O GLUTÃO

O GLUTÃO

O se humano é dotado de um instinto único, que faz a diferença entre o racional e o irracional, que é a curiosidade de querer saber o motivo dos acontecimentos. Esse é o caso, mas não vou me aprofundar nos meandros da mente humana. Os fatos falam por si.

Jair é uma pessoa bondosa, caridosa, humilde e prestativa, que quer saber do bem ao próximo, porém, é humana e precisa dos cuidados e necessidades que todos nós queremos e procuramos. Infelizmente um de seus defeitos é a gula, nunca foi de comer pouco, tampouco de preocupar-se com o que comia e nem a hora. A gulodice era "comemorada" a toda hora e por qualquer motivo e suas necessidades eram cada vez maiores, seu estômago era um sofredor, porque precisava alargar-se sempre para receber mais e mais comida.

Certo dia, numa sábado ensolarado e pasmacento, nosso personagem estava em sua casa, deliciando-se com uma completíssima feijoada, quando de repente começou seu inferno na Terra. A cena era dantesca demais para ser aqui narrada aos detalhes, porém vou tentar. Acho que não conseguirei.

A cozinha, seu ambiente preferido, começou a fechar-se a seu redor, as cadeiras não mais ficaram disponíveis ao assento e começaram a mover-se desenfreadamente, as bocas do fogão acenderam-se e a torneira da pia abriu-se e não parava mais de cair água. Era um ataque da cozinha e seus acessórios contra seu dono. Aquilo tudo não ia acabar bem, tampouco era algo que Jair podia aceitar naturalmente. Literalmente seu mundo estava contra si e sua cabeça girava sem parar e parecia que ia explodir a qualquer momento.

Num raro momento de lucidez que a situação exigia, Jair refletiu rapidamente, passou a limpo sua vida inteira num flash e como num raio veio-lhe a mente de forma clara e consisa o que podia estar acontecendo. Os vários filmes que assistira, a larga experiência que tinha da vida, a presença de espírito e a companhia inseparável de seu chiuhaua anão de estimação, deram a derradeira luz que faltava. Isso não era um alívio, pelo contrário, seu horror aumentava diante da percepção aterradora que aquilo proporcionava. Sentia que sua existência iria terminar ali naquela cozinha, seu estupor paralisava-lhe totalmente, embora tivesse um incômodo adicional, que era seus 157 quilos para uma altura de um metro e sessenta e quatro centímentos.

Toda a situação transcorreu por um período pequeno, não mais de cinco minutos, tempo suficiente para Jair sentir sua respiração aumentar e finalmente parar, seus olhos saltaram-lhe às órbitas e seu pulso acelerar e finalmente parar, antes disso porém, seu inseparável amigo, o chiuhaua, fez xixi, cocô e vomitou em seus pés, certamente pressentindo o desfecho. Sua língua engrossou, enrolou e tornou a engrossar. Tinha certeza que sua vida ia esvair-se e não estava totalmente enganado quanto a isso. Por várias vezes assistira filmes, novelas e lera em revistas o modo como um ser desfalecia, isso só aumentava seu terror, sim pois tinha verdadeira paura da morte e certeza de seu momento.

Faz-se necessário que seja relatado o fato do prato, a feijoada, ser preparada com todas as partes do porco a que se tem direito, preferencialmente com bastante gordura e quantidade, pois não podemos esquecer que nosso amigo comia feito gente grande, aliás grandíssima. A feijoada é um prato bastante indigesto e extremamente gorduroso, até aí nada de novo, mas essa tinha que ter mais de tudo. Era assim que Jair gostava de apreciá-la.

Quando Jair encontrava-se nos estertores da agonia, teve um lampejo e tudo veio claramente em sua mente. Aquilo não estava acontecendo por um mero acaso, o acaso passava muito longe desse fato. A última porção de feijoada não estava fácil de mastigar, parecia que estava dura demais e com um sabor muito agridoce.

A compreensão de que havia se engasgado com um pedaço de osso do rabo de porco só fez com que seu desespero aumentasse e se debatesse mais freneticamente. No último segundo antes de sua vida se esvair, virou-se rapidamente e rolou-se pesadamente em cima de seu chihuaua. Agora tudo estava calmo, ambos mortos e o ambiente normal. Tudo estava normal, exceto os dois corpos inertes e a bagunça generalizada.

Na manhã seguinte o mau cheiro que emanava da casa de Jair era insuportável. Ele vivia somente com seu cão e todos sabiam disso, mas o fedor não deixou seus vizinhos insensíveis a ponto de dois de seus vizinhos mais chegados, baterem em sua porta e como não obtiveram resposta alguma, decidiram que iriam arrombar a porta principal. Assim o fizeram.

Ambos ficaram aterrados com o que viram. O chihuhua estava lambendo desenfreadamente a boca de seu dono. Jair estava caído, todo sujo, vomitado e havia defecado muito em si. Seus amigos aproximaram e constataram que Jair estava apenas em coma alcoólica.

Depois de o fazerem reanimar-se, soube-se que Jair tinha comido aproximadamente sete quilos de feijoada e dois litros de caipirinha. Jair não entendia o motivo de sentir tanto terror como havia sentido, até finalmente compreender que tudo não tinha passado de um pesadelo, além de tudo alcoólico.

Santo André, 05/06/2006

ANSELMO GOMES É ESCRITOR,POETA E PESQUISADOR, MARIDO DA ESCRITORA DIANA LIMA

PS. ESTE CONTO CONSTARÁ NA NOVA EDIÇÃO DO LIVRO RODA MUNDO 2006, ED. OTTONI

Diana Lima
Enviado por Diana Lima em 06/06/2006
Código do texto: T170427