MISSÃO DA MADRUGADA

NA REGIÃO AMAZÔNICA QUEM

TRABALHA NA EXPLORAÇÃO DE

MADEIRA NATIVA ATUAM NA

ILEGALIDADE VIVENDO COMO

A MARGEM DA LEI

Os dois, um vestindo calça jeans e outro com boné, conversavam encostados na parede enquanto o sol caía e uma sombra se esticava pelo pátio de encontro ao muro alto. Dos coletes negros as insígnias reluzentes sobre saiam de forma intensa. De um veículo próximo um voz metálica e insistente, em meio a estalidos e chiados, informava qualquer coisa sobre a calmaria da movimentação da cidade naquele dia, dizendo que estavam retornando à base para a troca de turno.

- E mermão, tô que é só o bagaço ! A pega foi pesada essa semana ! - Disse o de calça jeans.

- Eu tô afim é que termine logo esse plantão pra sair fora. - Arrazoou o de boné com uma voz enfadada, acrescentando : - Belém me espera ! –

O da calça jeans dá uma coçada no saco e anuncia - Sei não ! Parece que o homi tem uma missão para nós essa noite. –

O do boné solta um palavrão, descansa no outro pé e indaga – Será que vai rolar um troco ? –

- Só vai. É uma parada de madeira. O informante cantou que ta saindo uma carrada. –

- É... Então vale a pena ficar mais um dia nesta cidade miserável.

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O caminhão, tal qual monstro assombroso, estacionado no ramal que dá acesso para a rodovia parece espiar na espera do momento adequado para seguir em frente. Da parte traseira se erguia uma enorme massa formada por diversos cilindros maciços sobrepostos se destacando como uma corcunda alongada com o carregamento de árvores cortadas da floresta amazônica. A visão do conjunto parecia mais tenebrosa ainda coberto pelo manto da noite.

Na boléia do bruto o vulto de um homem e o brilho da brasa do cigarro, que vez ou outra se acendia como uma pequena tocha enquanto o pensamento rodopiava na cabeça.

- Merda de vida ! Até que hora eu vou ter que ficar aqui atocaiado. – E seu pensamento lhe leva ao passado, quando a floresta ainda estava toda em pé e não havia perseguição e ele podia trabalhar tranqüilo.

- Nesta semana o patrão teve que morrer em dez pau. – refletiu ele voltando à realidade. - Se continuar assim ele vai se quebrar e eu perco o emprego. – Matutou o motora olhando as horas no visor do celular. – Puxa ! Uma hora da madruga ! – Exclamou no seu intimo quando o som do telefone quebrou o silêncio.

-Alô !

- . . .

- E aí ? Já posso continuar a viagem?

- . . .

- Tô saindo. – Desligou o telefone, deu partida no caminhão, esperou um pouco para carregar o tambor de ar para os freios, engrenou a primeira e a máquina resfolegou como que estivesse cansada. Rodou alguns minutos e subiu na pista pavimentada.

- O patrão garantiu que a pista tá limpa. Se der tudo certo eu chego às seis horas e jogo a carga no pátio da serraria. – falou consigo mesmo. Acelerou, engatou a segunda, terceira, quarta fazendo o caminhão deslizar macio.

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O da calça jeans conduzia o veículo, uma caminhonete, e o do boné ia no lado do carona, e as insígnias reluziam no colete com o reflexo dos faróis das conduções que passavam, e a picape rodava de vagar pela rodovia pavimentada enquanto o som da voz metálica avisava – Alô central... Scresxxs...Tchuimmm... Tumulto na Avenida Central ... Tchuimmm... Scresxxs... precisamos de apoio para conter a confusão, cambio !!! –

- Ma rapá... Aonde que eu vô lá. – disse o de boné com ar de deboche.

- Presta atenção que o chefe disse que a vítima é um caminhão vermelho, e tá sem a autorização de transporte. – Avisou o da calça jeans.

- Hê jogadô essa hora extra vai rendê milzinho pá nois mermão ! – Exultou o de boné.

Walquer Carneiro
Enviado por Walquer Carneiro em 30/05/2011
Reeditado em 21/07/2016
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