_Espionagem

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De repente deu vontade de escrever. Sem computador à mão, fui à cata de qualquer folha em branco. Lembrei-me de uma antiga pasta onde meu pai guardava diversas folhas de papel ofício com soluções de problemas matemáticos, algumas apostilas – ele odiava computador!

Na casa dos meus pais, professores aposentados, não conseguia encontrar única folha virgem para deflorar meu desejo instintivo de procriar palavras que se multiplicariam ao se somarem individualmente.

Encontrei uma revista. Muitas propagandas de produtos de beleza... A casa dos meus pais se modificara. Os livros, antes fartos, estavam esquecidos, guardados numa estante improvisada recentemente na garagem. Abri uma das prateleiras e a brisa deu mostras do descaso, trazendo ao crivo das minhas alérgicas narinas, o incômodo do mofo, do ácaro e do desdém.

Formigas eram as guardiãs dos exemplares mais expostos. Não sei se os comiam – sou péssimo em Biologia –, mas certamente havia alguma relação entre eles. Algo talvez simbiótico[1] unisse livros e insetos, num quase perfeito escambo[2] entre o vivo e o não vivo. Em mentes férteis haveria espaço para a criação de fantásticos mundos, onde mordidas formigais fariam crescer dentes; os dentes serviriam como alergênico; e a evolução das formigas as tornaria leitoras com acuidade visual limitada, ensejando o uso de óculos...

Uma aranha parecia limitar-me o caminho. Hesitei. Fechei a porta de alumínio da estante-livraria. Temendo ser atacado por formigas, pus-me a procurar alguma folha dentro de outra porta – não precisava ser novinha, não. Serviria qualquer celuloide onde o poder do atrito me permitisse o defloramento da enxurrada de desejos que exorbitavam dentro de mim, implorando a socialização universal do verbo, da palavra escrita.

Estava meio atordoado. Era a casa dos meus pais, sim. A casa onde nasci e cresci. Agora, entretanto, eu era visitante ilustre, recém-chegado de viagem e precisava redigir, enquanto todos dormiam.

Retornei à sala. Novas incursões – o clima estava tenso dentro de mim. Nenhuma folha de papel. Optei pelo sistema moderno de autoajuda. Revirei páginas de alguns livros trazidos durante as últimas viagens. Batia o desespero. Precisava achar o que fosse para escrever... Achei! Dentro de um dos volumes tinha uma folha com anotações sobre Direito das Coisas.

Organizei-me. Dividi a folha para aproveitar espaços e despejei os impulsos da fertilidade. O que nasceria?

Desviei-me da intenção inicial. Não queria me deter na ausência de desnudos papéis que guardam impressões coloridas da vida e da realidade concreta ou fantasiosa de seus criadores. Buscava, na singeleza de um filho que cresceu e precisou voar com as próprias asas, lamentar o ar sombrio e melancólico que tomou conta da casa dos meus pais...

Quanta saudade dos livros que enfeitavam as estantes – os reclamos da minha mãe, sempre zelosa, serviam de tempero para leituras escondidas das inúmeras enciclopédias. Quantas descobertas! Quantos desbravamentos... Sopro de vida e de liberdade, transitando no inesgotável imaginário humano.

O espaço finda. A folha quer recalcitrar. Num frívolo[3] diálogo, ela me olha. Tenho os olhos fundos, vermelhos e cansados. Eis a pergunta que me faz:

– Havia tanta luxúria[4] em você antes de me encontrar. Agora que me teve e me usou, muito mal usada, eu me sinto largada antes do ápice...

Envergonhado, amasso a lâmina de papel, jogo-a ao lixo, e resolvo dormir. Arrependo-me. Volto-me para a folha jogada ao chão. Apanho-a. desamasso-a, carinhosamente (primeiro – e único – ato de ternura) e regurgito cada palavra escrita, vomitada; um desrespeito ao papel e à Física!

A solidão me fez esbulhar[5] um monstro ou a anomalia que sou. Exponho-me a críticas e a gargalhas de pouco-caso. Fui descoberto: ao exteriorizar meu embaraço[6], revelei meu lado sórdido[7] – vergonhosa face de mim. Meu estado de timidez, que me torna calado, contemplativo e pleno, é mero sonho. Preciso acordar antes que o monstro descubra a força que tem fora de mim.

Fortaleza-CE, 25 de abril de 2008.

03h45min

[1] Em comum, camarada, íntimo.

[2] Troca

[3] Inconstante, leviano volúvel.

[4] Lascívia, sensualidade, desejo.

[5] Espoliar, despojar, tirar (a alguém) a posse de.

[6] Dificuldade, perturbação de espírito.

[7] Sombrio, imundo, porco; repugnante, asqueroso.

Nijair Araújo Pinto
Enviado por Nijair Araújo Pinto em 17/03/2012
Código do texto: T3560381
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