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Contos das Estações: A Valentia do Outono ( 1 )

Eram só eles dois, naquela varanda vazia, durante uma festa. Ao fundo, tocava uma leve valsa. Ela, de vestido simples, branco, com o cabelo caindo sobre os ombros despidos. E ele, de blusa preta, calça e um sapato social, simples. Os dois estavam corados. Não sabiam se era por causa da neve que caía levemente com o fim do Outono e a chegada do Inverno ou por causa da situação em si. Os dois eram amigos de infância e se gostavam, em segredo.
  -Sabe...-ela disse- Está meio frio aqui fora, não? Por que a gente...
  - Espere! -ele exclamou, com timidez na voz- Você não... Você não...
  -Você não...- ela repetiu
  - Não gostaria de dançar? Como fazíamos, antigamente?- ele perguntou
  - C-Claro... Por que não?- ela sussurrou, envergonhada
  Ele se aproximou lentamente, com as bochechas mais coradas do que nunca. Estendeu a mão, tremendo. Ela a pegou, devagar e os dois fecharam a mão, suavemente. Dançaram a valsa, sem muito contato visual. Com o fim da valsa, os dois se separaram, no mesmo ritmo lento.
Foi então que uma lágrima desceu o rosto dela. Um pequeno brilho foi emitido pela lágrima.
  - O que foi?- ele perguntou, doce- Eu te machuquei?
  - Não...- ela respondeu- É que... Droga... Eu tenho algo para te falar...
  - Então, fale.- ele sorriu levemente
  - Eu vou ter que ir embora dessa cidade...- ela continuou a dizer, com a voz embargada pelo choro- Minha família vai se mudar amanhã, para uma cidade um pouco longe daqui. E talvez, eu nunca mais te veja...
  O mundo pareceu cair para ele. A realidade pareceu parar, por um instante, enquanto ela dizia o nome da cidade.
  - Como assim nunca mais se ver?-ele falou, com a voz alterada
  - Eu vou ter que casar com alguém que eu nunca vi na minha vida, assim que eu chegar lá.- ela chorou mais alto- Você acha que está sendo fácil para mim? Eu vou ter que casar com o filho do prefeito, por causa de negócios da minha família e...
  E mais uma vez aquele choque percorreu o corpo dele. A visão ficou em preto e branco e ele desmaiou. Só deu para ouvir a garota chamar pelo seu nome fracamente, antes de perder completamente a consciência.
   

  Ele acorda. E quando vê, está na cama de um hospital, deitado. Ele levanta, fraco. Pouco depois, uma enfermeira passa e só uma coisa vem em sua cabeça:
  - Você sabe onde está a garota que me acompanhava?
  - Ah... - a enfermeira disse, com um tom despreocupado- Ela disse algo sobre te pedir desculpas por ela não ter ficado aqui, mas se você acordasse antes das onze, para ir até a casa dela... Pena que são três horas da tarde...
  - Sabe se essa cidade aqui é muito longe- disse, escrevendo o nome da cidade em um papel
  - Não é longe... Praticamente quatro horas de carro...- a enfermeira respondeu
  Ele se levantou e, correndo, fugiu do hospital. Pegou o carro novo na garagem de casa e foi para a outra cidade. Enquanto os pneus rodavam nas curvas da estrada e se aproximava de onde ela estava, a cabeça do garoto funcionava numa velocidade muito superior do que a normal, ao ponto de a viagem passar de maneira rápida. Não demorou muito a localizar a igreja onde aconteceria o casamento, afinal, o noivo era bastante conhecido.
   Ao chegar na igreja, não dera sorte. Ela já estava se dirigindo ao altar, acompanhada do pai e a porta estava se fechando. Então, como se fosse do nada, uma súbita força o tomou e suas pernas se moveram em uma velocidade fora do comum. Os braços escancararam as portas, quase derrubando os coroinhas no chão.
   - PARA!- seu corpo berrou.
   A atenção se voltou para ele. O louco que invadiu a igreja no meio do casamento do filho do prefeito. O rosto dela virou, coberto por um véu. Ele notou então aquele mesmo brilho que vira na varanda da festa.
   - Você enlouqueceu, moleque?- o pai dela berrou- Está estragando o dia mais feliz da vida da minha filha!
   - Cala a boca!- ele berrou- Eu quero dizer algo realmente importante!
   Ela se virou e levantou o véu. O rosto da noiva estava coberto de lágrimas. Antes que ela pudesse se mexer, ele respirou fundo e, com todas as suas energias, ele disse as palavras que ela sempre esperara ouvir:
   - Eu te amo...
   As pessoas na igreja riram da cara do rapaz. Foi quando a noiva caminhou lentamente e, como se o mundo tivesse parado outra vez, se beijaram, de leve. As gargalhadas cessaram.  Ela segurou-lhe a mão e correram, desafiando todos os obstáculos. Assim como as folhas desafiam a gravidade no Outono.
Felipe Cesario
Enviado por Felipe Cesario em 11/05/2011
Código do texto: T2963832
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Sobre o autor
Felipe Cesario
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 25 anos
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Felipe Cesario