Histórias Contadas Por Vovó Tuta - Prosa e Poesia - 23 - Brincar de Sumir
Brincar de Sumir
Cansamos de brincar no quintal e entramos. Mas não tinha nada pra fazer dentro de casa. Então, chamei Dodô, Juca e a Mona para brincar de desaparecer. Entramos em um móvel antigo, que estava vazio na varanda, e nos escondemos. Ficamos ali quietinhos e imóveis.
Estava tudo escuro. Fechamos os olhos para não ver o escuro. Penso que mesmo nós estando ali, desaparecidos, minha mãe continuava lavando a louça. Minha avó passava resolvendo suas coisas, meu pai lia no sofá. E nós, ali, perdidos.
Algum tempo depois, coloquei o ouvido bem perto da porta do armário para tentar ouvir algum som, e nada... Esperei mais um pouco, e nada... Ali, perdida, eu percebi que a vida continuava a mesma. Só Dodô estava ao meu lado deitado e parecia que havia pegado no sono. Juca já tinha dado no pé com a Mona. Todos seguiam sua rotina normalmente.
Perceber a presença da vida dos outros, cada qual com seus afazeres, é muito agradável. Acho que é por isso que brinco de me esconder. Por outro lado, essa ideia de desaparecer me assusta. Sinto um vazio e vejo que todos têm que seguir em frente, mesmo eu ali escondida. Será que se a gente sumir ninguém dá falta? E a vida continua assim.... Acabei dormindo e quando acordei já era noite. Assustada, levantei; de um pulo só, saí do armário e Dodô atrás.
- Ninguém deu por nossa falta?
- Você que pensa! A vovó veio olhar, viu você dormindo e não quis atrapalhar o seu soninho, parecia estar tão gostoso. Dodô balançava o rabo e as perninhas, parecia estar sonhando.
- Ah, então, tá bom! - respondi aliviada.
Cansa desaparecer
Abro os olhos e nada
Tento escutar e nada
A vida continua correr