A MENINA QUE NÃO COMBINAVA

Desde pequena Aninha gostava de inventar moda.

Tinha os cabelos bem encaracolados, e a mãe sempre tentava domá-los: molhava, passava muito creme e os prendia em tranças ou rabos de cavalo. A menina aprendeu cedo a se arrumar. Ao fazer os penteados, colocava laços. Um de cada lado, ou dois bem atrás da cabeça, mas não eram iguais. Se um era rosa, o outro era azul; se um vermelho, o outro, de qualquer outra cor. Ao ver aquilo, a mãe reclamava:

— Esses laços não combinam em nada!

Aninha não se importava. Amava ver os laços diferentes em cima da sua cabeça. Para ela, o diferente era mais bonito. Vestia blusa por cima do vestido, ou calça por baixo da saia, uma blusa de manga longa por baixo de outra de manga curta, uma listrada com outra de estampa variada. Para ela, tudo estava a contento. O que não combinava era mais atrativo, era genial.

Uma vez ela colocou sandálias com meias. Ao perguntar à mãe como estava, essa logo retrucou:

— Meias se usam com sapato ou tênis.

Entretanto, o diferente a deixava confortável. Por que usar tudo igual, se na natureza tudo tem suas diferenças?

É mesmo muito chato todos usarem sapatos iguais. Por que não um sapato de cada cor?

Se olhamos para o lado, todos se vestem como dita a moda. Mas e que tal se criar seu próprio estilo, sem ser preciso combinar em nada?

Aninha não era levada pelas ideias dos outros, pois tinha um gênio forte, criativo e seu jeito próprio de ser.

Quando ia brincar, bonecas apenas não lhe chamavam atenção. Gostava de bola, de empilhar peças, potes, mexer colherinha num copo, ou nas panelas do armário. Se estava no quintal, subia em árvore, imitava passarinhos; se estava dentro de casa, fazia da cama da mãe ou do sofá, um pula-pula, uma montanha para escalar, pular e descer rolando.

A menina também amava desenhar e pintar, mas as cores preferidas em nada combinavam. Pintava árvores de todas as cores, mesmo quando a mãe dizia que as árvores se pintam de verde e marrom; ou o céu de rosa, lilás, contrariando a mãe que ditava um céu azul néon.

A menina que não combinava as coisas tinha um olhar artístico e uma sensibilidade aflorada. Seus desenhos, pinturas e criações artísticas mudavam o olhar de quem via tudo igual, sem tirar nem pôr.

Sua forma de enxergar o mundo lhe abria possibilidade que demonstrava na habilidade de fazer esculturas com massinha de modelar, e, mais tarde, com massa artesanal de biscuit.

Aninha cresceu, mas ainda criança aparentava um espírito empreendedor. Fazia, com biscuit, cabecinhas de animais para lápis, caricaturas, bichinhos de jardim ou de presépios. Pintava e costurava com ajuda da avó tapetes de retalhos com desenhos feitos por ela. Tais desenhos viravam almofadas ou peso para segurar porta. Através dela, as frutas saíam da natureza para enfeitar panos de prato, lençóis e fronhas. Tudo se transformava em brincadeira, um trabalho rico inspirado pela Arte.

A menina que não combinava as coisas, de certa forma brincava com as cores e com o diferente. Desde cedo, mostrava o lado artístico empírico à infância, o que era estimulado e valorizado pelos adultos, tios e amigos que logo compravam suas criações para que ela usasse o dinheiro para adquirir materiais e continuar expressando pensamentos e sensações por meio da arte.

Aninha era uma menina que pensava diferente e sabia, na sua pureza, que não é preciso combinar o modo de ser ou de se vestir, de brincar ou de agir. Ela ensinou à mãe e aos familiares que não há como comparar as formas de se enxergar o mundo; e que, com arte, ludicidade e autenticidade, as diferenças nos completam e nos recriam; além disso, reinventam a realidade, trazem encantamento à vida, e nos levam a aprender uns com os outros.

Paulo Belmino