O PASSARINHO TINTIM E O MORCEGO TURU

Numa floresta muito distante vivia um passarinho chamado Tintim. Aliás, Tintim era uma passarinha. Tão bonita, de grandes asas amarelas, o bico forte e preto como o carvão, seu rabo azul era longo e parecia um pedaço do céu quando está sem nuvens. O vermelho do seu peito brilhava forte quando ela voava frente ao sol.

Tintim era alegre e adorava brincar. A brincadeira que ela mais gostava era o campeonato de altura. Voar o mais alto que se conseguisse, até passar além das nuvens e então, depois de dizer um, dois, três e já, mergulhar de uma vez até chegar o mais pertinho possível das copas das árvores, para só então, dar uma virada no ar e subia de novo. Sabia que Tintim já era quase campeã nesse esporte? Faltava muito pouco para ela ser a melhor.

No dia em que a mamãe de Tintim a viu brincando desse jeito levou um susto bem grande, quase caiu para trás, achando que a sua filhinha poderia acabar enfiando o bico entre as árvores da floresta, se esborrachando no chão com a cara quebrada. Mas nossa amiga mostrou para a sua mãe que era bem ágil e que voar era próprio dos pássaros e que, por isso, não precisava ter receios. Afinal, ela jamais iria bater com o bico no chão.

Estou aqui falando da Tintim e não é que me esqueci do Turu? Pois é, Turu é um morcego muito legal. Um morceguinho todo cinza e que por causa da sua cor discreta era muito difícil de ser notado. Turu adorava comer frutas. Dentre elas as suas preferidas eram as da cor amarela: bananas bem maduras, laranjas, mexericas e mamão.

Os pais de Tintim achavam que a amizade entre os dois era algo mesmo muito estranho e comentavam que eles, além de não conhecer, muito menos tinham ouvido falar de algum pássaro que tivesse como amigo um morceguinho. Na casa de Turu era a mesma coisa. Tanto os seus pais, quanto os irmãos mais velhos, eis que o nosso amiguinho era o caçula da casa, diziam ser muito esquisita aquela amizade. Morcego e passarinho não são inimigos, mas também não são de ficar por aí juntos, eles costumavam dizer.

Os dois amiguinhos nem se preocupavam com isto, até mesmo riam da situação. O que importava era que gostavam demais um do outro. Só que a amizade deles tinha um problema bem grande. Pois é, o problema era que quando uma ia dormir, o outro tinha acabado de acordar e, assim, o tempo que eles passavam juntos era muito menor do que aquele que desejavam. Enquanto Turu vivia brincando na noite, Tintim era uma passarinha que amava o dia.

Só em dois momentos podiam se encontrar e aí, nessa hora, tudo que eles menos queriam era perder tempo. Tinham que aproveitar ao máximo. O primeiro desses momentos chegava com o final da tarde, quando o sol ia se escondendo. A segunda hora do encontro dos dois era de madrugada, quando a luz do sol dava os seus primeiros passos de entrada na escuridão da noite. Nesses tempos, era só a gente olhar para o céu que lá iria reparar na Tintim e no Turu brincando.

Um dia de tarde, Turu acordou com o som de vozes. Reparou que conversavam debaixo do telhado onde ele e sua família viviam. Apurou os ouvidos, o que nem precisava muito, pois que morcegos escutam praticamente tudo. Viu que aquelas pessoas eram cientistas e que estavam ali para ver um tal de eclipse do sol. Aquela era uma palavra que ele nunca tinha ouvido e então acordou seus pais e perguntou o que significava aquilo. Ah, eles lhe explicaram que se tratava de um fenómeno que acontece quando a lua dá uma de importante e entra na frente do sol. Turu, sem entender bem, perguntou o que acontecia então? Eles lhe disseram que o dia, de repente, virava noite.

Naquele finalzinho de tarde o assunto entre os dois foi o eclipse. No dia seguinte Turu nem dormiu. Ficou aguardando, debaixo do telhado, que a lua tomasse coragem e passasse diante do sol mandando o dia embora, para que pudessem brincar. E naqueles momentos, tão diferentes, eles aproveitaram ao máximo em mil brinquedos. Inclusive, os dois amigos me contaram que o maior sonho deles é que houvesse eclipse todo dia para que possam estar juntos.