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O Estelar

À noitinha, à saída do curso o viu pela primeira vez na sacada do apartamento. Bonito, de uma palidez diferente, mas elegante, ar de gente que não se afeta pelas miudezas da vida. Durante algumas noites o observara, já meio apaixonada pelo mistério da sua indiferença ao mundo e apego ao universo distante. Perguntara sobre ele, descobrira o pouco que sabiam ao seu respeito, novo na cidade, observava as estrelas. Um dia com um pretexto qualquer tentou em vão visitá-lo, não atendia ninguém pela manhã, mas era óbvio, se ficava acordado a noite inteira. A cada dia, ou noite ficava mais apaixonada, lindo, romântico, pois quem vive a namorar as estrelas só pode ser muito romântico. Uma e outras noites o visitou. A primeira noite criou mil histórias com motivos para estar lá. Puro desperdício da imaginação. Ele só a convidou para a sacada, como se já lhe esperasse, ou como se sentisse digno de atrair desconhecidos. Astrônomo! Incrível conhecer um astrônomo assim, pessoalmente, só via esse tipo de profissional pela TV. Mas achava que viviam viajando pelo universo ou em laboratórios sofisticados. Não seja ridícula, não vivo em um filme de ficção cientifica. Não ousou mais falar sem ser solicitada. Bastava poder observá-lo ali fascinada, tal qual ele observava as estrelas, e com o tempo e a intimidade servir de ponte entre ele e o mundo de seres inferiores. Porque ele não se interessava em sair à rua. Chegava à noite empolgada, largava o curso para ter mais tempo com ele e contava suas histórias, como foi seu dia, as insignificantes diversões com os amigos. Falava principalmente dos amigos homens na esperança de causar algum ciúme. Ele ouvia indiferente. Você fala de mim pra eles? Nunca fale de mim. Detesto que saibam de mim. Só se importava com seu próprio mistério. Ela permanecia no escuro. Sabia que era uma das poucas coisas que merecia sua atenção, mas queria ser a única. Morria de ciúmes das estrelas e ele nem sequer olhava para baixo se ela passava com um amigo mais interessante na rua. Você tem sentimentos? Sentimentos não sobre os céus ou sobre você mesmo? Sobre outras pessoas, tem? Queria provocá-lo, fazê- lo gritar, mandá-la embora para sempre, que fosse, ao menos estaria livre, voltaria a admirá-lo de longe como antes. Sentia-se presa e não poderia ir embora só por vontade própria. Você é tão ridícula. O que quer que eu sinta? Desprezo pela sua arrogância de tentar me acordar, me dar dor de cabeça com suas histórias infantis? Só não a mandei embora pela sua beleza que ainda desejo. É uma das poucas coisas que gosto nas pessoas. Ele volta indiferente o olhar para o céu. Hoje acontece um fenômeno lindo. Eu sei, a passagem de um meteoro, ouvi algo a respeito. Mas ele não lhe dava ouvidos. Essa região é a melhor para observar, por isso vim pra cá. As pessoas temem um choque com a Terra, acho engraçado porque não sabemos mesmo nosso lugar no universo, se estamos em pé, ou para baixo, como saber a parte de cima do universo, gosto de pensar nessas coisas. Falava fixando seus olhos distantes, como se ele estivera sempre em outros mundos. Olhe para mim, por favor, ao menos uma vez. A ciência não é para mim, prefiro o lado sonhador das estrelas, vou acabar escrevendo um livro sobre você e suas estrelas e meteoros colocando um pouco de ficção. Agora ele olhou. Não fale, nem escreva sobre mim, achei que já tinha entendido isso. Você prefere um texto cientifico? Você observa tanto, deve ter alguma coisa digna de nota. Preciso trabalhar. Quero que me deixe sozinho. Acho que consegui o que queria. Os olhos cheios de lágrimas. Os meus ou os dele? Ou será que está chovendo lá fora? Viro as costas e ele me chama, mas eu sei pra quê. Por favor, não volte amanhã.

Mas pela manhã ele não está mais lá, só a parafernália usada nas observações, deixada para trás. Talvez os sonhos e as estrelas sejam para serem vistos só de longe.

http://www.historiaspossiveis.com/
D C S
Enviado por D C S em 09/10/2013
Código do texto: T4518607
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
D C S
Nazaré da Mata - Pernambuco - Brasil, 33 anos
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