GRITOS DE DESESPERO

(caso verdade)

Havia uma cidadezinha aonde se passava anos sem cair do céu uma única gota d’água.

Lá as pessoas faziam fervorosas promessas, procissões, orações, penitência e pedidos a São Pedro para Ele mandar uma chuvinha.

Todos viviam temerosos com o horrível medo de morrer de fome.

Com esse desespero muitos moradores cavavam tanques, nas suas roças, com a esperança de um dia chover e terem muita água reservada.

Bem próximo das casas da pequena cidade havia um terreno onde seu rico proprietário mandou cavar uma imensa cratera, e dizia: -aqui será o Tanque do Povo. E todos do lugar passaram a chamar o tal buraco de Tanque do Povo. Lá seria a maior fartura de água da população do lugar.

Não demorou muito quando, certo dia, o céu se escureceu em meio a luminosos relâmpagos que riscavam as nuvens negras junto a trovões explodindo no ar e assustando a todos que presenciava aquela espetacular cena da natureza que, de lá, estava ausente há muitos anos.

De repente um violento aguaceiro caiu do céu e num instante se encarregou de encher o dito Tanque do Povo enquanto a alegria se estampava em cada rosto com sorrisos prazerosos.

Tão logo a chuva cessou e um grupo de garotos se uniu para ir ver o Tanque do Povo abastecido. Dentro desse grupo de meninos tinha um garoto, bem pequeno, que atendia pelo apelido de Lico. Ele morava numa casa bem próxima do Tanque do Povo. Lico ficou eufórico ao ver a garotada, bem animada, se dirigindo ao tanque, e se juntou a ela, e, sem a devida permissão de sua mãe, foi ver o tanque cheio d’água. Chegando lá, Lico se igualou à molecada e pulou na água suja e barrenta para nadar cantando e gritando de alegria. A bagunça estava animada entre a molecada até o instante em que o pequeno Lico se debatia dando gritos de desespero causando a maior apreensão entre todos presentes. Naquele momento já existia muitos adultos em volta do tanque assistindo a animada brincadeira. Mas, devido à gritaria de Lico, houve uma debandada de dentro d' água. Foi a maior correria para se saber o que estava acontecendo com o pequeno menino, pois ele era o menor entre os banhistas e merecia uma atenção mais cuidadosa.

Tiraram Lico de dentro da água e sentaram-no na grama do chão e viram que ele foi ferido por um vidro.

Mas o menino vendo seu sangue escorrer, apavorado ele gemia, gritava e chorava enquanto um tumulto se formava em seu entorno..

- Cortou meu pé, cortou meu pé! Joga água, bota água! Joga água! Era o que ele gritava com histeria, pois nunca recebera um ferimento e nem, mesmo, conhecia a cor de seu próprio sangue.

Realmente, havia um corte bem série no pé direito do choroso Lico que não parava de gritar ao ver seu sangue escorrendo.

Mas, naquele instante, para aumentar mais o seu desespero, um dos garotos - muito brincalhão e perverso -, se aproximou do ouvido do chorão e lhe cochichou, assim:

- Lico, me escute: o buraco no seu pé é muito fundo. Acho que suas tripas vão sair pelo buraco e vão todas parar dentro do tanque.

Ai a gritaria do menino triplicou e ele apelava gritando: Deus, segura minhas tripas Deus! Não quero morrer Deus.

Logo, logo a mãe de Lico veio agoniada e o levou nos braços enquanto lhe dizia:

- Se acalme meu filho. Foi só um cortinho de nada. Com um pouquinho de pomada isso cura logo, logo.

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Parece que São Pedro ouviu as súplicas de seus devotos e resolveu extinguir as pavorosas secas daquele lugar.

JOSE PEDREIRA
Enviado por JOSE PEDREIRA em 27/11/2024
Reeditado em 22/01/2025
Código do texto: T8206584
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