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Jornada

A tarde estava se indo tão depressa, assim como havia chegado. No horizonte, do sol já abaixando sua crista mais alta, destacando no céu as luminosas nuvens que tinham suas posições privilegiadas em comparação daquela pobre alma que seguia observando, pelas janelas da alma, aquela explosão de cores provocadas pelo cotidiano do sol: o céu cada vez mais escuro; já se faziam visíveis um ou outro pontinho luminoso que causavam um belo contraste com aquelas nuvens que já passavam do laranja para o vermelho.
No momento em que a campainha soou, logo depois, já em pé, sentiu o leve solavanco de uma parada que ficou entre o abrupto e o suave, que chegou ao ponto de despertar o solitário e leve cochilo de um alma lá no fundo. Quem nunca tirou um cochilo, tendo seu leve sono embalado pelos movimentos de um ônibus, que atire a primeira pedra!
Ao sentir o chão firme em baixo dos seus pés, sabia que sua jornada estava começando ali. A empresa que seria vigiada se encontrava logo em frente, virando a próxima esquina. A jornada de trabalho era doze por 36, no relógio faltavam 15 minutos para o seu expediente começar. Logo que chegou na empresa trocou de roupa e pôs-se a trabalhar, o local era um enorme barracão, as paredes tinham entre 8 e dez metros de altura, era o local onde ficavam guardados os caminhões de coleta de lixo doméstico, os coletores e motoristas trabalhavam na coleta até as 2 horas da manhã, depois todos iam embora, menos o vigilante que, logo que a última pessoa cruzava do portão para fora, fechava o portão externo e a enorme porta de correr, que transformava o barracão em uma fortaleza quase que impenetrável e tinha um acréscimo: podia passar a noite na salinha onde, durante o dia, era usada como escritorio, mas à noite virava um forte onde se tinha visão privilegiada, não só de tudo dentro do barracão, mas também dava para ver eventuais movimentações externas. Nessa noite em questão estava tudo correndo tranquilamente, nada de novo, todas as são iguais...
Não se assustava com os barulhos que eram escutados madrugada a fora. De dia o calor era intenso, por isso pensava que era o metal do telhado que estava voltando ao se original.
Como o vigilante ficava sozinho até às 7 da manhã, sempre tinha com ele o pequeno rádio: sua companhia até a primeira alma chegar pela manhã. O rádio, sempre com a mesma sintonia, o sintonizava com o mundo além daquelas paredes. Quantas reflexões as horas solitárias lhe ofereciam, como se fosse uma recompensa por observar o mundo além dos limites do horizonte.
Nunca foi de ter medo do sobrenatural "maldade é coisa de vivo", falava, sempre que alguém puxava assuntos sobre o que a madrugada tem de mais apreensivo.
Sentado em uma das poucas cadeiras que aquele pequeno escritório tinha, bem rente à uma das quatro paredes daquele pequeno cúbico, revezando olhares às paredes laterais, passando sempre o olhar pela parede frontal, o movimento dos olhos era a fricção que movimentava seu pensamento, na sua mente tinha um intrincado mapa mental, que de quando em quando perdia-se, não sabendo como retornar ao ponto inicial, apenas segui vagueando, em seu vagão pensamento, pelos trilhos mentais: pensamentos sem fim.
De repente sentiu-se como aquela alma que, algum tempo antes, viu ser desperta no ônibus. Aquela era uma hora que, nos dias normais, os barulhos já haviam sessado. Escutou um barulho no teto e, ao olhar na direção de onde soou aquele estranho baque, sentiu todos os pelos do seu corpo se eriçarem. Aquele arrepio nunca havia sentido em toda a sua existência. No seu corpo não sentia suas roupas. Sem desviar o olhar teve que passar as mãos no corpo para saber se ainda estaca vestido, com as palmas abertas as mãos percorreram do peito às coxas. Elas ainda estavam lá. E aquilo também estava lá, sentado em um das estruturas da cobertura daquela "fortaleza impenetrável", brincava com os pés, jogando-os intercaladamente para frente e para trás. Todo vestido de preto, tinha certa inocência nos movimentos dos seus pés, da mão para boca, da boca para a mão passeava aquele guarde cigarro, que nunca diminuía ou apagava. Paralisado o vigilante, gelado de "desconfiança", observava quando aquele ser movimentou o olhar em sua direção. Pensava que aquilo não estava acontecendo. Não poderia ser real.
Viu quando a criatura se pôs de pé e escutava os lentos e calmos passos que dava andando de uma estrutura à outra. Estava passeando como ele antes estava em sua mente. Sentia cara toque daqueles pés martelando sua alma.
Desviou o olhar por uma fração de segundos, quando voltou a fitar onde o ser estava não viu mais nada, mas os sons de passos ainda se faziam presentes. Correu até aporta, que estava aberta, e olhou a escada. Lá estava ele. Pode ver com mais clareza os traços e características daquilo. Sapatos, calças, casaca e chapéu; estava com preto da cabeça aos pés. Conseguia ver muitos detalhes perfeitamente, mas a face é que não era nítida; era como se seu rosto tivesse sido desenhado com carvão e logo que finalizado passaram algo que o deixou todo borrado.
O vigilante, apreensivo, lembrou de todas as lendas e causos sobre o desconhecido do nosso mundo. A criatura fez mansão de subir as escadas, e, em um rompante de coragem "PARADO AÍ! ENQUANTO VOCÊ ESTAVA LÁ EM CIMA EU NÃO LIGUEI, MAS DESTA ESCADA PARA CIMA É MEU LUGAR!!! DEUS É COMIGO!!!", gritou o vigilante.
E viu o estranho homem desistir da ideia, virar de costas e desaparecer atrás da parede lá em baixo.
Diego Crevelim
Enviado por Diego Crevelim em 29/03/2020
Reeditado em 15/04/2020
Código do texto: T6901085
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Diego Crevelim
Curitiba - Paraná - Brasil, 29 anos
24 textos (947 leituras)
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Diego Crevelim