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Caminhadas


Strava.  Essa era o app que me despertou o interesse total pela caminhada. Sempre eu caminhava, mas sem a preocupação em saber quantos quilômetros andava ou quanto tempo ou quantas calorias eu gastava.
Mas agora tudo era diferente, eu podia acompanhar tudo no meu smartphone, em tempo real. Fiquei encantado. Maravilhado.

Para testar a maravilha em um domingo à tarde caminhei 2,4 kms. Humm, bom.

Próxima caminhada já foi mais de 10 kms.
E as próximas foram sempre acima disso, 12, 13, 16 .....
As caminhadas solitárias eram cada vez mais prazerosas e me perdia no tempo e no espaço.
Geralmente eu ia por rodovias não muito movimentadas, onde eu podia apreciar as árvores, ouvir o som das aves e de meus próprios passos.
Que sensação indescritível.  Uma conexão com natureza, com algo mais.
Algumas horas em que eu podia aprender, meditar e me aprofundar em ideias e pensamentos. Alguns muito claros outros nem tanto.
Teorias, filosofias, páginas que eu tinha lido, palestras que eu tinha ouvido, tudo vinha à minha mente de um modo muito mágico.
Eu precisava caminhar mais e mais.

Ao retornar de cada caminhada ficava sempre a ansiedade por uma nova, que logo aconteceria.

Novas caminhadas, novos lugares, às vezes o mesmo percurso, que percebi depois de pouco tempo e até comentei com um amigo meu que andar pelo mesmo caminho não era tão bom como os novos, ao se passar a terceira vez pelo mesmo caminho sentia-se que o encanto havia se perdido. Era preciso procurar um novo rumo, conhecer, desbravar, se aventurar.

Um adendo aqui: como se torna chato o hábito de todo dia fazer as mesmas coisas! Tédio.
As caminhadas oferecem essa oportunidade, um caminho novo a cada dia, um novo percurso, uma nova descoberta.

O tempo foi passando, as caminhadas se tornando mais e mais frequentes.
Todo dia agora. A distância aumentando a cada nova caminhada.
O tempo todo. Estava virando uma insanidade.
Eu chegava, observava como todos estavam, um banho, um breve descanso e saía novamente.
Percebi que algo estava errado. Não dormia, não comia apenas caminhava. Eu não conseguia mais parar.  Caminhos novos, paisagens novas, mas... virou uma rotina.
Mesmo indo para lugares diferentes, onde eu não conhecia.
Percebi que não estava mais tendo contato com pessoas, nem reais e nem virtuais.
Eu não compartilhava mais com amigos minhas superações nas caminhadas e estavam sempre aumentando as quilometragens.
Notei que nem celular mais eu carregava.
Nas rodovias não via mais nenhum automóvel ou caminhão.
E era sempre amanhecer.
Mas ainda assim, me fazia bem. As caminhadas.

Uma certa manhã, (minha vida era uma eterna manhã agora) entrei em uma rodovia estranha e escura e que em pouco tempo se tornou uma vicinal não asfaltada com árvores antigas e continuei caminhando mais e mais.
As velhas e antigas árvores foram se tornando mais escassas e quando percebi estava em um cemitério.  Aparentemente abandonado.  Feio, sem flores, túmulos velhos e abandonados com lápides estranhas.
Mas um desses túmulos me chamou atenção. Me pareceu bem recente, era de mármore fosco.
Fui me aproximando dele e diminui a velocidade de meus passos.
Alguém estava sentado sobre ele, de costas para mim, ali, imóvel, sem ao menos se virar para me olhar quando me aproximei.
Ao olhar a pequena inscrição com o nome, me assustei dando passos para trás.
Meu nome completo, com data de nascimento e falecimento, de cinco anos atrás.
Não podia ser, eu estava dentro de um pesadelo. Estava dormindo e precisava acordar.
Me senti sufocado, com medo e confuso.  O que estava acontecendo?

Foi então que a pessoa sentada de costas para mim, falou sem se virar, mas com uma voz suave e calma.
- Enfim você chegou. Estou há tempos te esperando aqui.
- Como assim? Não entendi...
- Você está morto. Há cinco anos. Me disse com a mesma voz calma de antes.
Senti que minhas forças me deixaram e que ia morrer, mesmo ele me dizendo que já estava morto.
Ele se virou para mim, notei que tinha um semblante suave, quase feliz.
- Sente ao meu lado, me disse, preciso te falar umas coisas.
Quando percebi já estava sentado a seu lado sentido uma paz que emanava de seu ser.
- Basta lhe dizer que sim, que você não está mais entre os vivos, faleceu em uma de suas caminhadas. Ele me disse. E apenas isso que você precisa saber.
- Mas como foi isso? E minha família? Esposa? Filhos?
- O modo que aconteceu não vai mudar nada e não é preciso que você saiba.  E quanto à sua família, eles estão bem agora e te admiram muito. Quando tudo aconteceu eu fui designado a ficar com eles e ajudar. Eles entenderam que você precisava caminhar. Era o que te movia para algum lugar.
- Mas caminho até agora. Onde é esse lugar? Para onde estou indo ou devo ir?
- Durante todas essas suas caminhadas aprendeu e ensinou muito. Seus pensamentos e ideias te levaram para muitos lugares. Mas há um lugar para seu descanso.
Após essas palavras uma estrada branca apareceu a pouca distâncias de onde estávamos
- Agora vá pela estrada branca. Mas me dê um abraço antes. Sempre acompanhei sua vida.
Abracei-o e segui em direção à estrada.
Algo bom me espera.

6 maio 2020
Hoje caminhei 13 km
Paulo Sutto
Enviado por Paulo Sutto em 06/05/2020
Código do texto: T6939280
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Sobre o autor
Paulo Sutto
Itapira - São Paulo - Brasil, 54 anos
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Paulo Sutto