O medo é um estado de poesia - 6 - O galo Pedrez - 7 - A Princesa o Fogo e a C huva

O galo Pedrez

Então, fiz uma brincadeira que vovó sempre faz quando pedimos para ela contar mais um conto.

– Conta mais um conto vovó?

– Para quem?

– Para todos!

– E quem contou o conto?

– O povo!

– E o Galo Pedrez?

– Vai escutar outra vez!

– E a vovó ouviu!

– E contará outra vez pra nós seis!

Fazíamos essa brincadeira com muita alegria.

Os seis eram o Juca, Dodô, Môna, Vovó Tuta eu e o Vuvú, mas o Vuvú já não ficava muito entre nós; ele já estava muito velhinho e quase não escutava. “Vuvú” é o jeito carinhoso que sempre chamei meu Vovô Augusto.

A Princesa o Fogo e a C huva

Nós crianças somos incansáveis, queremos sempre ouvir tudo de novo e de novo, e é assim, desse jeitinho, que a história vai, de boca em boca, de orelha a orelha...

– Pois bem, agora vou contar mais uma lenda que a chuva me fez lembrar, é uma lenda africana sobre princesa, fogo e chuva. – continuou minha avó.

Há muito, muito tempo, num reino da África, vivia um rei que se chamava Aron, ele tinha uma filha muito bonita, seu nome era Priscila. Todo o povo tomou conhecimento da beleza da princesa e, assim, ela tinha muitos pretendentes. Um dia, Chuva foi falar com ela, às escondidas, e perguntou-lhe:

– Linda princesa, quer casar comigo?

A princesa disse:

– O meu coração se alegra.

A princesa, apaixonada, respondeu que sim e prometeu que casaria com Chuva. Chuva era poderoso. Era ele que enchia os rios onde viviam os peixes; era ele que fazia crescer as colheitas e a erva que alimentava os rebanhos.

Enquanto isso, no mesmo dia, Fogo foi falar com o rei Aron e pediu-lhe que o deixasse casar com a princesa. Fogo deu mostras de seu poder ao rei. Disse que suas chamas cozinhavam os alimentos, iluminavam as noites escuras e aqueciam o corpo no rigoroso inverno. O rei Aron, muito impressionado, concordou e disse que ele podia se casar com a princesa Priscila.

Depois de Fogo ir embora, o rei mandou chamar a princesa e disse-lhe:

– Priscila! Aceitei o pedido que Fogo me fez. Casarás com ele dentro de alguns dias.

– Com Fogo, pai? Não posso me casar com Fogo, porque já prometi a Chuva que me casaria com ele.

– E agora, o que fazemos? – lamentou-se o rei Aron.

– Estamos aqui presos entre duas promessas. Como vamos resolver isto?

Dias depois, o rei mandou chamar Chuva e Fogo e comunicou-lhes que a data do casamento da princesa já estava marcada.

– O casamento da princesa comigo. – afirmou Fogo.

– O casamento da princesa comigo. – assegurou Chuva.

O rei Aron esclareceu que haveria uma grande competição entre os pretendentes de sua bela filha: uma corrida. O vencedor seria o esposo da princesa.

A partir daí, momentos de tensão foram vividos por todos. Priscila, não disse nada, mas pensou:

“Só me caso com um homem: Chuva.” - ela já tinha dado sua palavra e não voltaria atrás.

No dia do casamento, um Vento forte assolou o reino. Quando o rei Aron deu o sinal de partida, Fogo lançou-se a correr e, ajudado por Vento, precipitava as suas labaredas para frente, cada vez mais depressa. As pessoas olhavam surpreendidas para Chuva que apenas deixava cair poucas gotinhas e gritaram:

– Vai! Vai ganhar Fogo, vai ganhar!

Faltavam poucos metros para a meta, quando se ouviu o poderoso Trovão e um grande manto de água caiu sobre a terra, apagando Fogo de imediato. E Chuva ganhou a corrida.

A princesa sentiu-se tão feliz que correu para o meio do campo e pôs-se a dançar com Chuva ao som dos tambores. Ainda hoje, quando chove muito, as pessoas gostam de dançar na chuva para celebrar o casamento da princesa Priscila.

Apenas posso dizer que, a partir de então, Fogo e Chuva tornaram-se inimigos mortais. Um não pode chegar perto do outro: ou se ferve a água, ou se apaga o fogo.

Sandra Ferrari Radich ll
Enviado por Sandra Ferrari Radich ll em 15/03/2025
Reeditado em 15/03/2025
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