O medo é um estado de poesia – Prosa e Poesia - 3 - Desenho na fumaça e 4 - O vão das telhas vãs

3 - Desenho na fumaça

Dodô, Juca, a Mona e eu fomos dormir cedo. Sempre, antes de deitar, ajoelhamos ao pé da cama e fazemos uma oração. Hoje, pedi para que a velha Pisadeira não nos visitasse à noite.

Dodô fez um barulhinho de satisfação e se acomodou para dormir também. A lerda da Mona fica sempre perto do Juca. Não é por menos! A tartaruga é dele e bicho sabe direitinho quem é seu dono, ou de quem ele é dono... Sei lá.

Meu irmão Juca e Vovó Tuta dormiram comigo no mesmo quarto e foram para suas camas também. Enquanto isso, minha mãe pegou um espiral verde escuro e colocou fogo na pontinha, onde fica uma pequena brasa que vai queimando devagarzinho. A coisa tem uma base de metal prateada para encaixar e ficar equilibrado, solta uma fumaça fina, bem branca e comprida.

Mamãe disse que a fumaça é para espantar os mosquitos. Deitei em minha caminha e acompanhei os desenhos que iam se formando na fumaça até se desfazerem nas telhas. Juca cobriu a cabeça e disse:

– Que cheiro horrível! Essa coisa é feita de coco seco de boi?

– Creio que sim. Antigamente, colocavam fogo no esterco seco de boi no quintal para afugentar os mosquitos e esse costume dava certo. – respondeu minha mãe.

Enquanto eu olhava a fumaça, inventei uma quadrinha.

O medo é um estado de poesia – Prosa e Poesia

A fumaça nos enlaça.

Sai do fogo com graça

Faz com muito empenho

No ar brancos desenhos

4 - O vão das telhas vãs

A casa da minha vovó Tuta é coberta com telhas vãs, feitas de barro, dessas telhas aparentes que ajudam a ventilar a casa. Nos quartos não tem portas. Mamãe me dá um beijinho e outro no Juca, fecha as cortinas e diz:

– Boa-noite, queridos.

– Boa-noite, mamãe. – respondemos.

Dodô ronrona e procura ficar por perto. Deve pensar que, desse jeito, vai me proteger dos trovões e dos raios que não paravam de cair ou, então, poderia ser de medo mesmo.

– Vovó, eu estou com sede. Quero beber alguma coisa gelada. Traz guaraná? - pedi.

Vovó Tuta rapidamente foi até a cozinha e trouxe um copo com guaraná para matar minha sede. Enquanto isso, o barulho dos trovões aumentou e não parava de chover. Fiquei com medo. Como já era de se esperar, vovó Tuta lembrou-se de uma história e disse que ia contá-la, para que conseguíssemos dormir.

E começou:

– E por falar em raios e trovões, vou contar para vocês a Lenda do guaraná.

– Raios e trovões? Acho que não é uma boa ideia vovó. – disse eu.

Dodô me olhou com aquele olho de gato, azul e arregalado. Parecia querer concordar comigo.

Noite de chuvarada

Com histórias de medo

Barulho de trovoada

Traz muito pesadelo