A Voz do Gato

Em "A Voz do Gato", Lucie Astraios é um escritor melancólico e sem sucesso que sofre de depressão por não conseguir crescer em sua carreira.

Quando o pai do escritor falece, deixando para o filho mais velho nada além de um velho Gato Preto de dentes grandes e rabo torto no formato de um relâmpago, Lucie se vê furiosamente indignado, humilhado, até o Gato começar a falar; e a carreira e vida do escritor começarem a mudar surpreendentemente.

À medida que o misterioso Gato conduz Lucie por sua mente numa jornada de autoconhecimento e valorização da vida, revelando à ele segredos sombrios acerca do passado, mais e mais o homem se questiona:

"Estaria eu, insano? Como é possível um Gato falar?"

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Uma semana passou-se após o funeral do Sr. Astraios, que veio a falecer de causas naturais no asilo onde residia. Ele deixou, para os filhos, partes de sua herança distribuídas igualmente - com exceção do filho mais velho, Lucie Astraios; para quem deixou nada além de seu velho Gato Preto de aparência incomum. O Gato tinha dentes maiores, pontudos, e o rabo torto num formato peculiar que lembrava um relâmpago, um raio.

E Lucie estava enfurecido desde então. Na terceira tentativa de escrever, sem sucesso, o homem, alterado, quebrou algumas coisas dentro da casa e rasgou seus rascunhos de escrita.

O Gato observava, tranquilo e curioso, de uma janela onde estava sentado. Ele notou que o agora seu dono estava um pouco mais magro, e com mais fios brancos.

Lucie, aos quarenta e cinco anos, tinha o físico naturalmente magro, cabelos grisalhos espetados, grandes olhos azuis carregados de olheiras e uma mandíbula ossuda.

Seu rosto estava mais cansado que o normal naquela noite, os olhos estavam avermelhados ao redor. Ele estava trajando uma camiseta marrom velha com estampa do David Bowie e bermuda de pijama listrada em branco e azul.

"Não vai chegar a lugar nenhum desta forma.", uma voz mansa, densa e séria disse, e Lucie assustou-se. O homem olhou para todas as direções; para os lados, para cima, para baixo, de olhos bem arregalados e lábios abertos.

"Aqui, na janela. De pelagem escura e olhos verdes. Eu, o teu Gato."

Quando o homem olhou na direção da janela, arregalou mais ainda os olhos. Negando com a cabeça, ele apontou para o felino, balançando o indicador em negação. O animal desceu da barra da janela para dentro da casa, caminhando em direção ao novo dono; Lucie recuou para trás.

"Preciso dormir. Noites de insônia já estão me deixando louco... Agora, até os gatos falam."

"Não, os gatos não falam.", Disse o felino em tom de reprovação. "Este gato fala, eu falo. Eu, meu caro Sr. Lucie, lhe vi crescer, e certamente não foi nesta situação que lhe imaginei."

O homem, assustado, mas ao mesmo tempo desacreditado, riu. Pôs uma mão abaixo do peito, gargalhando, mas a risada logo se transformou num som choroso, uma mescla cômica de divertimento e desespero.

"Ah, eu vou dormir... Tem comida e água para você na varanda. Não serei humilhado por um gato.", Ele virou-se para a escada, caminhando devagar.

"Não vai, não, Sr. Lucie. Volte para cá, arrume esta sala e sente-se para conversarmos.", o Gato acompanhou o andar do dono. "Sr. Lucie! Ouça-me, homem, tenho muito o que cumprir com o senhor!"

Não obtendo resposta além de resmungos debochados, o Gato então ergueu uma das patas, soltou as unhas e as cravou numa das pernas do homem, descendo num arranhão extenso.

"AH! Porra!", Lucie caiu na metade da escada.

O Gato subiu no peito dele e esticou uma das patas da frente, tocando os lábios do dono, impedindo-o de falar.

"O Sr. descerá, arrumará a bagunça que fez, e então nós teremos uma conversa."

E assim foi feito. Em total tensão e assombro diante do gato que agia estranhamente como um ser humano, Lucie limpou a sala. Ele juntou os cacos de vidro numa pá, pôs os livros de volta nas estantes, as cortinas nas janelas e varreu o chão. O gato, descansando num dos apoios laterais de uma poltrona azul velha onde Lucie sempre adormecia, observava o dono em silêncio e julgamento.

Quando terminou, o homem olhou para o gato, impaciente, e disse:

"O que é? Você está esperando que eu te ofereça uma bebida?"

"Eu aceito leite fresco, Sr.", respondeu o gato, arrancando do escritor um rolar de olhos.

Tendo servido o leite para o gato numa tigela que colocou em cima da mesa de centro frente à poltrona, Lucie suspirou e se sentou na poltrona, esperando que o gato dissesse algo. O felino bebia um pouco do líquido branco em cima da mesa, limpava o bigode esbranquiçado de leite que se formara acima da boca e então olhou para o homem.

"Quem é você? Ou melhor, "o que" é você?", perguntou o homem ao gato. O felino se espreguiçou e ronronou.

"Eu sou muitas coisas. Eu sou o Tudo e o Nada, a Luz e a Escuridão, eu sou o que você imagina que eu seja.", o Gato respondeu, se sentando devidamente ao lado da tigela de leite e então, olhando novamente para o tutor.

"E como você se chama, ó, Senhor Gato muitas coisas?", debochou o escritor, gesticulando com as mãos. O gato desdenhou dele com o olhar.

"Eu me chamo Gato. Apenas Gato. E você, Lucie Astraios, nomezinho tão distinto...", Balançou o rabo, pausando para lamber uma das patas que havia molhado com leite. "Astraios vem do grego, significa "Estrela", mas você, aparentemente, é uma estrela apagada. "Lucie" é uma variante de "Lúcifer", nome muitíssimo específico e forte, não acha? Por que você acha que teu pai te nomeou Lúcifer, indiretamente?"

"Isso não importa, é só um nome e, ah, Deus! Estou conversando com um gato, um gato! Mas que baita problemão, senhor...", O homem então pôs as mãos no rosto ao tombar a cabeça para trás e, suspirando, soprou um risada desamparada.

"Sr. Lucie, Sr. Lucie, veja bem...", Gato pulou no colo do homem. "Acompanha-me.", e pulou ao chão.

O Gato deu alguns passos e olhou para trás, esperando que o homem se levantasse. Lucie pensou que não tinha nada a perder, portanto, se pôs de pé e seguiu o felino de rabo torto.

O caminhou levou-os até o espelho que ficava de pé no quarto do homem. Lucie encarou o próprio reflexo e depois olhou para Gato.

"O que você pretende me trazendo até a..", o homem parou de falar quando o gato deu passos a diante e, num piscar de olhos, atravessou o espelho. Lucie piscou os olhos algumas vezes, ergueu as mãos uma de cada lado da cabeça e sussurrou sozinho:

"Eu só preciso dormir. Tudo bem, eu só preciso dormir, tudo vai voltar ao normal... É só um espelho.", ele deu um passo à frente, ao abrir novamente os olhos e tocou o espelho, esperando que nada acontecesse.

De contrário, porém, o homem foi puxado para o interior do espelho.

"AH, Socorro! Gato, Gato!", Ele gritava, largado no que parecia ser o chão, batendo as pernas e braços. Gato olhou-o por cima da testa, quase tocando seu nariz ao do humano.

"Oh, finalmente. Levanta-te, vá.", o felino disse. O homem se levantou, um pouco tonto, e curiosamente olhou tudo ao redor.

"Onde... Estamos? Que lugar é esse?", perguntou Lucie.

"Este lugar, Sr. Lucie, é a tua mente. Estamos no teu consciente.", respondeu Gato.

Lucie estava deslumbrado, ao mesmo tempo em que estava apavorado, seu emocional foi fortemente cutucado diante das imagens que o cercavam.

O lugar tinha o aspecto de um livro, o chão e as paredes eram feitos de papel, páginas meio amareladas das histórias escritas por Lucie, mas, ao redor, vários momentos da vida do homem estavam divididos, acontecendo cronologicamente. Como memórias.

"Aquilo foi... Aquele momento, foi quando eu publiquei o meu primeiro livro.", o homem andou até um compartimento da memória onde a sua imagem mais jovem finalizava a escrita de um livro. O Gato o acompanhou.

Logo ao lado da memória que Lucie observava, estava uma memória mais pessoal, onde ele dançava com uma mulher bonita de vestido florido.

"O Sr. foi diretamente à esta memória, ao invés de uma memória como esta aqui ao lado. Não é uma crítica, admiro aqueles que têm o trabalho como a primeira paixão.", comentou Gato.

"Sim, meu primeiro amor foram os livros, a escrita. E continuam sendo.", respondeu Lucie, olhando de relance para Gato. "Christina e eu não demos certo por isso, por minha obsessão para com o meu trabalho. Eu estava no auge da minha carreira quando começamos a namorar, fui reconhecido por nomes e editoras importantes naquela época. No terceiro ano juntos, ela me disse que queria se casar legalmente para começar uma família, e eu, da forma que sou, fui contra. Eu não queria ter filhos, precisar dividir ainda mais a minha atenção, perder a minha paz e minha solitude e talvez minha inspiração. Queríamos coisas diferentes..."

"Sinto uma pontada de culpa em teu relato, Sr, mas gostaria eu de comentar que, o Sr. não fez nada de errado. Foi honesto com ela, e está tudo bem. Desta forma é a vida, não podemos ter tudo o que queremos.", disse o Gato, agora acompanhando Lucie até outra memória.

Não parecia com uma memória agradável como as anteriores. Lucie chorava por cima dos livros, a mão dele tremia com um cigarro aceso entre os dedos.

"Aqui... Foi quando as coisas começaram a desandar.", ele suspirou, as pálpebras pesaram acima dos olhos. "Eu estava sem propósito, nada fluía. Passava horas com a caneta entre os dedos, encarando páginas em branco, e nada. Comecei a me desesperar, não soube lidar com o bloqueio de inspiração... Minha vida parecia mais vazia do que o normal. Sem a única coisa que me preenchia, a escrita."

"Suponho que o Sr. ainda se sinta desta forma.", disse o gato, olhando para ele.

"Vazio? Sim.", respondeu Lucie.

"O Vazio nada mais é que uma página em branco. Alguns lutam para preenchê-la, aguardando em agonia pela inspiração, enquanto outros, cansados de tentar, recorrem ao caminho mais fácil; porém imoral."

"O que você quer dizer com isso?", o homem perguntou ao virar a cabeça e encarar os olhões verdes do gato.

"O Sr. saberá em breve. Precisamos atravessar de volta agora. Ficar aqui por muito tempo pode causar choques em teu cérebro e não queremos isso."

Antes de chegarem ao espelho, Lucie parou atrás do gato.

"Eu não vou sair daqui até você me dizer quem ou o que você é.", disse o homem, determinado. O gato, por sua vez, já bem próximo ao espelho, virou-se para encará-lo e respondeu:

"Eu, Sr. Lucie, em uma de minhas inúmeras formas, sou a Consciência; o estado de percepção e compreensão de si mesmo e do ambiente ao redor. Sou eu quem moldo tudo aqui, na tua mente. Portanto, cuide bem de mim."

Gato passou pelo espelho após sua resposta. O homem, confuso e estranhamente inspirado, nada disse. Ele seguiu o felino, passando também pelo espelho.

De volta à casa, no mundo físico, Lucie acordou algumas horas após o passeio mental. Se levantou num resmungo dolorido, travado pelo tempo deitado torto no chão, e diretamente olhou no relógio na parede; eram 2:12h da manhã. Ele acendeu a luz do quarto e se afastou do espelho, olhando ao redor à procura de Gato.

"Gato? Gato, para onde você foi?", não obtendo resposta, o homem desceu para a cozinha e tomou uma quantidade significativa de água, como se tivesse passado horas num deserto. Ele também estava faminto. Fez um mingau de grãos e cereais, adoçou com mel e frutas secas e deixou esfriar um pouco.

Enquanto esfriava, ele serviu os utensílios do gato com leite, água e comida, imaginando que ele estaria com fome quando voltasse.

O escritor voltou para o quarto com seu bowl de mingau e uma garrafa de água, sentou-se na poltrona de frente para a mesa onde escrevia, abriu um caderno novo e escreveu, em caneta preta:

"A Voz do Gato".

Ele escreveu das 2:30h até às 3h, e quando o ponteiro do relógio bateu à esse horário, o vento veio forte das janelas, quase derrubando as cortinas. O escritor se lembrou do que Gato disse sobre o significado de seu nome e a lembrança o causou calafrios.

Naquela madrugada, enquanto o sono não chegava, Lucie pensou, pensou e pensou, por minutos seguidos:

Estaria eu, insano? O que aconteceu com meu pai, a esquizofrênia que acabou com sua consciência, exatamente na minha idade, estaria agora perpetuando em mim? Os ditados dizem que os filhos mais velhos são os que carregam os fardos mais pesados. E se eu acordar amanhã num quarto de uma clínica psiquiátrica? Eu posso estar louco, afinal, ou o meu pai deixou o Gato para mim por que sabia que ele mudaria a minha vida para sempre?

Consigo escutar A Voz do Gato, tão sublime, tão mansa e tão calma. Como o mar num dia gélido, como as nuvens num céu parcialmente nublado, como o trovoar do forte céu antes da tempestade. Escuto sua voz me cantando palavras sobre as páginas. Deixo que me conduza por meus sonhos e, assim, me traga de volta o brilho da estrela.

No dia seguinte, Lucie se vestiu formalmente em tons de preto, cinza e azul, pôs os óculos no rosto e saiu rumo à editora para a qual antes trabalhava; antes de ser demitido.

"Escute, Srta. Faith, apenas leia. Como pode descartar sem ao menos ler antes? Não está finalizado, mas eu garanto que não vou fazê-la se arrepender.", disse ele, tentando convencer a mulher.

Conhecendo bem a personalidade insistente de Lucie, ela suspirou, se dando por vencida. A mulher ajeitou os óculos no rosto e pegou os papeis que lhe foram entregues.

"Estou indo por um caminho diferente desta vez. Em formato de poemas, com ilustrações de minha autoria.", continuou ele.

"... Interessante.", comentou a mulher, ainda lendo. "Vou considerar te dar uma segunda chance. Traga quando estiver finalizado."

Esperançoso, o homem saiu da editora com um novo brilho no olhar e um semblante mais gentil. Parecia haver um lampejo de luz em meio à escuridão, em anos.

Ele havia parado com o carro num mercado para comprar algo prático para o almoço. Lucie caminhava com os sacos amarronzados de compras em direção ao porta-malas do veículo, quando um dos sacos caiu e ele praguejou em voz baixa.

Quando se agachou para pegar, entretanto, um homem de mesma altura se agachou junto, ajudando-o a colocar as embalagens de alimentos e latas novamente dentro do saco. Lucie o olhou; era um homem de físico comum, apenas um pouco mais forte que o seu. Pele marrom e cabelos pretos, um pouco apenas de barba e olhos esverdeados.

O desconhecido, com um sorriso de linha gentil, sem nada dizer, ajudou Lucie a pôr os sacos de compras no porta-malas e então se retirou.

Antes que ele sumisse totalmente, Lucie levantou uma palma em aceno e disse, alto o suficiente:

"Obrigado!"

O outro homem olhou por cima do ombro com o mesmo fraco sorriso gentil; ergueu também a palma, e então sumiu para dentro de um táxi.

O escritor chegou em casa, pela tarde, disfarçando a ansiedade em contar para Gato sobre a novidade. Ele deixou as compras em cima da mesa, abriu alguns botões da camisa social e se serviu com uma caneca de café antes de voltar a sala.

"Gato, Gato!", chamou ele, logo escutando um miado preguiçoso, e logo o felino preto saltando da janela para o piso. "Eu rascunhei algo ontem à noite, fui hoje de manhã até a editora e, adivinhe só?! Vão publicar! Quando eu finalizar."

Ele se sentou na velha poltrona azul, deu um gole no café e colocou a caneca em cima da mesa de centro. O gato se espreguiçava pelo carpete.

"Isso é muito bom. Esteve inspirado ontem?", respondeu o felino, com uma pergunta.

"Sim. Depois que voltamos do espelho.", ele tomou outro gole do café, e então se corrigiu: "Não. Na verdade, depois que você começou a falar comigo. Se você traz tanta sorte, Gato, por que é que meu pai... Enlouqueceu?"

"Eu não trago sorte, Sr. Lucie. Eu apenas desperto a consciência, te ajudando a enxergar que ainda há uma luz a ser acendida.", o Gato o corrigiu, e então subiu num dos apoios laterais da poltrona, se aprumando, ereto. "Eu ajudei o teu pai a enxergar a luz, e as coisas deram certo por um tempo, ele conseguiu alavancar a empresa e os lucros aumentaram. Mas, o teu pai era um homem ganancioso, ele não estava satisfeito com o que tinha, o Gato falante com dons psíquicos não era o suficiente..."

"E por que? O que ele fez, Gato?", Lucie encarou o felino, negando brevemente com a cabeça.

"Ele foi atrás de forças obscuras, recorreu às trevas. Estudou a magia negra por anos, e mesmo com os meus alertas, ele não recuou. Eu não consegui evitar o pacto com o Diabo.", diante do relato do Gato, Lucie arregalou os olhos; sem palavras na ponta da língua, ele gaguejou:

"Que? Gato, eu não vou cair ness.."

"Satanás ofereceu duas opções para o preço em troca do que ele queria: A alma de seu primogênito ou... A sanidade sua mente."

"... Ele pagou com a sanidade.", sussurrou o homem com um peso nas pálpebras.

"Antes de partir, ele me implorou para que não lhe deixasse repetir o que ele fez.", completou o Gato, gesticulando com uma das patas.

Daquele momento em diante, o Gato percebeu o dono mais pensativo. Conforme os dias passavam-se, mais inspirado Lucie ficava; inspiração esta que vinha de uma mescla de emoções em seu consciente, como a melancolia pela morte do pai, a sensação de algo novo, a satisfação, a agradável companhia do Gato.

Aos poucos, Lucie sentia que estava voltando a brilhar, a amar, a estar, a sentir. A sentir a vida.

Os dias tornavam-se mais agradavelmente rotineiros com o passar das semanas. Lucie acordava e preparava o café da manhã para ele e para Gato ao som de Starman, de David Bowie:

"Há um Homem Das Estrelas esperando no céu

Ele gostaria de vir nos conhecer

Mas ele acha que nos assustaria

Há um Homem Das Estrelas esperando no céu

Ele nos disse para não estragarmos tudo

Porque ele sabe que tudo vale a pena, ele me disse

[...] Olhe pela sua janela, consigo ver a luz dele

Se pudermos brilhar, talvez ele pouse esta noite

Não conte ao seu pai ou ele, por medo, irá nos trancar"

Depois do café da manhã, o Gato dormia e Lucie ia correr. Ele parava, algumas vezes, para se sentar e desenhar as árvores. Quando voltava para casa, enquanto preparava o almoço básico de sempre, escutava ao noticiário e Gato aparava as garras no poste de arranhar. Eles almoçavam, muitas vezes conversando, e então o homem ia escrever.

Alguns meses depois de Lucie publicar seu novo livro intitulado "A Voz do Gato", onde, em forma de poemas, contava sobre a jornada de um homem por sua própria consciência, sendo guiado por um Gato astuto e estranhamente humano em personalidade e forma de se portar, a vida do escritor mudou num estalar de dedos.

Ele comparecia à eventos organizados por editoras, se tornou novamente reconhecido, havia brilho novamente em seu rosto e olhos.

Lucie seguia se perguntando, entretanto, se Gato era mesmo real, ou se não passava de uma manifestação mental que sua mente criou para lidar com o fracasso e passar por cima disso. Ele se pegava frequentemente pensando nisso, enquanto observava o Gato, cada vez mais apegado emocionalmente à ele.

Ele olhava para Gato com um brilho notável nas orbes azuis, com a sombra de um invisível sorriso brincando nos lábios. Uma espécie de amor nasceu, em meio à toda a jornada com o Gato, Lucie sentia que seria eternamente grato à ele; independentemente do felino existir de fato ou não passar de um jogo mental.

Durante um passeio mental pela consciência de Lucie, deitados sobre o chão de páginas de livros, encarando o céu feito pelo mesmo material, onde passaros feitos de páginas sobrevoavam ao redor de árvores igualmente construídas por páginas, o homem perguntou ao Gato, que estava deitado na mesma posição humana que ele; um braço atrás da cabeça e uma mão na barriga:

"Você disse que é a Consciência. O que é "ser a consciência", Gato?"

"Eu posso ser diferentes coisas para diferentes humanos. Tudo depende do que você entende por Consciência, Sr. Lucie. O que você pensa que é "A Consciência"?", respondeu o gato, com uma pergunta igualmente.

Lucie suspirou, pensativo.

"A Consciência é, para mim, uma força sobre-humana que está além de tudo e de todos. Eu penso que a Consciência e o Tempo estão no topo e no controle de tudo, são eles os criadores, o bem e o mal, o moral e o imoral... como Deus e Satanás.", o homem olhou para o Gato, virando a cabeça num movimento mínimo. "A Consciência é o tudo, mas também é o nada. É tudo o que temos como humanos... Sem consciência não seríamos... pessoas.", o Gato também virou o rosto para olhá-lo. "A Consciência é como Deus, para quem nele crê. A maior força e a maior presença, além do que a raça humana entende, o Mestre."

"Você crê em Deus, Sr?", indagou o felino.

"Eu creio em muitas coisas.", respondeu o homem, simplório e direto. "Creio em tudo aquilo que não cabe ao homem explicar.", completou.

O Gato esboçou um sorriso agradável e, manso, respondeu:

"Então eu sou, para você, muitas coisas. Sou tudo aquilo que não cabe aos humanos compreender."

Eles se levantaram; Lucie, com Gato nos ombros como uma almofada de descanso para o pescoço, e assim ele caminhou por sua Consciência. Assistia os momentos da própria vida com serenidade, até mesmo os tristes; que agora enxergava como necessários para a construção de quem ele se tornou, não mais se lamentando por eles.

"Qual é a moral disso tudo, Gato? Você vai partir agora que eu entendo a importância de todas essas fases da minha vida?", o homem perguntou, preocupado. Não queria se despedir.

"Partirei somente quando o Sr. desta vida se for, da mesma forma que aconteceu ao teu pai, e à todos que antes foram meus donos. Perambulo eu por este mundo desde que ele foi criado, meu querido Sr., mas nunca me despeço de uma alma sem que antes ela deixe o corpo ao qual pertence.", respondeu o gato, ronronando contra a mandíbula do dono; onde roçou o nariz rosado, causando um ar de cócegas que fez Lucie torcer o pescoço e rir baixo.

"Então, espero que eu tenha muitos anos pela frente.", ele disse, olhando para o felino com a mesma mansidão de sua voz.

Dias e meses passaram-se, com Lucie crescendo como escritor e como homem. Conforme os anos se passavam, ele parecia se apegar cada vez mais à Gato, e Gato igualmente se apegava à ele. Parecia haver uma conexão além-vida entre Gato e dono, como se Lucie fosse um ser humano especial entre os demais.

Algumas vezes, entre idas e vindas no mercado, no metrô ou até mesmo indo à banca comprar o jornal da semana, Lucie via o mesmo homem de olhos verdes e pele amarronzada que um dia, há alguns anos, ajudou-o com os sacos de compras no porta-malas do carro. Aquele homem estava um pouco mais maduro em aparência, mas tinha os mesmos olhos caídos e brilhantes como duas estrelas ou duas luas que não se apagavam nem mesmo diante do caos.

Ele nunca disse uma palavra à Lucie.

O homem já não pensava com tanta frequência sobre talvez estar louco, sobre ter perdido sua sanidade mental tal como o pai perdeu. Ele pensava que, algum dia, poderia acabar num asilo, e que os médicos lhe contariam sua história de loucura sobre acreditar ser dono de um gato preto falante.

Mas, logo esse pensamento se esvaía, e Lucie desfrutava da companhia de seu Gato em paz.

[...]

Oito anos passaram-se, Lucie estava com cinquenta e três anos.

Certa noite, n'um 31 de Outubro, terminando de dar uma entrevista on-line para uma editora especializada em literatura gótica n'um especial de Halloween, Lucie escutou um miado violento de Gato. Ele assustou pois, em anos, Gato nunca se assustara, nada nunca o machucara.

Felizmente a entrevista já tinha acabado, e Lucie pôde ir atrás do som do miado; preocupado, entretanto.

"Gato?! Gato! Não me assuste, por favor! Eu não lido bem com brincadeiras! Gato!"

O homem chamava pelo felino, apressado, procurando por toda a casa. Foi somente quando voltou a sala que ele se deparou com a silhueta de um homem esguio, alto, trajando um sobretudo vermelho pesado. Quando o homem se virou, revelando o rosto pálido, cabelos ruivos como fogo e olhos vermelhos, ele segurava Gato com uma só mão. O bichano parecia assustado.

"Solte ele...", suplicou o dono, dando alguns passos à frente.

"Oh, eu não vou machucá-lo, meu caro Sr. Astraios.", o homem soltou o animal, que correu até o dono e o escalou pela perna. Lucie o segurou, protetor. "Sou eu, um velho amigo de teu falecido pai. Consciência lhe contou, eu imagino.", ele comentou, se sentando no estofado da sala. Cruzou as pernas. Lucie, de sobrancelhas franzidas no centro da testa, se sentou cautelosamente em sua poltrona, acariciando a cabeça de Gato.

"O que você quer? Não tenho nada a tratar com você."

"Eu quero lhe fazer uma oferta, assim como fiz ao teu pai.", respondeu Lucifer, apoiando os braços acima do encosto do sofá.

"Sr. Lucie, não escute ele.", disse o Gato. Lucie suspirou, em silêncio.

"Não atrapalhe o meu trabalho, Gato. Aliás, ele alguma vez lhe mostrou a forma humana dele? Que ele usa para perambular por aí e desfrutar dos prazeres humanos?"

"Isso não importa. Saia daqui, tirano!", o Gato rosnou um miado nervoso, alto.

"Gato, fique calmo. Não vou aceitar oferta nenhuma.", o escritor pontuou, certeiro, olhando para o gato e depois para o homem ruivo sentado no sofá de sua sala.

"Vou direto ao ponto, xará.", Lucifer olhou diretamente nos olhos de Lucie. "Em dez anos, você terá câncer. E morrerá após um longo e sofrido tratamento. Você será conhecido pelo mundo todo após sua morte, porque um ano antes de morrer, ganhará o best-seller."

"O que..", a expressão no rosto do homem mudou diante das palavras do poderoso ser ali sentado. Ele sentiu as pálpebras pesando acima dos olhos e aconchegou melhor o gato em seus braços.

"Eu venho oferecer-lhe um desejo, que você usará com sabedoria. Em troca, quero uma partezinha de sua consciência, apenas uma pequena memória, de minha escolha.", completou o ruivo.

"Não... Sr. Lucie, ouça-me, não aceite. Ele pegará uma memória importante. Sr. Lucie!", o Gato batia uma das patas pretas no peito do dono, mas Lucie estava imerso num silêncio pessoal, assimilando o que escutou.

Por um momento, Lucie fechou os olhos e se viu dentro de sua consciência. Naquele cenário imenso composto por páginas de livros, e vislumbrou todas as suas memórias. Todos os seus momentos, os mais importantes e os nem tanto assim; mas necessários, entretanto, para a formação do homem, da pessoa que é.

Ele visualizou seu nascimento, seus primeiros passos, sua primeira palavra, toda a vida do escritor passava como num carrossel de papel. Ele viu seu primeiro beijo, com uma garota que era considerada feia por todo o colégio, mas que para ele era linda; ele viu sua primeira festa universitária, onde beijou garotas e também garotos, quando bebeu tanto que acordou no outro dia com um olho roxo; ele viu as brigas com seus irmãos, seus primeiros livros lidos, os primeiros rascunhos como escritor, viu tudo... Até o momento onde está agora.

E ele abriu novamente os olhos.

"Sr. Lucie!", escutou a voz de seu Gato; seu fiel companheiro, o ser que aprendeu a amar com o passar dos anos, e olhou no rosto peludo dele. E se Lucifer pegasse a memória de quando o homem o conheceu? Gato seria apagado. O adeus que ele tanto temia, aconteceria.

Um silêncio novamente se fez, com Lucie movendo a cabeça lentamente na direção de Lucifer outra vez.

"... Não.", respondeu o escritor, com firmeza. "Eu escolho aceitar a minha morte, no tempo da minha morte, e viver a minha vida exatamente como ela é.", olhou para Gato com um semblante sereno, tranquilo de si. "Amar o que me resta de valor, e partir quando o momento chegar."

Ele se levantou, colocando o gato em cima da poltrona, e olhou novamente para o ruivo.

"Escolho ficar com toda a minha consciência, Sr. Lucifer, porque ela está limpa. Eu agradeço a sua oferta, mas estarei recusando."

Com um sorriso discreto, Lucifer se levantou, ajeitou o sobretudo vermelho longo e pegou sua bengala dourada que descansava ao lado do estofado.

"Muito bem, então, minha visita chega ao fim.", ele faz um gesto com a cabeça para Lucie, e então olha para o Gato na poltrona. "Saiba, Consciência, que possuo eu uma imensa admiração por sua figura. Apenas gosto de assustá-lo quando nos esbarramos por acaso."

O Gato, com a confissão que escutou por parte do tirano, sentiu o arrepio em seus pêlos se esvair pouco a pouco, e as orelhas, abaixadas em susto, voltavam à posição normal; eretas. Ele também assentiu com a cabeça.

Lucifer se foi e o grito de um corvo ecoou, uma estrela específica no céu brilhou mais forte quando ele desaparece nas sombras da noite.

O homem olhou para o Gato, e o Gato olhou para homem. Eles sorriram com os olhos um para o outro.

[...]

Conforme Lucifer disse à Lucie Astraios, dez anos depois de sua visita naquela noite de 31 de Outubro, o escritor veio a falecer por câncer nos ossos. Quando ele morreu, Gato estava deitado ao lado de sua cabeça, sabendo que o dono estava prestes à ir; não saiu de perto dele por um segundo sequer.

O Gato nunca mais foi o mesmo, ele perdeu o brilho dos grandes olhões verdes e abandonou sua forma de Gato, pois sentiu que estaria traindo Lucie caso outra pessoa o tomasse para si como um gato. Ele vagava como Gato somente pelas ruas.

Havia um detalhe, entretanto, de que até mesmo a Consciência desconhecia.

O pai de Lucie, antes de falecer, fez outro pedido à Lucifer...

Como ele pagou, não importava, por mais alto que o preço tenha sido. Mas ele pediu, ele pediu à Lucifer que, quando o seu filho viesse a falecer, que sua alma solitária jamais se perdesse do velho Gato Preto de dentes grandes pontudos e rabo torto no formato de um relâmpago; independentemente de em qual vida fosse, para sempre e em todas as encarnações, que eles tornassem a se encontrar, ambos como gatos.

Portanto...

Lucie Astraios reencarnou num gato magricela cinzento, de grandes olhos azuis caídos e orelhas pontudas.

Certo dia, andando cabisbaixo pelas ruas à noite, o Gato preto avistou o gato cinzento e, de alguma forma, quando o brilho em seus grandes olhos verdes voltou, ele soube, naquele exato momento, que aquele gato grisalho era Lucie Astraios; com quem estabeceleu uma forte conexão emocional e espiritual enquanto o homem estava vivo.

Aparentemente, e por alguma razão desconhecida, essa conexão foi tão forte que ultrapassou o além.

O Gato se aproximou do cinzento e, parando de frente para ele, cauteloso, disse:

"... Você se lembra de mim?"

O gato cinzento o olhou, curioso, e tombou minimamente a cabeça para um dos lados; o felino preto fez o mesmo.

"Como você se chama?", perguntou o grisalho.

"Meu nome é Gato. Apenas Gato."

Com aquela resposta, o gato cinza abriu mais os olhos. Sentiu um arrepio, ficou em silêncio.

"Sua voz, e esse nome.. acho que tive um deja-vú...", respondeu, baixo, o gato cinza. "Eu me chamo Luce. Gosto do cheiro de livros e páginas, minha dona me comprou uma cama, mas eu prefiro dormir em jornais. Você pode ir comigo e a cama pode ficar para você, Gato. Ela certamente não vai se importar com mais uma tigela de leite."

E então, quando o gato cinzento começou a andar, o preto o acompanhou.

"Ela gosta muito de gatos?"

"Ah, gosta sim, gosta muito. Ela só tem à mim, mas está procurando por um gato preto. Que nem na história de Edgar Allan Poe."

"Eu já li. Luce, eu vou adorar te fazer companhia.", o Gato preto sorriu. Eles se olharam.

Sorriram, com os olhos, um para o outro, e continuaram o caminho.

O Gato Luce demoraria a morrer, ele viveria muitos anos. E Gato, a Consciência, jamais morreria.

Quando Luce morresse, ele reencarnaria em outro gato, jamais se lembrando de suas vidas vividas com Gato, mas sempre voltando a se conectar com ele e amá-lo como se fosse a primeira vez. O preto sempre se lembraria de todas essas vidas.

E assim, se encontrando e se despedindo, se conhecendo e se reconectando, eles vagariam pelo mundo, eternamente, um cuidando do outro.

A Voz do Gato sempre voltaria a chamar por Lucie. Sempre.

Poenian
Enviado por Poenian em 21/12/2024
Reeditado em 21/12/2024
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