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A Biblioteca

A biblioteca estava fechada. Aliás, como sempre; embora ficasse dentro do colégio, não era permitido às alunas escolher o que queriam ler. Isso cabia às nossas professoras determinar, e elas quase sempre optavam pelo mais fácil, quando solicitadas: biografias oficiais, hagiografias, histórias edificantes, manuais de educação doméstica. Por áridos que fossem, os manuais acabavam sempre sendo as minhas escolhas costumeiras; pelo menos, ali eu conseguia aprender algo de útil. Não me identificava com os personagens históricos retratados nos livros autorizados, e dificilmente seguiria o exemplo de vida de algum santo ou mártir.

Comuniquei meu descontentamento à minha mãe, que apenas sorriu e me indagou o que poderia eu querer saber mais, além daquilo que estava no material didático usado pela escola.

- Você tem muita sorte, Gwendolyn; nem imagina quanta. Pode frequentar uma escola de verdade, enquanto a maioria das meninas da sua idade apenas aprende a ler, escrever e fazer as quatro operações.

- Mãe, mas a senhora me disse que quando tinha a minha idade, as coisas não eram assim. Todas as crianças iam à escola - protestei.

O rosto de minha mãe ensombreceu.

- As coisas eram assim... mas mudaram. Pelo cargo do seu pai no governo, ele conseguiu essa vaga no colégio para você, algo muito difícil nos dias de hoje. E se você quiser seguir carreira, como ele, é bom aprender a fazer menos perguntas. Quem faz muitas perguntas, eu já lhe disse o que acontece com elas.

Eu sabia: quem faz muitas perguntas, não vai muito longe na vida. Mas, por outro lado, eu também tinha bons ouvidos, o que era uma forma de compensação.

- Mãe, e a Biblioteca Central? Será que a senhora não poderia me levar lá... para ver alguns livros diferentes? Livros de... histórias?

Minha mãe hesitou.

- Eu não sei... posso perguntar ao seu pai, ver se ele autoriza.

E me encarando com o dedo em riste.

- Mas não quero ouvir nenhuma palavra sobre livros de histórias, está bem? Não são considerados literatura autorizada!

- Está bem, mamãe - acedi.

* * *

No dia marcado, fomos eu e mamãe à Biblioteca Central. O guarda uniformizado à entrada, conferiu os nossos passes e nos permitiu o acesso. Fascinada, tive minha primeira visão do grande salão, suas mesas de leitura enfileiradas sobre um piso de pedra polido, ladeadas por fileiras e mais fileiras de estantes, o sol da tarde entrando por grandes janelas altas nas laterais, como se fosse uma catedral. Havia pouca gente ali dentro, a maioria homens, e de idade avançada. Uma senhora de óculos e tailleur cinza-ardósia, veio ao nosso encontro e nos saudou:

- Bem-vindas! Primeira vez na biblioteca?

- Eu vinha aqui quando tinha a idade da minha filha... essa é a Gwendolyn. Ela estava ansiosa por conhecer a Biblioteca Central.

- Olá, Gwendolyn! - Cumprimentou-me a senhora, me estendendo a mão, a qual apertei. - E o que você quer ver aqui?

- Livros de histórias, senhora...

Eu ia acrescentar "como os que a minha mãe lia", mas me contive a tempo.

- Sim, ainda os temos... - replicou ela, olhando em torno. - Gwendolyn, não é?

- Sim, senhora.

- Sigam-me - comandou ela.

Caminhamos ao longo do salão, passando por algumas mesas ocupadas por homens grisalhos que nos encararam com modorrenta curiosidade. Finalmente, ela parou ao lado de uma das estantes metálicas, tomada por livros de cima a baixo.

- Aqui... esta é a seção de literatura infantojuvenil. Vocês podem escolher o que quiserem e sentar-se a uma das mesas.

E antecipando uma pergunta que não fora feita, avisou:

- Os livros só podem ser lidos aqui. Não fazemos empréstimos.

- Está bem - acedeu minha mãe.

Havia um cheiro penetrante de papel antigo, linho e couro. Corri os dedos pelas lombadas, sem saber por onde começar. Ergui os olhos para minha mamãe, em busca de socorro.

- Qual desses?

Ela me pegou pela mão e fomos andando lentamente ao longo da estante, minha mãe murmurando reverentemente os títulos de alguns dos livros pelos quais estávamos passando.

- "Um Conto de Natal", "As Aventuras de Huckleberry Finn", "Alice no País das Maravilhas", "O Livro da Selva", "O Jardim Secreto"...

- Qual desses, mamãe? - Repeti.

Ela parou e estendeu a mão para puxar um volume, que fazia parte de uma série numerada.

- "O colégio das Quatro Torres", de Enid Blyton - exibiu-me em triunfo.

- Por que esse, mamãe? - Indaguei.

- Bem, você não gostaria de saber de onde tirei seu nome? - Replicou ela, sorrindo.

- [18-11-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 18/11/2019
Reeditado em 18/11/2019
Código do texto: T6797888
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo