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O MONJOLO


Depois de tantos anos me vejo novamente andando naquele quintal. A princípio mecanicamente como se esperasse que as emoções se aflorassem. Depois com uma urgência gritada pelas lembranças. Fora tanta a ansiedade para rever este lugar. Agora parece que meu coração pulsa na velocidade do tempo que se passou. Há em tudo uma camada de tempo. Cinzenta. Opaca. Mas a memória é mais desmedida do que essas mudanças e me faz lembrar do tempo que percorria esse mundo perdido de beleza que não se descreve.

Neste velho quintal a sombra do tempo é mais forte que a sombra das árvores frutíferas e percebo que, assim como elas, eu também passo pelo tempo nessas voltas que não se evitam. Já veio outra geração depois da minha e reconheço que o passado já não se refaz em uma simples volta por antigos lugares. Mas finjo ainda reviver cada passagem que me fez correr neste quintal sem fronteiras naqueles dias de domingo que sempre ia à chácara de meu tio.

Era bem perto da cidade. Íamos sempre de charrete, quando ele vinha trazer o leite para vender todas as manhãs. Passava os domingos lá, andando neste quintal, fazendo brincadeiras debaixo daquelas árvores. Jabuticabeiras, mangueiras, laranjeiras... Todas as espécies de árvores frutíferas tinham lá. Perdíamos debaixo de suas sombras durante todo o dia, numa tarefa interminável de descobrir formas de brincar, já que aquele universo nos oferecia tantas oportunidades. Desde subir em árvores para colher frutos, quanto brincar de balanço em seus galhos.

Galinhas d’Angola, perus, faziam sua algazarra, enquanto corríamos naquele quintal sem fronteiras. Gostava de ver os patos nadando naquele rego de águas límpidas. Parecia mais um córrego tão largo que era e fazia uma curva sinuosa logo depois da ameixeira e ia direto para a bica de madeira que jogava água no monjolo.

Hoje as jabuticabeiras que ainda sobram com seus velhos galhos quase desnudos ainda são maioria naquele quintal. As laranjeiras já com seus caules negros mesclados de ferrugem vergam poucas frutas em contraste com o tempo de outrora. O rego de águas já não é tão largo, mas por ele ainda correm águas cristalinas e deságuam na bica de madeira que antes alimentava o monjolo.
 
Lembro-me vagamente do monjolo no lugar onde hoje crescem alguns pés de cacau. O monjolo era uma espécie de pilão usado para quebrar grãos de arroz, café ou milho. Só que esse pilão usava para essa tarefa a força da água que caía da bica. A água do rego ao cair da bica, enchia outra bica que mais parecia uma gangorra que se desequilibrava pelo peso da água e se inclinava levantando-se para o alto. Ao se inclinar, a água escorria e a gangorra descia com força e em alta velocidade e batia no pilão com uma madeira fixada na ponta. Essa madeira (a mão de pilão) tinha a tarefa de quebrar os grãos.

Esta tarefa incessante de desequilíbrio se repetia dia e noite, dependendo da necessidade, e transformava o milho em fubá ou canjica e tirava as cascas do arroz ou café. Um gemido lamentoso que mais parecia de dor acompanhava todo esse ritual rústico. A tecnologia ainda não havia chegado à chácara de meu tio, embora já houvesse meios bem modernos de fazer todo esse trabalho. De certa forma essa era a tecnologia a qual se permitiam. Acomodação... Quem sabe... Ou laços presos a um tempo que faziam parte de suas vidas e os quais não queriam romper.

Naquele tempo, ficávamos horas na casa do monjolo tomando banho na bica, aproveitando a água que caía dela como se estivéssemos numa cachoeira. Misturávamos com os patos que batiam suas asas, aproveitando toda aquela folia de brincadeiras. Águas voavam para o alto misturadas aos gritos de alegria e se misturavam à cantiga sofrida do monjolo que trabalhava enquanto divertíamos.

Gosto desse lembrar saudoso de coisas rústicas, cenas que se identificavam com as pessoas simples que viviam de forma simples. Pessoas que eram felizes com pequenas coisas cotidianas como alimentar as aves no terreiro, socar os grãos no pilão e ainda brincar debaixo da bica d’água e correr pelo quintal colhendo frutas. Esses são pedaços de um tempo difícil, mas romântico, onde a tecnologia ainda não tinha vez. Na mente de uma criança ou adolescente tinha apenas o sabor de aventuras. Na mente dos adultos era a vida que conheciam e que aprenderam a lidar sem questionar, como se tudo fizesse parte necessária do viver.

Penso que a vida hoje é como um monjolo. Vive sempre desequilibrada. De um lado se enche pela força dos problemas que somos convidados a enfrentar. De outro, pela força desses problemas se inclina, e ao cair com força, transforma a vida em fragmentos, tal quais os grãos que são socados na interminável tarefa do monjolo. Como acompanhamento, uma cantiga sofrida e sem fim de uma vida que sobe e desce tal qual o monjolo.




Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 11/12/2009
Código do texto: T1972353
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
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2 e-livros (150 leituras)
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Sonia de Fátima Machado Silva

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