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Polígono, o mágico




A turma de Palmira, na escola, tem 15 alunos. Palmira é uma menininha calma – e inteligente. Possui bom coração. Sua pele é negra (a cor da pele não tem importância alguma para definir o caráter ou o talento de alguém). Gosta de Matemática, sempre com boas notas na disciplina.
Outro aluno, o Leandro, é tímido pois tem problemas na fala: não pronuncia corretamente algumas palavras. Exemplo: professor ele diz “pofessor”. Creme, diz “queme”. Cratera, fala “catera”.
Sua disciplina preferida é Ciências. Leandro gosta de ler. Ler com frequência. Uma boa leitura é um meio eficaz de aprendizado. As crianças devem ler o quanto puderem.
Outra menininha, a Laurinha, parda, é pobrezinha, também tímida. É estudiosa, esforçada, aplicada. Todos os dias vai às aulas. O esforço supera as deficiências. Mora numa pequena casa, de madeira, em área de baixada. Gosta de Geografia e História.
A professora, Helena – a quem os alunos chamam carinhosamente de Tia Lena – é rigorosa, no bom sentido: não permite que os alunos discriminem Palmira, pela cor da pele. Nem Leandro, pelo seu jeito diferente de falar. Ou Laurinha, por ser pobrezinha, humilde. Não, qualquer forma de discriminação Tia Lena imediatamente reprime, com rigor. Não aceita coisas desse tipo, pois é de pequeno que aprendemos a respeitar as diferenças, tratando a todos com decência, com dignidade.
As férias estavam chegando. A direção da escola conseguira um ônibus – ele levaria a turma ao interior, onde ficariam por uma semana.
----- Minhas queridas alunas, queridos alunos, anunciou Tia Lena, a gente vai viajar, nas férias. Daremos um passeio bem gostoso. As crianças, em coro, exclamaram, felizes: –----- Oba, que legal!!
----- Vamos aonde, Tia? A pergunta foi de Syane, branquinha, ruiva, usa óculos. É desinibida.
----- Vamos... Bem, iremos a uma fazenda, não é longe daqui. Três horas de ônibus, por aí. Eu não conheço o lugar, creio que seja bonito, deve ter uma floresta. E animais: gados, carneiros, patos, ovelhas, perus, galinhas...
----- Tia, estou ansioso, muito ansioso para conhecer essa fazenda. Vou brincar muito... Vou aproveitar – essa a opinião de Marcelinho, um garoto moreninho, cabelos lisos, olhos apertados. Parece um indiozinho.
As férias, então, chegaram. Quem não gosta delas? Todos nós gostamos de ficar à vontade, não fazer nada, acordar mais tarde, brincar o dia todo...
Tia Lena foi a comandante da viagem, a responsável pelo passeio. E lá se foram eles, meninas e meninos. Todos muito animados, logicamente. Superfelizes. E não faltaram as bagunças, as gritarias. Criança gosta de agitação, correr, se movimentar.
Saíram de manhã, pouco depois das 8 horas. É bom viajar – muito bom. Leandro sentou ao lado de Syane, uma menina conversadeira, desembaraçada. Sorri bastante.
----- Olha, veja, Leandro, as árvores, elas são lindas. Aquela ali, está cheia de frutas, acho que é uma jaqueira. Não é? Se a gente pudesse parar aqui, eu ia lá, apanhar uma jaca, ia levá-la para casa, comer com a mamãe, com o papai, com meu irmão – disse Syane.
----- Syane, parece que estamos num paraíso. Veja, que esplêndida paisagem. Amiguinha, como a natureza é bela. Estou ansioso para ver os animais, os bois, vacas, porcos, brincar com os macacos – foi o comentário de Leandro.
Chegaram à fazenda. Tia Lena, antes deles descerem, disse: ----- Meus queridos, lhes peço: comportem-se, me obedeçam, não criem problemas ao dono da fazenda. Aliás, vou lhes dizer, o dono da fazenda é um homem magro, magrelo. É brincalhão, fala muito. Sabem, ele é mágico. O chamam de mestre Polígono – isso mesmo, mestre Polígono. Não sei explicar o porquê do nome.
Desceram do ônibus. Havia uma casa, com uma varanda – e três cadeiras de embalo, daquelas antigas. Eis então que aparece, à porta, mestre Polígono, o mágico, magrelo, pernas compridas, uma cartola na cabeça. Levanta a mão direita, acena. Vai ao encontro dos alunos.
Se apresenta: ----- Bom dia, meus garotos e garotas! A meninada deu-lhe bom dia.
----- Sou mestre Polígono, mágico, contador de estórias. Adoro crianças. Moro aqui com meus três cães, eles estão lá atrás, no quintal. São dóceis, são amigos.
Tia Lena aproximou-se de Polígono, o cumprimentou. O mágico mandou os meninos entrar. Eles guardaram suas mochilas, conheceram a casa, na verdade um casarão.
----- Bem, minhas crianças – disse Polígono – vocês devem estar cansados. Pois bem, podem tomar banho, descansar. Olhem, amanhã de manhã lhes levarei para conhecer a floresta – aliás, uma pequena floresta, aqui perto. Topam?
Em coro, todos responderam: ------ Combinado, mestre Polígono. Professora Lena foi conduzida para um quarto, guardou sua bagagem. A tarde passou, veio a noite.
E naquela noite caiu uma chuva torrencial, forte. Palmira sentiu um pouco de medo, na cama. Não estava acostumada a dormir fora de casa. Laurinha também ficou um pouco nervosa. O forte barulho das águas da chuva a assustou, mas logo ela pegou no sono.
Amanheceu.
Todos levantaram, tomaram café. Tinha queijo, leite puro, frutas, mel, café, beiju, cuscuz.
Então Polígono, sempre disposto, falante, convidou a gurizada: ----- Vamos à floresta, meus amiguinhos! Vamos lá! Vocês gostarão do passeio. Não o esquecerão mais...
Seguiram por um pequeno caminho, uma trilha. Fazia um sol forte, brilhante. Tia Lena também foi.
Polígono levava na mão sua varinha de mágico.
----- Aqui, na floresta, moram vários bichinhos. Eu os conheço, eles me conhecem. Nos damos bem. Vejam, vocês estão num mundo magnífico, maravilhoso, fantástico. Como lhes falei, jamais esquecerão essas férias, jamais esquecerão esta fazenda.
Caminharam, o mágico à frente, logo atrás Tia Lena.
------ Turma, ali na frente tem uma casa, uma casa pequenina. Residem nela uma família de macacos. O macaco Carlito, ele é o responsável pela casa. E sua mulher, a Cacilda. Eles têm dois filhos, a Catarina e o Thiago, disse-lhes Polígono.
–----- Sabe, Polígono, dizem que nós, homens, somos descendentes deles, dos macacos. Será verdade? Essa a pergunta de Alexandre, um dos alunos.
–----- Bem, amiguinho, os estudos indicam que sim, que somos descendentes deles. A genética humana se parece com a dos primatas em quase 100%. Só que agora, hoje, somos seres humanos, temos alma, espírito, temos memória, inteligência, nós raciocinamos, nós pensamos. Os primatas não têm essa capacidade.
E temos um ser infinito, poderoso, que nos deu uma vida além desse nosso corpo mortal. Vocês sabem quem é esse Ser?
Palmira respondeu: ------ Mágico Polígono, é Deus...
------ Correto, minha menina, é Ele mesmo.
Caminharam pela trilha, fazia um pouco de frio, ventava bastante. E chegaram à casa do macaco Carlito. O mágico bateu na porta, duas batidas.
–----- Quem é, por favor? Tia Lena e os meninos ficaram perplexos, se surpreenderam: Macacos não falam.
–----- Carlito.... ele fala... Não é um macaco? Perguntou, atônita, Syane.
------ Minha menina... Qual o teu nome? Quis saber o mágico.
------ Sou a Syane.
------ Pois é, Syane, como lhes falei, estamos num mundo mágico. De fantasia. Aqui tudo é possível, não existem limites, nada disso. É como um sonho. Daí que o nosso amigo Carlito fala, conversa, ri, chora, se alegra, como se fosse um de nós, humanos.
----- Sim, entendi. Ao menos agora, neste momento, vivemos uma fantasia.
Então Carlito – o macaco – abriu a porta.
------ Ah, que boa surpresa! Tudo bem com o senhor, mestre Polígono. Faz um pouco de tempo que o senhor não aparece. Quem são essas crianças? Vamos entrar...
------ Carlito, essas crianças vieram passar uma semana, na fazenda. São alunos. Essa aqui é a professora, a Tia Lena. Bem, temos que ir em frente, não podemos entrar agora. Amanhã passaremos aqui.
Seguiram. Viram outra casa, cor verde. ------ Ali, explicou o mágico, reside um casal de onças. Elas devem estar passeando. A porta e a janela estão fechadas. Vamos lá...
Polígono bateu. Bateu de novo – e a onça fêmea abriu a porta. ------ Bom dia, mestre e mágico Polígono. Quem são esses meninos ?
------ São da cidade, são alunos. Vieram nos fazer uma visita.
----- Sou a onça Dandara, esse o meu nome. Meu marido, Floriano, saiu. Querem entrar?
----- Não, amanhã voltaremos. E entraremos para conversar – respondeu o mágico.
------ Dandara, perguntou Laurinha, que conselho você pode dar a nós, crianças?
A onça pensou um pouco, olhou fixo para Laurinha. E respondeu: ------ Bem, minha prezada menininha, o mundo está conturbado, violento, muitas injustiças, guerras. Tem muita gente morrendo de fome, de doenças. Isso é degradante, pavoroso.
------ Sim, onça Dandara, disse Laurinha, você tem razão. Mas, me diga: o que nós precisamos  fazer para transformar esse mundo cão, cruel, mau?
Novamente Dandara pensou.
Disse a Laurinha: ------ É uma tarefa hercúlea, quer dizer, algo que exige grande dose de esforço, de perseverança, determinação. Precisamos fazer nossa parte. Mesmo que seja pouco devemos dar nossa contribuição. O primeiro passo é a gente amar nosso próximo. Vou te dizer uma coisa: enquanto a gente não amar os outros, enquanto formos egoístas, avarentos, miseráveis, hipócritas, indiferentes, o mundo não pode melhorar. Ao contrário, só irá piorar.
Leandro entrou na conversa. E opinou. Disse: ----- Concordo contigo, onça Dandara. Eu pocuro (quis dizer procuro) fazer minha parte. Minha mãe e a Tia Lena, esta aqui (apontou para a professora), nos ensinam sermos pacíficos, benevolentes, caridosos, evitando as aguessividades (quis dizer agressividades), seja nas palavas (palavras), seja nos gestos...
O restante da turma concordou com Leandro – e o aplaudiu. Dandara também concordou com ele.
------ Bem, garotada, temos de ir embora – foi o pedido de Polígono.
Se despediram da onça, e regressaram. Estava na hora do almoço. Almoçaram. Os alunos pediram ao mestre Polígono fazer uma mágica.
–---- Está bem – ele aceitou. Levantou as mãos, à altura do peito. Movimentou os dedos e, de repente, num piscar de olhos, mostrou-lhes um lenço branco. Depois o dobrou – e o escondeu na palma da mão esquerda. O lenço branco se transformou num lenço vermelho.
Eles o aplaudiram.
Claro, a mudança de cor do lenço não existe. Trata-se de uma ilusão. A mágica é um truque para nos distrair, nos entreter, apenas isso.
A semana passou. Todos os meninas e meninas se divertiram muito, indo conversar com os animais – asa araras, jacarés, capivaras, cobras.
A gurizada retornou para casa, feliz por ter passado aqueles dias num mundo mágico, de sonhos, na paz, na harmonia. E por terem conhecido o mestre e mágico Polígono.
No momento de se despedirem, os meninas e meninas abraçaram e beijaram aquele homem magrelo, Polígono.
–----- Foi um imenso prazer te conhecer, Polígono. És uma pessoa sensacional. A humanidade precisa de gente assim, alegre, de bom coração – agradeceu a professora Helena – a Tia Lena.
Ele, o mágico, se emocionou. Lagrimou um pouco.
------ Vão em paz, minhas amáveis crianças. E nunca esqueçam de que os sonhos, as fantasias, fazem parte da vida. Eles são importantes, são alimentos para a alma. Nunca deixem de sonhar. E procurem realizar seus sonhos. Lutem sempre. Coragem.
A turma entrou no ônibus, e acenou para Polígono, se despedindo dele. O mágico, em pé, em frente a casa, também lhes acenou, se despedindo.
Ao lado dele os três fiéis cães.

Salatiel Hood
Enviado por Salatiel Hood em 20/11/2019
Código do texto: T6799783
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Sobre o autor
Salatiel Hood
Belém - Pará - Brasil, 64 anos
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