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Contos das Estações: A Liberdade da Primavera ( 3 )

 Era primavera. Após o inverno gélido que passara havia pouco tempo, as cerejeiras desabrochavam lentamente. E aquela linda mulher de vestido branco olhava distraidamente para as flores rosadas, enquanto descansava devido ao peso das algemas que prendiam seus pés e mãos. Seu nome era Haruhi e, fazia tanto tempo que nem ela sabia quanto era, estava presa dentro daquela casa. O marido arranjado pela sua família era um tirano, machista, que a maltratava fisicamente. Contar para a mãe pouco adiantava. "É seu dever como esposa atender a todos os desejos de seu marido. Se esta é a vontade dele, você tem que fazê-la."-ela dizia-lhe.
 - Haruhi!- a voz daquele homem ecoou pelos corredores- Onde está você?
 Lágrimas escorregavam pelos olhos da moça. Com uma mão apoiada no chão ensolarado, se levantou e andou com a força que mal tinha em direção ao quarto do marido. Conforme a moça se aproximava, o cheiro fétido tomava conta de seu olfato e dava-lhe náuseas. Ela abriu a porta de correr com um movimento lento.
 - Ei, Haruhi!- a voz de porco dele ecoou pelo quarto cheio de sobras de comida e sacos de lixo- Quem é o homem que você mais ama em todo esse mundo?
 - É-É você, Shinzo-sama, meu lorde para todo o sempre...- ela respondeu em tom baixo, com tremor na voz.
 Ele se levantou devagar, com o corpanzil balançando devagar. Ele cerrou o punho e socou a face dela com força. A mulher caiu no chão, chorando devagar. Ele berrou:
 - ME RESPONDA DIREITO, SUA ESPOSA DE MERDA! VOCÊ NÃO PODE TER DÚVIDAS QUANTO A ISSO! VOU PERGUNTAR DE NOVO: QUEM É O HOMEM QUE VOCÊ MAIS AMA EM TODO ESSE MUNDO?
 -  É você, Shinzo-sama, meu lorde para todo o sempre!- ela berrou, com uma falsa confiança na voz
 Ele olhou para aquela mulher caída no chão, sorrindo de modo sombrio.
 - Assim está melhor.- Shinzo grunhiu- Agora trate de se levantar e vai pegar o saquê para mim... ANDA, SUA MISERÁVEL!
 "Miserável... É isso mesmo o que eu sou..."-ela resmungou para dentro de si- "Sou só uma mulher miserável..."
 Ela se levantou e saiu arrastando os pés, fechando a porta de correr. Haruhi caminhou até à cozinha e desabou ao pisar lá dentro. As lágrimas rolavam como um mar. Então, uma mão fria tocou seu ombro. Ela olhara para trás e viu uma criança, que lhe era familiar, mas ela não lembrava de onde. A criança saiu com pressa do cômodo e Haruhi a seguiu, pensando no que aconteceria se Shinzo visse aquela criança ali. Então, de modo súbito, a garota entrara no quarto onde havia um memorial ao pai de Shinzo, que morrera anos atrás, na Segunda Guerra Mundial. A garota parou do lado do memorial, onde, na parede, descansava uma bela katana. No cabo dela estava o desenho de uma cerejeira rosada, como às que ela vira pela janela. A criança pegou a katana e a estendeu para Haruhi, que a segurou com um sorriso.
 -HARUHI!- berrou a voz de Shinzo à porta. - O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, HEIN?
  Ele avançou para dentro do quarto com a própria katana em punho, retirada da bainha presa à cintura.  Ela se desesperou. A criança sumira dali. O homem que era sue marido entrava pelo o quarto, correndo como se fosse a atacar. Ela se levantou e, em um movimento instintivo, ela empunhou a katana e passou a lâmina pelo pescoço do homem que ela tanto odiava.
  A cabeça agora pendia-lhe do pescoço, com uma expressão furiosa. O corpo desabou e, incrédula, Haruhi olhou para a lâmina da espada. Encharcada de sangue, as palavras gravadas ali se revelaram: " A Cerejeira Sangrenta".
  A garota voltara a aparecer na sua frente, com um molho de chaves. Haruhi abriu as algemas, sentindo os pulsos leves pela primeira vez em tanto tempo.
  -Muito obrigado...- ela agradeceu à garotinha, que desapareceu de vez. A personificação do seu medo.
  Largando a katana no chão, ela saiu correndo daquele lugar que ela fora escrava durante tanto tempo. As cerejeiras soltavam as pétalas como se a corrida de Haruhi em direção ao portão da frente fosse um grande desfile. E era. Afinal, ela era uma flor livre, que desabrochava de vez naquela primavera.

NOTA: -sama: é um pronome de tratamento tipicamente japonês, para designar alta excelência, marcar a soberania de alguém.
Felipe Cesario
Enviado por Felipe Cesario em 27/03/2012
Reeditado em 27/03/2012
Código do texto: T3578858
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Sobre o autor
Felipe Cesario
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 26 anos
35 textos (1822 leituras)
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Felipe Cesario