As aventuras de Tonico - Uma misteriosa doença...

     Do BB, Tonico foi para o BASA e foi trabalhar na Direção Geral do banco, em Belém do Pará, mas a sua dependência química tinha piorado tanto que para escapar de algumas perigosas encrencas precisava inventar artimanhas bem mais criativas do que aquelas que promovia nos seus tempos de menino...
     Numa noite, movido pela compulsão alcoólica, fui beber nas boates do bairro boêmio da Condor sem um tostão no bolso, mas com um talonário de cheques. E era aí que morava o perigo!... Passei por três ou quatro boates e fui para casa, de madrugada, completamente embriagado.
     Lá em Belém, eu estava morando numa casa do bairro da Cremação, com uma mulher chamada Lourdinha. Numa ressaca medonha, perdi o expediente no banco e só fui acordar lá pelas duas horas da tarde. Lourdinha me informou, nervosa, que vários homens, altos, fortes e de caras fechadas, tinham batido à porta da casa, perguntando por mim e ela dissera que eu não estava. Eles estavam muito furiosos, exibindo vários cheques carimbados como sem fundos pelo banco. Depressa, fui conferir o meu talonário e verifiquei que estavam faltando nada menos que treze cheques!
     Ora, um banco federal não perdoa a emissão de cheque sem fundos por funcionário, punindo-o quase sempre com a demissão por justa causa. E eu tinha passado treze cheques sem fundos! Não tinha nenhum tostão na conta bancária nem no bolso, e não encontraria ninguém em Belém que me emprestasse um só centavo! Como voltar para o banco e enfrentar aquela situação?
     Por outro lado, aqueles caras das boates cobravam dívidas de uma maneira muito violenta! Eu poderia ser morto ou, no mínimo, ser arrebentado de porrada! Trêmulo, acovardado, saí de casa e fiquei andando a esmo pelas ruas e cheguei à Praça Batista Campos. Sentei-me num banco e fiquei entregue aos meus penosos e aflitivos pensamentos. De repente,  olhei para o outro lado da praça e vi escrito: Hospital Batista Campos. Quem me sugeriu aquele pensamento: meu diabinho particular ou o anjo da guarda dos bêbados? Pois, rápido, passou-me pela cabeça uma idéia: ali atendiam pacientes do INSS e se eu conseguisse me internar estaria a salvo dos leões-de-chácara que andavam me procurando e para boa coisa não era!
     Tinha que me internar lá! Não tinha para onde ir e havia gente querendo tirar a minha maldita pele! Entrei numa bodega, comprei uma gilete, dei um talho na ponta do indicador esquerdo, suguei o sangue várias vezes, deixei-o na boca e entrei com ar aflito no hospital. Falei para a enfermeira, na recepção:
     - Estou muito mal, enfermeira. Uma dor horrível no abdômen. Veja, estou vomitando sangue!
     E dei uma cusparada de sangue no chão. A enfermeira me encarou preocupada, e foi chamar um médico. Ele veio e escutou a minha queixa. Olhou o sangue no chão, franziu o cenho e decidiu:
     - Vamos interná-lo imediatamente e submetê-lo a exames de Raios X e laboratoriais. Isso parece ser grave!
     Levaram-me para uma enfermaria onde estavam mais dois rapazes, deram-me uma roupa de interno e uma cama. Ufa! Graças a Deus! Estava a salvo por aquele dia! Tinha onde dormir, comida, e ali, naquele hospital, os leões de chácara das boates da Condor não poderiam me moer de pancada por causa dos cheques sem fundos!...
     No outro dia, para continuar assim protegido, iniciei uma sequência de atos ridículos e indecorosos que, até hoje, 35 anos depois, me fazem corar de vergonha! Mas, apesar disso, não deixam de ser hilários...
     Havia uma escarradeira embaixo da minha cama e eu continuei a encenação: ia ao banheiro, dava novo talho no dedo, sugava o sangue, amarrava uma tirinha de pano no dedo, colocava-o às minhas costas, voltava, tossia e cuspia o sangue na escarradeira, para preocupação e medo dos companheiros de quarto, que me supunham acometido de tuberculose...
     Logo que fui internado no hospital, eu mandei a Lourdinha avisar o BASA do ocorrido. O escândalo dos treze cheques sem fundo num só dia já era do conhecimento de todos, mas, de qualquer maneira, eu estava oficialmente doente e hospitalizado, e o banco não poderia, por enquanto, tomar nenhuma medida administrativa contra mim.
     Bateram a chapa do pulmão. Nada, limpinho que era uma beleza! E eu continuando a cuspir sangue na escarradeira... Suspeitaram, então, de úlcera hemorrágica, tiraram Raios X do abdômen, endoscopia, e nada! Os médicos coçavam a cabeça, faziam reuniões, vinham conversar comigo, prescreviam-me anti-hemorrágicos e nada: eu continuava a cuspir sangue! E a internação hospitalar se prolongava sem previsão de alta. Exatamente o que eu precisava... Mandei chamar a Assistente Social do banco. Ela veio logo, era uma moça sensível, muito educada, gente fina. Fez-me várias perguntas sobre a minha situação pessoal:
     - Qual é o seu problema de saúde?
     - Ninguém sabe, tusso e escarro sangue várias vezes por dia, mas o exame de tuberculose, úlcera e outros deram negativos. Não identificaram ainda a minha doença.
     - Você tem parentes aqui em Belém?
     - Não, não tenho ninguém. Moro só, num quarto de pensão.
     - O que posso fazer por você?
     - Gostaria que me conseguisse uma transferência para São Luís. É lá que mora a minha família. Se continuar aqui em Belém, assim doente e abandonado, vou acabar morrendo!
     - Está bem, vou ver se isso é possível.
     Dois dias depois, ela me telefonou:
     - Antonio, sinto muito, para São Luís não tem vaga. Mas há uma vaga para Fortaleza. Quer ir para lá?
     - Topo. Fortaleza está pertinho de São Luís.
     - Então, está bem. Amanhã eu pego a portaria da tua transferência, o dinheiro da passagem aérea, e te levo no hospital.
     No outro dia, realmente, a moça me trouxe os papéis da transferência e o dinheiro para a passagem de avião. Aliviado, dormi tranquilo nessa noite.
     De repente, “fiquei bom”: não cuspi mais sangue. Os médicos comemoraram, passaram mais um dia me observando e, finalmente, deram-me alta. Saí direto do hospital para o aeroporto e de lá para Fortaleza. Não poderia facilitar com os leões-de-chácara das boates...


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Nota do autor:
O alcoolismo é doença. Se você tem problemas com o uso abusivo ou descontrolado de bebidas alcoólicas, busque ajuda junto ao A.A.(Alcoólicos Anônimos)
Tel: (11)3315-9333/ e-mail:aa@alcoolicosanonimos.org.br





Santiago Cabral
Enviado por Santiago Cabral em 14/09/2009
Reeditado em 22/03/2011
Código do texto: T1809824
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