocados para levar o alimento do irmão pequeno. O olhar pedinte era triste, como é sempre o olhar daqueles que pedem por absoluta necessidade.

O primeiro movimento foi consultar a carteira. Uma nota apenas, não me lembra o valor (tanta é a mudança da moeda!), mas o equivalente a uns dez litros de leite. A padaria não ficava tão perto, o menino teria de subir um pequeno morro, descer outro mais à esquerda e chegar ao cobiçado leite. E eu tinha serviço... Peguei a única nota  e passei a ele.

- Olha, vá à padaria, compre o leite e traz o troco.

Subi com ele a escada, mostrei a sala em que estaria e despachei o meu inocente pedinte rumo ao leite, que ia aplacar a fome de uma criança pobre.

Peguei alguns objetos no armário, cumprimentei os amigos, fiquei imaginando o menino, comprando, pegando o troco e... Sinal, o trabalho me chamava. A aula transcorreu  normalmente, os meninos estavam tranquilos e não exigiam mais do que meu esforço em transmitir. A porta, essa ficou cuidadosamente aberta para receber meu personagem daquela manhã.

O assunto corria, corria,  e meus olhos, a todo momento, procuravam aquele vultinho na porta, com o leite e com o honesto troco de seu benfeitor.

Passaram-se cinco, dez minutos, a aula toda... E ele não veio... Foi-se, quem sabe rindo-se, quem sabe cheio de culpa. Confio na segunda hipótese. Era tão simples, tão humilde, tão necessitado, que não tripudiaria sobre quem o ajudou. E o fiquei imaginando, chegando à modesta casa  e entregando à honesta mãe o dinheirinho, que faria a provisória festa do leite por alguns poucos dias.

- Onde você conseguiu isso tudo, menino?
- Foi um dia de sorte, mãe; todo mundo ajudou.

E imaginei a alegria da mãe, e pensei no menino, a quem eu submeti a uma profunda tentação. E só por isso ele já estava perdoado...


Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 22/04/2012
Reeditado em 22/04/2012
Código do texto: T3627998

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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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