Desenlace

Debrucei-me no peitoril da janela, uma janela que me permitia vislumbrar um vasto panorama, desde as montanhas, azulando no horizonte, até a larga avenida por onde, naquele momento, começavam a passar carros, motos, bicicletas. Embora tivesse olhos para ver, o meu olhar estava voltado para dentro, tentando recapitular os últimos acontecimentos.

Naquela madrugada, quando despertei, percorri o apartamento. Porta aberta no quarto que César ocupava, desde que nossa relação entrara em crise: as cobertas intocadas não sinalizavam presença alguma. Era a primeira vez que não dormia em casa, ou, pelo menos, que não havia avisado que ficaria fora.

Acomodei-me no sofá, perscrutando o que estava acontecendo. Não brigamos, não discutimos, mas o relacionamento começou a esfriar, a meu ver, quando nossa filha resolveu alugar um pequeno apartamento, perto do trabalho. O espaço físico que dividíamos pareceu enorme. Diante do clima de indiferença que se havia instalado, cada um entregue a seu próprio mundo, sugeri a nossa separação.

César reagiu indignado, como se não tivesse ainda percebido que a nossa relação tinha degringolado. Reclamou da minha falta de companheirismo, justamente em um momento em que estava prestes a assumir uma das diretorias da empresa. Não sentiria graça nenhuma em frequentar o próximo jantar festivo sozinho. Terminei cedendo, acreditando mesmo que o meu gesto de boa vontade poderia dar um novo impulso ao nosso relacionamento. Preparei-me para brilhar na próxima festa.

Não senti o retorno que eu esperava. Aos poucos, a vontade de sair me beliscava, vontade de voltar à terra dos meus bisavós, a Paris onde eu tinha vivido um ano enriquecedor aos meus vinte anos. Lá eu havia estudado, aperfeiçoado o meu francês, penetrado tanto quanto possível em outra cultura. E, com a ajuda de parentes mais afastados, pude conviver com um novo mundo que se abria para mim. Não fiz um convite a César, que estava ocupado com a sua empresa, mas não deixei de lhe falar que estava sonhando com uma viagem a Paris, por curta que fosse.

Virou as costas sem me responder, deixou a sala e foi cuidar das suas coisas. Aliás, nos dias que se seguiram, falou apenas o essencial. O clima piorava a cada momento, a frieza parecia gelar nossos corpos, até chegar à alma. Eu andava agoniada, não sabia o que pensar. Uma relação que fora tão satisfatória virava agora algo penoso. Eu queria apenas acordar daquele pesadelo.

Naquela manhã, pelas nove horas, tomei um banho demorado, para relaxar. Quando saí do banheiro, deparei com a empregada.

-- Dona Nice, o seu César veio pegar a mala. Pediu que não chamasse a senhora. Depois se comunica. 

Dirigi-me rapidamente à janela do seu quarto, abri-a e ainda tentei vê-lo lá embaixo. Mas não, já devia estar longe. A avenida regurgitava de gente, de veículos dos mais diferentes tipos. Tanto movimento, mas nada que me atraísse o olhar.

"Dei as costas à janela. Na mesinha de cabeceira vi o passaporte, a passagem, os cartões. O maço de euros presos com um clipe. Guardei tudo na bolsa pensando que não envergonhara César. Ficaria na Europa o tempo que quisesse, podia me divertir. Estava livre. Mesmo que a liberdade fosse um enorme vazio onde não havia nada para mim. A angústia aumentou quando pensei no avião que me levaria para longe do passado recente. Aquilo era uma vitória, obriguei-me a

lembrar".

 Observação: O site Carreira Literária, em seu curso "Conto - a escrita do nocaute", propôs a elaboração de um conto cujo último parágrafo fosse o que está acima, entre aspas.